
Comportamento
Doutor livro ao seu dispor
Ainda pouco difundida no Brasil, a biblioterapia prescreve injeções de leitura para acelerar processos de cura
| Beto Scliar/Divulgação |
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| “Os textos consolam, amparam, dão esperanças e acenam com uma vida melhor”, defende o escritor Moacyr Scliar, que também é médico |
Universal/Divulgação |
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| Ser ou não ser? Até hoje, leitores de todo o mundo se identificam com os dilemas de Hamlet, obra-prima de Shakespeare. Na foto, a versão cinematográfica protagonizada por Laurence Olivier |
Na prateleira da sala ou na cabeceira do quarto, repousa um velho amigo. Sempre disponível para consultas, esse senhor de capa dura e lombada brochura não costuma poupar palavras. Às vezes, os livros nos acompanham ao longo da vida. E essa constância admirável nos enche de conforto. Quando ministrada na dose correta, a leitura diária de um punhado de páginas pode até ter efeito terapêutico. Em linhas gerais, é isso que propõe a biblioterapia.
Ao ler histórias sobre personagens que passam por conflitos semelhantes aos nossos, vislumbramos saídas e alternativas. Mas como encontrar “o” livro que poderia mudar a nossa vida? Dado o número de títulos disponíveis na literatura universal, a triagem pode ser extenuante. É aí que entram em ação os biblioterapeutas. Trabalhando como verdadeiros investigadores, eles pesquisam a “vida literária” dos pacientes para descobrir qual autor poderia catalisar o processo de cura.
Apesar de ainda ser pouco conhecido, o método vem sendo testado com sucesso em diversos países. Na Inglaterra, o pioneirismo coube à School of Life, instituição encabeçada pelas especialistas em letras Susan Elderkin e Ella Berthoud. Após um período de cinco meses de entrevistas (que podem ser feitas cara a cara ou a distância, por telefone ou e-mail), as duas traçam o perfil dos pacientes. O segundo passo é fazer a lista de obras a serem lidas. E se você pensou apenas em livros de autoajuda, saiba que não poderia estar mais enganado: de Ovídio a Saramago, tudo entra na dança.
Na verdade, a ideia de que livros podem ajudar a enfrentar problemas e carências emocionais é tão antiga quanto a própria prática de ler. No Egito antigo, o faraó Ramsés II já acreditava que os livros eram os “remédios da alma”. Na Grécia Antiga, recomendava-se a leitura individual como parte do tratamento médico. Apenas a partir do século 20, a leitura compartilhada e a posterior discussão em grupo recebeu o nome de biblioterapia. Para o médico e escritor Moacyr Scliar, a biblioterapia está tão integrada à vida das pessoas que, às vezes, pode até passar despercebida. “As pessoas leem a Bíblia em busca de amparo emocional, por exemplo”, pondera. Ele explica que as raízes da biblioterapia vêm dos textos sagrados, que “tinham efeitos psicoterápicos antes de a medicina pensar em psicoterapia”.
Além disso, o autor frisa que os efeitos práticos da biblioterapia vão muito além da mera abstração dos problemas. Graças à catarse provocada pela identificação com as obras, os sentimentos reprimidos podem ser verbalizados, colocados para fora — e trabalhados. “Os textos consolam, amparam, dão esperanças e acenam com uma vida melhor”, defende. Apesar da semelhança com grupos de leitura, que elegem uma obra para ser discutida posteriormente por todos os integrantes, as sessões de biblioterapia se diferenciam por ter um mediador, que irá ditar os rumos da conversa e indicar os novos textos a serem trabalhados. “O coordenador precisa ter uma formação psicoterápica e conhecimento da área literária”, completa Scliar. Somente com a soma dos dois campos de conhecimento é possível organizar um grupo realmente eficaz.
Autora de diversos artigos e livros sobre biblioterapia, a bibliotecária e professora Clarice Fortkamp Caldin destaca que há duas modalidades de biblioterapia. Enquanto a biblioterapia de desenvolvimento é executada por bibliotecários, na biblioterapia clínica o foco é o trabalho feito por psicólogos. “Por meio da leitura, narração ou dramatização de um texto literário, procura-se instigar a imaginação do público-alvo, ao mesmo tempo permitindo livre expressão de suas emoções”, complementa. Dizer que o desabafo e a interpretação das histórias podem ditar os rumos da vida de alguém pode até ser um exagero, mas não há dúvidas de que os livros servem como parâmetros de comportamentos. “A pessoa é responsável pelas decisões que toma”, diz Caldin. “O aplicador deixa ao cargo do público-alvo a liberdade de interpretação.”
Se na terapia convencional o palco é o consultório, a biblioterapia é mais democrática: basta que se tenha a matéria-prima essencial — livros, claro. “Na maioria das vezes, selecionam-se creches, escolas, orfanatos, asilos, casas de repouso, prisões, e executam-se as atividades de biblioterapia em local que acomode o público-alvo de forma confortável e aprazível”, detalha a professora. Com tantos benefícios, será um bom negócio substituir a terapia convencional pelos remédios escritos? Para Caldin, a troca pode não ser uma boa ideia, uma vez que a biblioterapia de desenvolvimento é uma arte, não uma ciência — e, como tal, não substitui os tratamentos convencionais ou medicamentos. “O cuidado demonstrado pelos aplicadores permite a intercorporeidade, a intersubjetividade e o descentramento, que são fatores benfazejos”, explica. “Isso fornece a certeza de que não estamos sozinhos para enfrentar os problemas.”
Vários títulos
Apesar de usar o mesmo princípio como base, a biblioterapia se divide em alguns tipos diferentes. Saiba mais sobre eles:
Biblioterapia institucional
Biblioterapia clínica
Biblioterapia desenvolvimental
Uma receita para cada caso
| Valério Ayres/Esp. CB/D.A Press |
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| ``A gente espera contribuir para que os pacientes
superem o tratamento e a dor da doença´´
Cristiane de Castro, bibliotecária que está desenvolvendo um projeto para pacientes com câncer |
A ideia de ler os livros certos e, de repente, ver seus problemas evaporarem é um tanto simplista. A bibliotecária e professora Maria Alice Borges alerta que uma escolha de títulos feita de forma inadequada pode não dar resultado algum. Para não correr o risco de errar na mão, ter sensibilidade para perceber as reais necessidades dos pacientes e o ambiente onde o trabalho está sendo feito é essencial. Uma pessoa com tendências suicidas, por exemplo, não se beneficiará com leituras apenas sobre suicídio. “Você passa pelo tema, mas sob o ponto de vista de uma discussão, sabendo que nós poderemos chegar a uma situação igual a de outra pessoa que não tenha passado por isso.”
Diferentemente de uma leitura banal, a biblioterapia busca dar informações sobre os problemas vividos e os resultados que se espera alcançar — que mudam dependendo do público-alvo abordado. “Se for em um hospital, você tem que ter uma literatura que não seja de reforço àquela dependência hospitalar, mas uma que mostre que aquela dependência é um período transitório para uma mudança”, ilustra a bibliotecária. Ela explica que, quando o trabalho é feito com crianças abandonadas, por exemplo, o cuidado com os livros receitados deve ser redobrado. Para ajudar a minimizar os impactos da realidade já complicada em que vivem, os profissionais podem usar e abusar da imaginação. Das histórias com fantoches a livros de contos, o principal é minimizar as deficiências e reforçar a mensagem de que há sim uma realidade complicada, mas também alternativas para ela.
E foi para apontar alternativas a uma realidade triste que a bibliotecária Mariana Giubertti, 24 anos, resolveu se aprofundar no assunto. Em 2009, a então estudante decidiu transformar a biblioterapia em projeto de conclusão de curso. Em um ano, Mariana mapeou e coletou dados em um orfanato, tendo como objetivo montar uma biblioteca infantojuvenil que usasse princípios da bilbioterapia. “Quis fazer isso não só para suprir as necessidades emocionais dessas crianças, mas para incentivá-las a ler, para que elas tomassem gosto por isso”, justifica. O amor pela palavra impressa gerou não apenas o projeto de planejamento da biblioteca, mas também de uma brinquedoteca e de um ambiente de inclusão digital. A satisfação só não foi maior pela impossibilidade de ver tanto trabalho sair do papel. “Não pude aplicar o projeto porque o orfanato fechou”, lamenta Mariana.
A também bibliotecária Cristiane de Castro Pires, 22, teve mais sorte que Mariana. Assim como ela, Cristiane também elegeu a biblioterapia como tema principal de seu trabalho para se formar em biblioteconomia, no ano passado. Entretanto, o foco não eram crianças, mas pacientes com câncer. O primeiro passo foi, literalmente, fazer as devidas apresentações entre os pacientes e as obras. “Procurei livros que tinham imagens bonitas, porque muitos não sabiam ler ou não tinham o hábito ainda”, conta. Quando a pesquisa acabou, veio a vontade de colocar a mão na massa. Por enquanto, Cristiane conta que ainda está na fase de classificar os livros — todos vindos de doações. “Quando a biblioterapia realmente começar, espero ter o auxílio de psicólogos e até de pacientes que gostam de ler e se disponham a ler para os outros”, diz. Segundo Sandra Bonfim Baptista, assistente social que também vestiu a camisa do projeto, a previsão é que o trabalho comece em julho deste ano. “A gente espera contribuir para que eles superem o tratamento e a dor da doença”, completa.
Na prateleira
O terapeuta e o lobo — A utilização do conto na psicoterapia da criança
O livro é o resultado de uma pesquisa clínica comparativa feita na França, que analisa crianças que passam por um processo de ruptura com suas famílias. Na obra, Celso Gutfreind — psiquiatra infantil, poeta e escritor — fala sobre a importância do conto para o reforço à identidade infantil e para driblar medos comuns na infância.
Editora: Casa do Psicólogo
Autor: Celso Gutfreind
(Preço sob consulta)
O olhar médico — Crônicas de medicina e saúde
Por meio de crônicas,
o médico e
escritor Moacyr Scliar
fala de questões
ligadas à vida e à
saúde de maneira
geral, com temas como medicamentos, dor, esportes, sexualidade, velhice, morte
e qualidade de vida.
Editora: Ágora
Autor: Moacyr Scliar
(R$ 39,90)
Agradecimento: Associação Brasileira de Assistência as Pessoas com Câncer (Abrapec)








