Três Dias Gloriosos


"No segundo dia eu já estava gostando da cidade como jamais pensara antes. Para mim ela representava burocracia e poder, com todos os jogos e artimanhas que isso implica, e que não entendo nem aprecio"


por Lya Luft

Edílson Rodrigues
Quando me fizeram o convite, na minha inarredável preguiça quase recusei. Olhei minha agenda do semestre: já demasiadas viagens-relâmpago para palestras e entrevistas. Fazia uns dois anos que eu não ia a Brasília, e não tive curiosidade, confesso. Mas quando o jornalista me disse que eu podia pedir para ver o que quisesse, e só teria de escrever a respeito, fiz funcionar a imaginação e pensei no que desejaria conhecer caso fosse morar lá. Que bairro, edifício ou casa eu teria para escolher, em que lojas de móveis e decoração, que antiquário, eu organizaria o meu novo ninho, eu, tão pouco doméstica mas tão bicho da minha casa? Desta minha casa na aconchegante Porto Alegre, com seu clima variado, sua bela geografia, seus verdes, seus casarões, seus bares e suas gentes, e suas velhas raízes?

  Que restaurantes eu freqüentaria, que cafés, que shoppings, que pessoas haveria de conhecer e tornar gente minha?

  Meus três dias em Brasília foram, afinal, gloriosos. Pois conheci uma cidade que se torna original muito além da originalidade do seu traçado preconcebido pelos mais geniais arquitetos. Porque, mais do que esse belo estabelecido, ela está habitada por gente, isto é, está viva, é móvel, infringe até mesmo algum planejamento (pouco, pouco...),e com o humano consegue disfarçar, muito bem, a sua burocrática essência.

  Minha primeira experiência de Brasília foi quase no fim dos anos 70. Tudo era ainda um canteiro de obras, embora os principais edifícios já existissem, perdidos num deserto de terra vermelha. Desolação, vastidão, e as pessoas que estavam lá tinham a expressão ansiosa de quem pensa no primeiro motivo e ocasião de voltar para casa. O melhor de Brasília é o aeroporto, brincavam.

  Brasília me deixava, cada vez, com a mesma sensação: voltar, voltar para o meu lugar, minha cidade, meu bairro, minha casa, minha gente.

  Mas a cada visita eu percebia mudanças, melhoras, embora nunca me detivesse para as entender e definir. Desta vez a cidade me surpreendeu: não pelas edificações, não pelo céu vasto de sempre, não por nada do que um turista iria admirar. Ali estava, pela primeira vez para mim, uma cidade viva, que para muitos já é ‘‘estar em casa’’, o que para mim melhor define qualquer cidade.

  O jovem jornalista que me pegou no aeroporto e me acompanhou nesse tempo todo nasceu em Brasília, como sua mulher. Os bairros residenciais — nem falo da magnífica Península dos Ministros com suas mansões cinematográficas, mas das quadras com edifícios residenciais — em nada me fariam pensar na Brasília do meu preconceito: andei por ruas arborizadas, jardins, árvores altas — essa foi minha primeira surpresa. Recantos frescos, gente se cumprimentando, crianças brincando entre os pilotis.

  Os estrangeiros agora eram, tinham conquistado, família e amigos. Eu moraria ali, sem dúvida nenhuma. E também essa minha constatação me surpreendeu.

  Agora que descobri que eu poderia morar por aqui, onde encontraria os móveis? eu quis saber, lembrando do tempo em que para montar sua casa conhecidas minhas tinham de mandar vir quase tudo de outras capitais. Visitei e almocei em um magnífico shopping de móveis e decoração. Aliás, vários shoppings na cidade me ofereciam as mais diversas possibilidades de gastar o meu dinheiro.

  Do mais sofisticado restaurante ao simpaticíssimo bar francês, tudo para mim era novidade. Em breve, imagino eu, mais desses bares, alguma edificação fugindo ao esquema geral — impessoal e sóbrio demais —, vão animar a arquitetura (me perdoem os conservadores... mas a vida não se consegue inteiramente prender!). Viver é infringir — desde que não seja para desfigurar.

  A Brasília fria e funcional que me agradava pouco revelou-se um lugar solidário e cálido: esse testemunho de mais de uma pessoa foi talvez o que me encantou mais.

  — A gente sabe que, vindo morar aqui, quase todo mundo é de início meio desgarrado, sem família, sem raízes. Então convidam o recém-chegado, incluem-no em suas amizades, festas, reuniões, churrascos, programas.

  — Em Brasília, onde poucos têm família, os amigos são a família sucedânea, os amigos de nossos pais acabam sendo nossos tios — disse-me outra jovem.

  No segundo dia eu já estava gostando da cidade como jamais pensara antes. Para mim ela representava burocracia e poder, com todos os jogos e artimanhas que isso implica, e que não entendo nem aprecio. Mas a Brasília por onde desta vez andei vive a própria saudável ambigüidade, que é, aqui e ali, superar um pouco o rígido desenho original, e desabrochar — em plantas e em pessoas. Não me conformei com a ausência de sacadas sobre a paisagem vasta e aquele céu singular, nos edifícios residenciais. Elas são consideradas invasão de espaço aéreo, me disseram, e achei graça. Mas estão revendo isso, e quem sabe no futuro as pessoas poderão se debruçar em suas varandas para saborear ainda melhor o seu lugar.

  Brasília é uma pessoa, sem dúvida, como qualquer cidade que se preze. Talvez adolescente, naquela fase de mudar de voz, de ter demais pernas e braços, mas já uma pessoa. Imagino-a em mais cinqüenta anos, toda verde, toda humanizada (com sacadas...), com a segunda ou terceira geração de gente nascida lá.

  Só espero que o tempo não piore outros de seus dados que me agradaram tanto: o tráfego livre e educadíssimo, o respeito pelo pedestre como eu só tinha visto na Europa e Estados Unidos. E a doçura de sua gente. Talvez pela influência nordestina, talvez pela necessidade de afeto por serem em parte ainda estrangeiros no lugar, e até para superarem a burocracia de uma capital federal, os brasilienses são gentis.

  Sua etnia começa a tomar forma e ter rosto: misturam-se ali paulistas, gaúchos, mineiros, nordestinos, nortistas, e a novíssima geração, ainda não totalmente identificável, vai mostrando sua cara, seu porte, sua cor. Brasília começa a ter uma linguagem própria, o que ainda é incipiente, mas, contou-me um jovem, quando a gente está em outro estado, de repente alguém nos identifica, já, pelo jeito de falar: Você é de Brasília.

  — Temos até termos de gíria só nossos — comenta alguém, entre divertido e orgulhoso. Assim como a expressão corporal e o rosto, a linguagem identifica uma pessoa: uma cidade.
  Comigo foram gentis os brasilienses, os natos, os adotados, os que ainda estão se estabelecendo. Voltarei lá em breve: Brasília faz agora parte apreciada do meu roteiro.

  Mais me agradará num tempo em que eu já não estarei aqui para a visitar: pois Brasília ainda é uma cidade sem fantasmas... ou muito poucos. E os fantasmas que suspiram em velhos casarões ou em ruelas perdidas desta minha Porto Alegre são para mim o maior fascínio de uma cidade. Brasília terá os seus, e será, então, um dos mais belos, positivos, humanos lugares deste vasto mundo.
  

Porto Alegre, 25.3.03


Concepção do projeto e coordenação: Carlos Marcelo. Edição: Sérgio de Sá. Reportagem: Nahima Maciel, Natal Eustáquio e Sérgio Maggio. Edição de arte: Fabio Sales. Edição de fotografia: Luis Tajes. Fotografia: Edilson Rodrigues, Jefferson Rudy, José Varela e Zuleika de Souza. Agradecimentos: Armazém do Ferreira, meninas da noite da 314/315 Norte, comunidade do Vale do Amanhecer, Preto Rezende, Saulo Humberto e Grupo de Teatro da Via-Sacra.