Tudo Se Transforma Em Alvorada
"Somente aos poucos, numa lentidão mental e corporal, fui aceitando a cidade, que por nenhum motivo seria cenário de minha vida e de minhas ocupações. Pelo contrário: fui preso no aeroporto, em 1964"
Carlos Heitor Cony
| Edílson Rodrigues |
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Foi uma sensação estranha: ver na mesinha de cabeceira do quarto
de Juscelino Kubitschek, no Catetinho, um rádio daqueles antigos, modelo
dos anos 50, eu tinha um igual. Mergulhei em mim mesmo e tentei lembrar o que
fazia naquele tempo, no Rio de Janeiro, enquanto um punhado de pioneiros começavam
a construir uma cidade impossível, e, para muitos, inútil.
Mede-se a grandeza dos outros pela nossa própria mediocridade.
Visitando o antigo Palácio das Tábuas, mais tarde chamado de Catetinho,
quis saber qual a distância que o separava do Eixo Monumental, que marca
o centro físico da capital do Brasil. Uma distância razoável,
sobretudo para a precariedade dos acessos naquele tempo. Tirante o helicóptero
pioneiro usado pelo estado-maior da Novacap, tudo ficava difícil para todos.
Menos para o sonho.
Poucas vezes, nos anais da história, um grupo de trabalhadores
conseguiu iniciar e terminar uma obra colossal, das dimensões de uma cidade
inteira. Os grandes monumentos da humanidade demoraram anos e anos, como as pirâmides,
e até séculos, como as grandes catedrais que até hoje nos
espantam. Foram obras que consumiram o engenho, a arte e o suor de gerações.
Falei em sonho e embora a cidade tenha freqüentado
o sonho de Dom Bosco, que previu a construção de uma civilização
naquele mesmo local, nada em Brasília pode ser atribuído a uma simples
quimera, a um delírio desvinculado da realidade. Durante anos permaneceu
como aspiração de patriotas que desejavam abandonar a cidade que
fora sede de um Reino Unido cujo núcleo era Portugal. Constituições
em série previam a construção de uma nova capital no interior
do país, havia nos mapas escolares um quadrilátero assinalando,
no coração do Planalto Central, o território de um novo e
futuro Distrito Federal.
E mesmo quando começaram as primeiras levas de operários
e material para uma região que um militar da época denominou de
local onde Judas perdeu as botas, a maioria do povo brasileiro
não acreditava no empreendimento, a mídia mais categorizada do país
esnobava os projetos, a classe política se dividia entre aqueles que acreditavam
estar financiando um túmulo, e os demais, que cautelosamente esperavam
ver para crer.
Predominavam as críticas, e até mesmo os insultos. Naquele
radinho antiquado, na cabeceira de uma cama em que pouco repousava, pois aproveitava
sua idas a Brasília para ver obras, JK deve ter escutado poucas e boas,
ou, para ser exato, muitas e más.
Disseram o diabo contra ele e sua cidade. Um engenheiro, deputado
federal pela UDN, provou por a mais b que o Lago jamais ficaria cheio, na melhor
das hipóteses se transformaria num monstruoso pântano, berço
de mosquitos letais. Um outro, também engenheiro, mas de eletrônica,
bom escritor e péssimo profeta, garantiu que, devido a peculiaridades ambientais,
a cidade não poderia se integrar ao sistema da telefonia, ficaria isolada,
encravada num deserto de comunicações. Para receber ou dar um telefonema,
o usuário teria de ir a Anápolis.
Foi nisso tudo que pensei enquanto visitava a precariedade do Catetinho,
lagarta de madeira da qual nasceria a imensa libélula de asas recurvas,
pousada no áspero chão do cerrado.
Fui depois visitar o Memorial JK, que durante meses me obrigara a
ir quase todas as semanas a Brasília. Ao contrário do Catetinho,
que deu início a tudo, o Memorial fechou o ciclo da cidade, deu o texto
final da sua construção. A partir dele, tudo estaria pronto para
crescer. Poucas cidades do mundo na realidade, não conheço
nenhuma guardam dentro de si, e para sempre, o seu Fundador.
Carioca nascido e vivido na antiga capital, com aquele raquitismo
exaustivo que Euclides da Cunha descobriu no homem do litoral, Brasília
era uma cidade esquisita para mim, sob todos os aspectos. Durante a sua construção,
permaneci apático, pensando em outras coisas e procurando viver outras
tantas. No dia de sua inauguração, fiquei feliz mas por um motivo
vil: o Rio se livrava do governo federal, um hóspede incômodo e mal-educado,
que fazia da minha cidade um feudo, e, em alguns casos, um bordel.
Somente aos poucos, numa lentidão mental e corporal, fui aceitando a cidade,
que por nenhum motivo seria cenário de minha vida e de minhas ocupações.
Pelo contrário: fui preso no aeroporto, em 1964, após uma palestra
que fiz na Universidade, em cima de uma mesa de pingue-pongue, o reitor proibira
minha presença no auditório, os alunos improvisaram um comício
do qual fui o orador oficial e punido.
Nos anos da repressão, evitava Brasília, nas poucas
vezes em que a visitei, hospedado no Hotel Nacional, esbarrava com generais uniformizados,
os alamares mostrando que estavam em patriótico serviço, embora
ficassem horas no bar da piscina, bebendo uísque e acreditando no milagre
brasileiro.
O Memorial não me trouxe reconciliação com a
cidade, mas inesperadamente me fez participar dela. Integrei a pequena comissão
que o construiu, assessorando Dona Sarah, Adolpho Bloch e Rodrigo Lopes na arrecadação
e na administração dos fundos. Tornei-me amigo de infância
de Sérgio Vasconcelos e do coronel Affonso Heliodoro, dois gigantes a quem
Brasília ficou devendo um de seus monumentos mais expressivos.
Aqui no Rio, ia todas as semanas ver a fundição da escultura
de Honório Peçanha, velho amigo de Oscar Niemeyer, que captou com
exatidão um dos gestos mais característicos de JK. Da estátua,
sobrou um pouco de bronze e o fundidor Zanine tinha, abandonadas num canto, as
fôrmas daquele anjinho de Andrea Verrochio que está no pátio
principal do Palazzo Vecchio, em Florença. Fizeram-me a surpresa de fundir
para mim uma réplica daquela obra-prima de quem foi mestre de Leonardo
e Michelangelo.
Pronto o Memorial, grande parte dos guardados de JK estavam em seu
escritório no edifício da Manchete, que passou a ser ocupado por
mim. Maristela trabalhou alguns dias catalogando e embalando tudo, ajudei-a no
que pude. Ali ficaram pelo menos duas peças importantes, a mesa em que
JK despachava como presidente e o conjunto de sofá e duas poltronas em
veludo verde, que compunham seu gabinete de trabalho no Catete. Com a falência
do grupo Bloch, tudo ficou lacrado, à disposição de uma fantasmagórica
massa falida.
Lembrei tudo isso e muito mais. Olhei Brasília como se eu fosse
um candango retardatário que humildemente juntara algumas pedras para sua
imponente realidade.
Há uma placa na entrada do Memorial, colocada por Niemeyer
num dos cantos do pequenino lago que rodeia o monumento. Pediram-me uma frase
de JK para ali ser inscrita. Não se podia repetir o famoso texto que está
em outro lugar, Deste Planalto Central... Eu estava com
a mão na massa, acabara de editar os últimos volumes das memórias
de JK. Pincei uma frase que havia servido de legenda para uma das fotos de Brasília,
toda inundada pela luz do amanhecer. A frase ainda está lá: Tudo
se transforma em alvorada nesta cidade que se abre para o amanhã.

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