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19/11/2009 -


Zumbi ainda inspira conflitos

Rosane Garcia



O vice-diretor Raimundo Monção, com os alunos Edgar Froés, Maria Kamila e Diego Nunes: orixás feitos em sala

Na comemoração do Dia Nacional da Consciência Negra, a referência aos orixás provoca desentendimento entre alunos e professor no Centro de Educacional nº 4 de Taguatinga




Às vésperas das comemorações do Dia Nacional da Consciência Negra ― 20 de novembro, data da morte de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares e referência da resistência do povo africano à escravatura ―, um conflito entre religião e o ensino da história e cultura africana e afrobrasileira mudou a rotina do Centro Educacional nº 4 de Taguatinga. De um lado, o professor Francisco Albuquerque Santos Filho e, de outro, alunos católicos e evangélicos do 1º ano do ensino médio. Os estudantes insurgiram-se contra a temática deste ano referente aos orixás cultuados nos terreiros de candomblé. Eles recusaram-se a fazer um dos painéis de um total de 10 programados em setembro como estratégia do professor para colocar em debate os mitos africanos.

Os painéis comporiam para o cenário para a agenda de atividades desta sexta-feira, em homenagem a Zumbi, com enfoque nas manifestações culturais brasileiras, originárias das danças, jogos e lutas dos povos africanos, como maracatu, maculelê, capoeira, congada, reisado, tambor de mina, jongo e outras. Ao lado dessas expressões, ocorreriam palestras de personalidades e estudiosos da cultura afrobrasileira.

A não entrega do trabalho pelos alunos teria comprometido o que foi acertado dois meses atrás, o que deixou o professor indignado. O desentendimento chegou à direção da escola, que acolheu as ponderações dos estudantes e desautorizou o professor a insistir com cobrança. Na troca de argumentos com a direção, o professor Francisco Albuquerque ficou em desvantagem e foi devolvido à Regional de Ensino. Para a direção do Centro de Ensino 4, na homenagem a Zumbi não cabe a difusão do ritual das religiões de matriz africana.

De acordo com o vice-diretor do CED 4 de Taguatinga, Raimundo Monção, desde agosto, a diretoria vinha recebendo reclamações dos alunos por causa do andamento do projeto. Segundo ele, os estudantes alegavam que estavam sendo obrigados a praticar os rituais do candomblé, em vez de aprenderem sobre a história e a cultura africana e afrobrasileira. "A Constituição diz que o Estado é laico e que todos nós temos direito à cultura e religiosidade, mas cada um na sua. Então, ninguém pode obrigar uma pessoa a praticar o culto que não quer. E é o que estava acontecendo aqui na escola. O professor estava voltando o projeto para a área do candomblé, fazendo com que eles montassem bonecos de orixás e apresentassem danças típicas da religião", conta.

Intolerância

O professor reagiu, indignado, diante desse entendimento da direção da escola e assegurou: “Em momento algum pretendi ensinar o ritual do candomblé aos alunos. Mesmo porque vivemos em um país laico”. Mas garante que a religião das diferentes etnias africanas trazidas ao Brasil no período colonial foi o elemento de união de todas elas e de resistência ao tratamento desumano dispensado pelos senhores de engenho, que tinham os negros como única força de trabalho indispensável ao desenvolvimento econômico do país. Ele lamenta o comportamento da direção da escola. “Foi um gesto de intolerância, quando ela poderia ter mediado a resistência dos alunos em trabalhar a mitologia africana em vez de devolver-me para a Regional de Ensino”.

Diante da situação, Monção afirmou que por várias vezes a equipe diretora conversou com o professor Francisco Albuquerque para que ele mudasse a vertente do projeto, mas os encontros não tiveram sucesso. "Poderíamos, sim, fazer um projeto cultural, mas desde que ele não tivesse nenhuma afinidade com nenhuma religião. No entanto, nós não tivemos sucesso e foi necessário afastar o professor. Nas reuniões, ele falava uma coisa pra gente, pedíamos pra ele mudar, ele concordava, mas quando chegava na aula com os garotos ele impunha novamente o que queria", explica

Francisco há três anos trabalha a aplicação da Lei federal nº 10.639/2003 com os estudantes das três séries do ensino médico. A lei inclui no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática história e cultura africana e afrobrasileira.

O professor diz ainda que busca, em suas aulas, ensinar como os costumes e hábitos dos negros africanos contribuíram para a formação do tecido cultural brasileiro. “Não fico restrito à história da religiosidade africana e às suas expressões atuais. Mas ensino a trajetória desde a África antiga, um continente rico e próspero, passando pela ocupação européia do território africano, o início da escravidão, o embarque de negros para o Brasil até chegarmos ao processo de submissão desumana imposta aos africanos. O continente africano nem sempre foi pobre e miserável como vemos hoje em vários dos seus países”, afirma Francisco Albuquerque. Segundo ele, o tema é tratado de forma interdisciplinar, passando pela geografia, a biologia e outras disciplinas.

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Os estudantes

Com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) na mão, o presidente do grêmio estudantil, Edgar Froes, 18 anos, afirmou que o aluno tem liberdade de crença e culto religioso e, mesmo assim, o professor estava obrigando os estudantes a praticarem um culto religioso. "Era para ser um trabalho cultural, mas acabamos caminhando para o lado da religião, só para a religião. Temas importantes como o Zumbi, importante para a nossa cultura, não chegamos a ver com profundidade", afirma. "A cultura tem vários elementos, mas infelizmente estávamos vendo só a religião", completa.

Edgar destacou também, que ainda de acordo com o ECA, o aluno tem direito de contestar critérios avaliativos, podendo recorrer às instâncias escolares superiores. "Uma coisa é apenas um aluno reclamando e outra é praticamente todos estarem contra a avaliação. E eu passei de sala em sala e 99% dos alunos estavam contra os critérios adotados pelo professor", conclui.

Para o aluno Diego Nunes, 16, estudar sobre a religião é de extrema importância, pois faz parte da cultura afrobrasileira. Porém, como destacou, o trabalho poderia ter sido conduzido de outra forma. "Nossa turma resolveu fazer os orixás por ser uma questão cultural e não deixar de falar sobre algo que ainda existe na cultura do Brasil e da África. Mas expor do jeito que ele queria, eu acho que seria constrangedor. Tinham uns bonecos com faca na cabeça, acorrentados. Além do que, ele queria que a gente fizesse a dança chamada jogada de rede, que só é dançada dentro de um terreno de candomblé", afirma.

Os estudantes destacaram ainda que além de terem que realizar essas atividades, todo o material necessário para o trabalho tinha que ser comprado por eles e em casas de candomblé, conforme orientação dada pelo professor. Segundo eles, teve aluno que gastou R$ 300 para montar os orixás. "Ele obrigava a comprar os materiais e ameaçava não passar a gente de ano caso não obedecêssemos a orientação. Se a gente não comprava o que pedia, ele tirava nota da gente. Recusamo-nos a dançar o maculelê, então ele disse que era para contratar alguém pra dançar. Mas a gente não tinha mais dinheiro", diz Maria Kamila, 15 anos.

Apesar da situação, o vice-diretor afirma que a escola não deixará de comemorar a data. Porém, como destacou, a programação do projeto será toda readaptada. "Vamos trazer danças e roupas típicas, falar sobre as baianas, o Zumbi. Ou seja, tudo dentro da cultura. É claro que os alunos precisam conhecer a religião, mas não praticá-la", explica. As homenagens a Zumbi somente ocorrerão na semana que vem, com um novo título: Terceira mostra de cultura afrodecendente. Haverá leitura de poemas e uma exposição de pintura. A exposição e o sarau poético serão abertos à comunidade e aos familiares dos estudantes.



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Último Comentário:
04/02/2010 - 20:25 Por: Mário Amorim
Olá. Religfião sempre foi uma faca de dois gumes. Uns querem que prevaleça a sua, mas não respeita a do outro. A intolereancia religiosa, realmente é algo que afeta varias classes. Devemos ter a nossa religião,respeitando as demais.(Afinal quem está com a Verdade) Sabe o que deus quer: "Que amemos uns aos outros"