Entrevista
Por Renata Mariz
MAYANA ZATZ
Com 280 trabalhos científicos publicados, a geneticista Mayana Zatz se tornou referência mundial na área e virou símbolo da luta pela legalidade das pesquisas com células tronco embrionárias no Brasil. Embora condene a interferência religiosa na discussão, acredita que os ministros não se apoiarão em dogmas no julgamento de hoje. Ela explica que apenas 5% dos embriões congelados há mais de três anos serviriam, hoje, para serem implantados em um útero ou mesmo para a pesquisa.
A senhora teme que o debate religioso interfira no resultado do julgamento?
Espero que não interfira. Acredito que os ministros irão se guiar pelo ponto de vista jurídico, seguindo o modelo de Estado laico em que vivemos. Mas essa pressão religiosa sempre aconteceu. Quem é contrário às pesquisas, inclusive os cientistas, tem motivos religiosos para isso.
O embrião já deve ser considerado uma vida humana?
Ele tem um potencial de vida, eu diria. Acontece que estamos falando de embriões congelados. Numa fertilização in vitro, que gera em média cinco ou seis embriões, e não há como controlar esse processo até agora, três ou quatro são descartados, por não terem boa qualidade. Desses que sobram, que já são os de pior qualidade, 95% são inviáveis tanto para serem implantados quanto para pesquisa. Essa é a questão.
Então sobrariam poucos para a pesquisa?
Sim, são poucos, se considerarmos que hoje existem cerca de 30 mil em clínicas brasileiras. Mas se conseguirmos mil linhagens, já é uma grande coisa, porque podemos replicar essas linhagens para fins de estudo.
Outras fontes de células-tronco não poderiam ser usadas?
Podem e devem ser usadas. Uma pesquisa não inviabiliza a outra. Mas acreditamos
que só a célulatronco embrionária poderia formar determinados tecidos, como o neural. Isso ajudaria pessoas com Parkinson, doenças degenerativas, gente que se tornou tetraplégica.
CLÁUDIO FONTELES
Autor da ação de inconstitucionalidade que será votada hoje no Supremo Tribunal Federal, Cláudio Fonteles nega que a discussão sobre o início da vida tenha viés religioso.Católico franciscano, o ex-procurador-geral da República defende a proibição do uso de embriões invocando princípios constitucionais. E argumenta que outras fontes de células-tronco podem substituir o embrião.
O senhor concorda que o aspecto religioso tem pesado muito nesse debate?
Discordo plenamente. Posso dizer que a minha petição trabalha com dois princípios que estão na Constituição. Primeiro a dignidade humana e, depois, o princípio da inviolabilidade da vida. No ato de fecundar, quando surge o zigoto, já existe vida. Portanto, essa vida precisa ser protegida conforme nossa Constituição.
Mas os embriões de que trata a Lei de Biossegurança estão congelados há mais de três anos e, portanto, seriam inviáveis. O que fazer com eles?
Existem pessoas que nasceram após 12, 13 anos de congelamento do embrião. Não podemos dizer que ali não existe vida. Acho que são possíveis outras formas de pesquisa, tão ou mais promissoras do que essas que utilizam embriões humanos.
Quais seriam as alternativas?
Uma área de estudo com resultados fantásticos é a pesquisa com célula-tronco adulta. Muitos trabalhos científicos têm mostrado avanços nesse campo. Além disso, hoje há bancos de cordões umbilicais e até reprogramação celular, uma técnica que induz a célula-tronco adulta a ter os mesmos atributos que uma Embrionária.
Mas os cientistas alegam que só as células de embriões teriam capacidade de se transformar em alguns tecidos, como o neural, por exemplo.
Em tese, sim. Mas é preciso lembrar que até hoje não há nenhum resultado concreto. Acredito que, de fato, as células embrionárias sejam mais potentes, porque ali estão concentradas todas as características do ser. Isso prova que naquele momento já existe vida.
