03/07/2009 -
A saga dos cotistas
Camila de Magalhães
Paulo Henrique/CB/D.A Press
Gustavo, Juliana e Devs têm futuro promissor |
Segundo a secretaria de atendimento ao aluno, hoje a UnB conta com 2.657 alunos cotistas. A primeira entrada ocorreu no primeiro semestre de 2004, quando ingressaram 442 negros e pardos. No primeiro semestre de 2005, foram mais 137. Os cotistas têm direito a 20% das vagas de todos os cursos da universidade.
Dos que entraram no primeiro semestre de 2004, 191 cotistas estão regulares, cursando diferentes faculdades. Até o final de junho, 179 estudantes das turmas de 2004 e 2005 já haviam se formado.
Ângelo Roger de França formou-se em serviço social. Ingressou no primeiro vestibular do sistema de cotas. Estudou todo o ensino médio e fundamental em escolas públicas. Para ele, ser cotista era um motivo de orgulho, apesar das opiniões contrárias.
De acordo com o assistente social, o racismo está instalado na UnB. "Você começa a perceber as sutilezas", conta Ângelo. "Os professores não estavam dispostos a falar sobre o sistema de cotas porque muitos não concordam". Outra questão eram as pichações nos banheiros, diz. Mensagens como "Cotas hoje, marginais com PHD amanhã" e "Morte aos cotistas" eram um insulto para Ângelo. O jovem lembra que a discriminação era mais implícita, não por xingamentos. No início, ele não ficava magoado, mas depois, sim.
Mas o rapaz conseguiu dar a volta por cima. Terminou o curso com notas excelentes e já passou em três concursos públicos. Um deles para analista do Tribunal de Justiça do DF e Territórios, na área de serviço social.
Para a estudante do 9º semestre de pedagogia Juliana Cristina Siqueira, 24 anos, o sistema de cotas é uma forma de reparar os danos sofridos pelos negros até hoje. "Há muito racismo institucional no Brasil", lamenta. Quando terminar a faculdade, no fim do ano, Cristina pretende lutar por um mestrado na área de gestão educacional e diversidade étnico-cultural.
Devs Oliveira, 26 anos, diz que uma das coisas mais difíceis quando entrou na UnB era assumir a condição de cotista. "As pessoas viam como uma facilidade de acesso à universidade, mas não é verdade, o ponto de corte é o mesmo".
Depois que percebeu que não havia necessidade, passou a aceitar e, hoje no 10º semestre, é um dos mais respeitados no curso, pelo mérito como pesquisador. Devs quer fazer mestrado e ser diretor de teatro.
No 7º semestre de ciências políticas e ex-aluno de geografia, Gustavo dos Santos Cantuária também foi vítima de preconceito. "Na geografia, eu não era muito acolhido", lembra. E agora, em ciências políticas, ele conta que foi melhor acolhido, porém por um grupo pequeno. "O curso é ainda muito conservador e não há professores negros", observa. Gustavo pretende emendar a graduação com um mestrado .
Para as pessoas entenderem a necessidade da política de cotas, destaca o rapper brasiliense Gog, é preciso ter uma vivência histórica da escravidão, como ela foi abolida e os indicadores sociais que estão aí. "O sistema de cotas é uma oportunidade de ensino. Os negros têm que entrar de cabeça erguida, não precisa ter vergonha".
Rapper brasiliense condena discriminação contra aluna cotista da UFJF
Acompanhe as novidades do Eu, estudante no Twitter
Total de comentarios: 1
Último Comentário:
03/07/2009 - 22:41 Por: Zé
A escolha da palavra saga no título foi muito interessante. Será que a jornalista está comparando a história desses estudantes às lendas da Escandinávia? Uma pergunta me inquieta. Como um estudante que já passou em três concursos públicos, cuja concorrência é bem maior que a da Unb, precisou das cotas para entrar na universidade? Eu, que tive o azar de nascer pobre e com a pele branca, não posso ser tachado de preconceituoso porque acho o sistema de cotas uma afronta ao parágrafo quinto de nossa Carta Magna.



