Pesquisas

Thomaz Pires
Do correiobraziliense.com.br

Cientistas brasileiros desenvolvem atualmente 51 projetos financiados pelo governo que testam o potencial das células-tronco para gerar tecidos e futuros tratamentos. As maiores apostas concentram-se nas terapias celulares em cardiopatia, como insuficiência cardíaca, infarto do miocárdio e cardiopatia chagásica. Mais de mil pacientes já se submeteram a alguns procedimentos e obtiveram resultados satisfatórios. O Ministério da Saúde, em parceria com o Ministério da Ciência e Tecnologia, investiu nos últimos quatro anos R$ 14,4 milhões somente nesta proposta, além de R$ 10 milhões em outros estudos.

O tratamento de cardiopatia utiliza as células-tronco adultas. Elas são retiradas da medula óssea do paciente e em seguida isoladas em laboratório. O material é injetado na borda da região formada por tecido morto do coração.  A regeneração leva alguns meses para manifestar e varia de acordo com o organismo do paciente. Após iniciado o processo, novos vasos sanguíneos são formados no órgão, o que aumenta em mais de 40% as chances de cura as doenças cardíacas.

Mais de 40 institutos de pesquisas registrados no governo desenvolvem os estudos de cardiopatia celular. A seleção teve como critério os editais lançados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Cnpq), que libera de forma gradativa as pesquisas. Alguns trabalhos chegam a ter como prazo 36 meses para apresentar o relatório final para a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP), que acompanha todo o processo.

Mesmos com os incentivos do governo, os pesquisadores argumentam que os recursos ainda são insuficientes para garantir avanços rápidos nos estudo. Segundo a Sociedade Brasileira para Progresso da Ciência (SBPC) seriam necessários, em média, R$ 1 milhão por ano aos institutos contemplados para garantir resultados pontuais. Com isso, pesquisadores já buscam incentivos junto a empresas interessadas em patrocinar as propostas.

Vice-presidente da SBPC, Helena Nader argumenta que os valores repassados pelo governo caminham em escala crescente. Porém, alega que as cifras estão longe em atender às necessidades dos estudos desenvolvidos. “Os fundos setoriais do governo passam por um amplo contingenciamento. Esse tem sido o maior desafio não só para as pesquisas com células-tronco, mas todos os trabalhos na área da ciência”, diz ela.

Segundo o Secretario de Ciência Tecnologia e insumos estratégicos do Ministério da Saúde, Reinaldo Guimarães, os cortes em pesquisas agravaram-se após mudanças na arrecadação tributária do governo. Ele argumenta que essa tem sido a principal razão para o enxugamento dos fundos setoriais, criados em 1999 para financiar os estudos científicos no país. “A situação agravou-se após a suspensão da CPMF. Isso causou um impacto nas contas do governo e conseqüentemente refletiu nos financiamentos de estudos”, explica.
 
Além dos recursos insuficientes, pesquisadores mostram-se insatisfeitos com a falta de um órgão representativo desvinculado do governo que gerencie as pesquisas. O Presidente da Cátedra de Bioética na Universidade de Brasília (UnB), Volnei Garrafa, avalia a inexistência de um Conselho Federal de Bioética no país como um fator comprometedor para as estudos. Segundo ele, a entidade poderia agir como um motor para as pesquisas e ajudar nos avanços dos trabalhos com células-tronco embrionárias, que ainda permanece em fase inicial nos laboratórios brasileiros. “Todos os países que estão com os estudos com células-tronco avançados possuem um Conselho de Bioética. O mesmo deveria ocorrer no Brasil. Tenho certeza que isso ajudaria em muito as pesquisas evitando a interferência do estado e grupos contrários”, diz.

 

Corrida Mundial
Enquanto cientistas brasileiros aprimoram os tratamentos em cardiopatia com células-tronco adultas, laboratórios europeus e nos Estados Unidos avançam nas pesquisas com embriões humanos. Países como Espanha, França, Inglaterra adotam uma postura liberal para o tratamento, embora eles ainda sejam criticados por uma minoria que condena a utilização de embriões em terapias celulares.

Há vários estudos promissores na utilização de células-tronco descobertos nos últimos três anos por cientistas dos Estados Unidos. Um deles, publicados na revista Nature, trata da transformação de células embrionárias em neurônios motores, responsáveis pela transmissão das informações do cérebro para o restante do corpo. Os estudos mostraram eficácia em indivíduos que haviam perdido movimentos, mas que conseguiram retomar de forma parcial após a aplicação das células nos tecidos lesionados.