História
Brasília, 31 de julho de 2008
Com 90 anos recém completados, morreu na manhã da quinta-feira, 31 de julho o artista plástico Athos Bulcão. Ele estava internado no Hospital Sarah Kubitschek da Asa Sul, em Brasília, e faleceu às 9h20 devido a complicações por mal de Parkinson. "Ele terá todas as homenagens que merece", disse Cláudia Pereira, membro do conselho curador da Fundação Athos Bulcão. Athos, que havia completado 90 anos no dia 2 deste mês, é conhecido pelos belos azulejos que colorem diversos monumentos da capital federal.
Mas sua obra vai muito além. Para celebrar o aniversário do artista e revelar ao público todas as faces do criador, as fundações Athos Bulcão e Assis Chateaubriand abriram a exposição Vida, arte e movimento. Vinte e dois trabalhos do artista, entre máscaras, serigrafias, aquarelas e os famosos azulejos, podem ser vistos no Espaço Chatô, no prédio anexo ao do Correio Braziliense.
Athos é reconhecido por seus múltiplos talentos . pinturas, máscaras, gravuras, fotomontagens e integrações arquitetônicas fazem parte de sua rica coleção. Difícil acreditar que, na juventude, estudou medicina por quase três anos, mas não teve jeito, a paixão pela estética da criação falou mais alto e o jovem abandonou o curso para se embrenhar nas veredas da arte.
Trajetória
Athos Bulcão nasceu em 2 de julho de 1918, no Rio de Janeiro. Aos 18 anos, ingressou na Faculdade de Medicina, que abandonou três anos depois quando decidiu se dedicar à carreira artística. Foi na casa do paisagista Burle Marx que conheceu o arquiteto Oscar Niemeyer, de quem se tornou amigo e parceiro de muitos trabalhos. Em 1957, recebeu um convite de Niemeyer: colaborar na construção da nova capital da República. Em agosto do ano seguinte, mudou-se definitivamente para a cidade pela qual se apaixonou.
Há quase 200 trabalhos assinados por Athos Bulcão em toda a cidade . Teatro Nacional, Itamaraty, escolas e até mesmo em algumas residências. O artista faz parte do cotidiano do brasiliense, que se acostumou a viver em um lugar onde a escultura, o mosaico, a pintura estão sempre ao alcance de todos.
O artista também tem forte ligação com a Universidade de Brasília (UnB), onde trabalhou entre 1963 e 1965 como professor do Departamento de Desenho do Instituto Central de Artes. Ele pediu demissão com outros 200 docentes em um protesto coletivo contra a repressão da ditadura militar. Em 1988, voltou a lecionar no instituto. Para cuidar do importante acervo do mestre, um grupo de amigos e admiradores de sua obra fundou, em 1992, a Fundação Athos Bulcão, destinada a preservar e divulgar sua arte e seu nome. Em agosto, Athos Bulcão celebraria 50 anos desde que escolheu Brasília como sua casa.
Inventário
Com o objetivo de obter um panorama completo da situação em que o acervo do artista se encontra, a empresa Tríade Patrimônio, em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e apoio da fundação Athos Bulcão, prepara um inventário de todas as obras de Athos espalhadas pela cidade. .Esse estudo vai possibilitar conhecer a situação. Nosso objetivo é estruturar um plano de ação para a recuperação, manutenção e salvaguardar o bem., explicou a diretora Lana Guimarães.
Depoimentos
"Para mim a morte do Athos é uma pena porque ele foi um dos artistas que criaram a identidade visual de Brasília. Como ele fez praticamente todas essas obras de complementação arquitetônica do Oscar Niemeyer, a gente tem um imaginário ligado à sua obra. Posso citar, por exemplo, a Igrejinha com a pomba virada ao contrário, o Congresso Nacional, os azulejos do Aeroporto, até o Parque da Cidade. Ele é uma pessoa fundamental para cidade porque no fim das contas, o que vai ficar é esse imaginário de imagens criado por ele. No futuro quando mostrar a pomba da Igrejinha, por exemplo, é Brasília, ou seja, é o Athos Bulcão. Ele merece todas as homenagens e inclusive a inclusão de sua história e obra no currículo escolar."
(Sérgio Moriconi, jornalista, crítico e diretor do curta Athos)
"Acho que nenhum artista no mundo tem uma obra com uma onipresença tão maior que a dele. Ele deixou uma herança enorme para a cidade e para o mundo. E também tinha um caráter incrível, uma pessoa de uma transparência e de uma leveza únicas. Era um artista completo, um ser humano completo."
(Bené Fontelles, artista plástico, compositor e escritor)
