Quem Visitou A Capital Em 2003
| Zuleika de Souza |
 |
Ana Maria Machado
A menina nascida no bairro carioca de Santa Tereza há exatos 62 anos não
queria ser escritora nem pintora. Na verdade, se deixava fascinar pela vida de
artista de cinema. Até quis ser professora, mas...
acabou por descobrir que seria mesmo era escritora. A julgar pelos mais de cem
livros publicados para gente grande e para
gente crescendo Ana Maria Machado acertou a profissão.
Chegar lá, no entanto, foi um longo percurso. Ana estudou arte
no Museu de Arte Moderna e enviesava pela pintura quando o curso de Letras na
Universidade Federal do Rio de Janeiro a desviou das tintas. Ponto para a literatura.
A escritora foi então dar aulas em colégios e faculdades, escreveu
artigos para revistas como a Realidade e protestou contra a ditadura. Nessa época,
foi obrigada a partir para o exílio na França, onde acabou por enveredar
por um doutorado em Lingüística e Semiologia sob orientação
de Roland Barthes. Voltou ao Brasil em 1972 e trabalhou como jornalista no Jornal
do Brasil.
Em 1977, assinou com pseudônimo História meio ao contrário,
e levou pelo livro o prêmio João de Barro. Nos anos seguintes foram
vários prêmios com livros para adultos, crianças e adolescentes.
O prêmio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil
veio em 1993 e, há dois anos, Ana ganhou o Hans Christian Andersen, o mais
importante em todo o mundo no gênero infanto-juvenil. A escritora é
uma das poucas no Brasil a ter seu nome em catálogos de várias editoras.
Fica mais fácil, ela acredita, para produzir livre de amarras.
Agora, ela quer tentar uma vaga na Academia Brasileira de Letras e
apresentou a candidatura para ocupar a cadeira que era do jurista Evandro Lins
e Silva. As eleições, no próximo dia 24. Entre os livros
mais conhecidos de Ana Maria Machado estão O lobo mal e o valente caçador,
Mãe com medo de lagartixa e Do outro lado tem segredos. Ainda este ano,
Pimenta no cocoruto ganha tradução para o inglês e Alguns
medos e seus segredos será publicado em espanhol.
 Bisa Bia, Bisa Bel
Infantil. Ilustrações de Regina Yolanda. Salamandra,
64 páginas, R$ 16,00
Portinholas
Infantil. Pinturas de Candido Portinari. Mercuryo, 48 páginas, R$ 25,00
Texturas
Ensaios. Nova Fronteira, 224 páginas,
R$ 29,00.
| Jorge Cardoso |
 |
Walter Carvalho
Paraibano de João Pessoa, Walter Carvalho começou a fotografar cinema
por insistência do irmão, o documentarista Vladimir. Não parou
mais: aos 56 anos, é considerado o mais importante diretor de fotografia
em atividade no cinema brasileiro. São deles as imagens de filmes-chave
na retomada da produção nacional, como Pequeno Dicionário
Amoroso, Terra Estrangeira, Central do Brasil, Lavoura Arcaica, Madame Satã,
Amarelo Manga e Carandiru.
A estréia de Walter na direção, dividida com
João Jardim, resultou no longa Janela da Alma: visto por 140 mil espectadores,
é o documentário brasileiro de maior público dos últimos
anos. Recentemente, rodou Filme de Amor, de Julio Bressane, e realizou, em parceria
com João Moreira Salles, documentário sobre a eleição
de Lula que está em fase de montagem. Em breve, começa a
rodar Cazuza, cinebiografia do cantor carioca, que vai co-dirigir com Sandra Werneck.
Paralelo ao cinema, desenvolve o trabalho como fotógrafo, sempre em preto
e branco. Sua primeira grande mostra individual está em cartaz no Instituto
Moreira Salles, no Rio de Janeiro, e o livro com imagens colhidas durante as filmagens
de Lavoura Arcaica será lançado pela editora Cosac & Naify em
maio.
Carandiru
(Idem, Brasil, 2003, drama, 146 min., 16 anos). De Hector Babenco. Com
Wagner Moura, Rodrigo Santoro, Caio Blat e Milton Gonçalves. Em cartaz
na cidade. Confira salas e horários no Caderno C.
| Jefferson Rudy |
 |
Wagner Moura
O baiano Wagner Moura, 26 anos, é ator intuitivo, daqueles que quando
interpreta um personagem lhe fornece alma. Era assim, nos palcos de Salvador,
muito antes de ele encantar o país na pele de Taoca, em Deus é
Brasileiro (de Cacá Diegues). Em 1996, com 19 anos, foi uma das sensações
do espetáculo baiano A Casa de Eros, de José Possi Neto. Quem
viu a peça sabia que despontava ali um artista promissor.
À época, Wagner se dividia entre os palcos e a sala
de aula da Faculdade de Comunicação. Estudava jornalismo como
via de carreira à árdua missão de se estabelecer como ator.
Os personagens surgiam um atrás do outro e Wagner corria da coxia para
o computador. Foi assessor de imprensa, mas não ganhou dinheiro porque
ajudava a promover espetáculos de amigos. Em passagem-relâmpago,
chegou a trabalhar em redação de jornal. Mas o teatro, gradativamente,
tomou as rédeas da sua vida.
O convite para integrar o elenco de A Máquina, de João
Falcão, foi a gota dágua. O talento de Wagner Moura abriu
as portas para outras platéias. Não demorou muito para que críticos
e olheiros enxergassem sua paixão pela interpretação. E
lá estava ele emendando participações em longas-metragens.
Fez Woman on Top, de Fina Torres, Abril Despedaçado, de Walter Salles,
As Três Marias, Aloizio Abranches, Carandiru, de Hector Babenco. Na lista
dos inéditos, estão O Homem do Ano, de José Henrique Fonseca,
Caminho das Nuvens, de Vicente Amorim, e Nina, de Heitor Dhalia. A sua estréia
na tevê acontecerá de fato, na semana que vem, quando dará
vida a Pedrinho no seriado Carga Pesada. Sua aparição aos domingos,
no quadro Homem Objeto do Fantástico, é apenas aperitivo para
o que há por vir.
| Edílson Rodrigues |
 |
Lya Luft
LuftLya Luft começou a vida literária como tradutora. Nos anos
1960, depois de se formar em pedagogia e letras anglo-germânicas, essa
gaúcha de Santa Cruz trouxe (e continua a traduzir) para o português
autores como Rainer Maria Rilke, Günter Grass, Thomas Mann, Virginia Woolf
e Hermann Hesse. A maioria, alemães, já que Lya cresceu numa cidade
de colonização alemã e foi alfabetizada nessa língua.
Casada com Celso Pedro Luft, um irmão marista que largou a batina para
se tornar marido da escritora em 1963, ela começou a escrever poemas.
Publicou o primeiro livro Canções de limiar
em 1964. Romances e contos só vieram 13 anos depois, quando a
escritora enviou a Pedro Paulo Sena Madureira, editor da Nova Fronteira, um
pequeno conjunto de contos. A resposta foi um empurrão para Lya começar
a escrever romances: o editor achou os contos publicáveis,
mas pediu à escritora que estimulasse a veia de romancista, pois era
isso que ela era. Assustada com o publicáveis,
Lya partiu então para o romance. O primeiro fruto, em 1980, foi As parceiras,
seguido de A asa esquerda do anjo (1981), Reunião de família (1982),
Exílio (1987), O quarto fechado (1984) e A sentinela.
Estereótipos sociais é um dos temas abordados por
Lya, fiel combatente de comportamentos que formatem o ser humano. Apesar do
existencialismo e da introspecção de seus livros, Lya é
dona de um humor particular. Durante passagem pela Península dos Ministros,
no Lago Sul, ela se deparou com o ex-ditador paraguaio Alfredo Stroessner a
tomar sol. Doente e cego de um olho, Stroessner está exilado no Brasil.
Lya logo usou sua imaginação de escritora. Brincou que poderia
sentar no colo do ditador. A manchete do jornal, com direito a foto, seria:
Escritora de peso sufoca ex-ditador paraguaio.
O livro mais recente de Lya Mar de dentro foi publicado
no ano passado pela ARX. A escritora acaba de trocar de editora. Passa para
o catálogo da Record, que vai reeditar todos os seus livros. Lya, 64
anos, escreve crônicas semanais para o jornal gaúcho Zero Hora.
Mar de dentro
Romance. ARX, 160 páginas, R$ 22,00
O ponto cego
Romance. Mandarim, 160 páginas, R$ 26,00
A asa esquerda do anjo
Romance. Siciliano, 141 páginas, R$ 25,00
| Edílson Rodrigues |
 |
Zeca Baleiro
Cazuza provocou. Bradou para que o país mostrasse a sua cara. Pois bem,
o Brasil tem os traços do balaio musical de Zeca Baleiro, maranhense
em cujo tabuleiro desfilam samba, embolada, baião, balada, reggae e blues,
com forte pitada eletrônica. Um pé nas raízes brasileiras,
outro na modernidade sonora do novo século.
Não à toa, logo na estréia com Por Onde Andará
Stephen Fry? (1997), Zeca Baleiro foi chamado de neotropicalista
pela crítica. No cenário nacional, entretanto, ele havia surgido
um pouco antes, ao participar de um especial de Gal Costa na MTV. Em Vô
Imbolá, o músico nascido José Ribamar dos Santos reforça
a mesclagem de ritmos brasileiros com o pop eletrônico.
Até Vô Imbolá, álbum de 1999, quando
passou a ser autor dos mais requisitados por colegas da MPB, Zeca Baleiro já
havia atuado como compositor de trilhas para teatro e perambulado por bares
da noite de São Paulo. À época, tinha como cúmplices
o paraibano Chico César e a conterrânea Rita Ribeiro. Integravam
um grupo de artistas então recém-chegados para tentar a vida em
São Paulo.
Um Zeca Baleiro um pouco mais cool desponta em Líricas (2000),
disco de sonoridade acústica dominada pelas cordas. As canções,
de forte teor poético e nuances melancólicas, prosseguem recheadas
de fina, e muitas vezes cortante, ironia traço, aliás,
que permeia a sua obra. A verve irônica, porém, transita pelo deboche
em várias das canções de Pet Shop, Mundo Cão, lançado
no ano passado.
Aos 36 anos, pai de dois filhos, Zeca Baleiro atualmente se dedica
à produção de um disco em parceria com a escritora Hilda
Hilst, o qual terá participação de dez cantoras, entre
as quais Zélia Duncan e Ná Ozzetti. Também finaliza um
álbum de músicas infantis e amadurece com Fagner a idéia
de lançar um disco com parcerias inéditas dos dois.
Pet Shop, Mundo Cão
Quarto CD de Zeca Baleiro. MZA/ Abril Music, 14 faixas. Preço médio: 22,00
| José Varella |
 |
Fernando Bonassi
Defensor de uma arte incômoda e inútil,
em suas próprias palavras, o paulistano Fernando Bonassi nasceu no bairro
da Moóca em 1962. Formado em Cinema pela USP, logo percebeu que a produção
de filmes, pelas dificuldades econômicas do Brasil, seria insuficiente
para acompanhar a velocidade de suas idéias. Encontrou na literatura,
e em seus naturais desdobramentos, o espaço adequado para produzir ficção
a partir da realidade, não reproduzida, mas isolada e descontextualizada,
ressalta.
Curiosamente, um dos maiores nomes da prosa urbana dos anos 90 começou
publicando poesia: o livro Fibra Ótica saiu em 1987. O primeiro romance,
Um Céu de Estrelas, de 1991, foi adaptado para o cinema com direção
de Tata Amaral. Entre outros livros de Bonassi, estão as coletâneas
de contos 100 Histórias Colhidas na Rua e Passaporte, os romances O Amor
é uma Dor Feliz e O Céu e o Fundo do Mar, além de títulos
infantis como A Incrível História de Naldinho/Um Bandidão
ou um Anjinho?. O livro de crônicas São Paulo/Brasil é finalista
do Prêmio Jabuti.
Roteirista profissional, assina filmes tão diversos como
Os Matadores, Ed Mort, Castelo Ra Tim Bum e Sonhos Tropicais. Seu trabalho mais
recente a chegar às telas é Carandiru, escrito com o fiel parceiro
Victor Navas e com o diretor, Hector Babenco. Acaba de entregar o roteiro de
Cazuza, cinebiografia do cantor carioca, a ser dirigida por Sandra Werneck.
No teatro, escreveu, em colaboração com o Teatro da
Vertigem, a peça Apocalipse 1,11 e Woyzeck, o Brasileiro, montada por
Matheus Nachtergaele e o grupo Piolim. Entre os próximos projetos, estão
a finalização de roteiros de três longas e um novo romance,
ainda em processo de criação.
O céu e o fundo do mar Romance.
Geração Editorial,
128 páginas,
R$ 21,00.
Passaporte
Contos. Cosac & Naif, 150 páginas,
R$ 25,00.
São Paulo/Brasil
Crônicas. Dimensão, 107 páginas,
R$ 13,00.
| Edílson Rodrigues |
 |
Carlos H. Cony
Carlos Heitor Cony costuma se definir como um anarquista.
Um homem sem disciplina para ser de esquerda e nem firmeza para ser de direita.
Não é chegado à tradição dos famosos chás
da Academia Brasileira de Letras. O imortal garante estar mais preocupado com
a longevidade da obra do que com a do criador.
Carioca, nascido em 1926, o escritor e jornalista dividiu dez anos
da juventude com a fé católica dos seminários. Trabalhou
em redações de jornais, como a do Correio da Manhã. Lançou
seu primeiro romance, O ventre, em 1958, e emendou uma obra atrás da
outra: Informação ao Crucificado (1961), Matéria de memória
(1962), Antes, o verão (1964) e Pessach: a travessia (1967).
Em 1974, publicou Pilatos e iniciou jejum literário de 21
anos. Parou de escrever por se considerar um homem feliz
e homem feliz não produz arte. Voltou com o premiado
Quase Memória uma homenagem ao pai, que revela muito do próprio
escritor. Publicou outros textos importantes, como O piano e a orquestra, A
casa do poeta trágico e O harém das bananeiras. Na Rede Manchete,
apresentou os projetos e as sinopses das novelas A Marquesa de Santos, Dona
Beija e Kananga do Japão. Atualmente, além de texto diário
para a Folha de S.Paulo e de participação na rádio CBN,
Cony finaliza livro sobre Carlos Lacerda.
JK . Como nasce uma estrela
Biografia. Record,
160 páginas, R$ 18,00.
Quase memória
Romance. Companhia das Letras, 216 páginas, R$ 29,50.
O indigitado Romance.
Objetiva, 180 páginas,R$ 24,90.
|
|