Do Sonho À História


"(...) tinha nome de palácio, Catetinho. Ficava perto de uma fazenda, junto a uma pequena mata linda, com fontes de água limpa e até cachoeirinhas. Diziam que de noite até se ouvia urro de onça por ali..."


por Ana Maria Machado

Zuleika de Souza
-E aí, pai? Como é que é essa tal Brasília? Conta...

A curiosidade das crianças era grande. O pai acabara de chegar do aeroporto, de volta de sua primeira visita ao local onde ia ser construída a nova capital do Brasil.

Como sempre fazia, foi cercado pelos filhos pequenos, loucos por novidades. Mas foi logo avisando que não ia sair presente nenhum de dentro daquela maleta.

— Lá não tem nada.

— Como assim, ‘‘não tem nada’’?

— reclamou um dos meninos.

— Todo lugar tem alguma coisa. Você é que não trouxe.

  — Brasília não tem. É a terra do ‘‘vai-ter’’... — explicou o pai, rindo.

  — Não tem nem índio? — quis saber o menorzinho...

  Os outros ajudaram a cantar o samba de Billy Blanco que tinha virado uma espécie de hino dentro daquela casa carioca, desde que a família começou a viver com a possibilidade de ter que se mudar em breve para acompanhar o pai em seu trabalho:
  
Eu não sou índio nem nada
não tenho orelha furada
não uso argola pendurada no nariz
não uso tanga de pena
e a minha pele é morena
do sol da praia onde nasci e me criei feliz.
Não vou, não vou pra Brasília,
nem eu nem minha família,
mesmo que seja pra ficar cheio da grana.
A vida não se compara
mesmo difícil e tão cara,
quero ser pobre sem deixar Copacabana.
  
  — Podem cantar à vontade... — riu o pai. — Mas acho que vamos acabar indo, sim, pra Brasília. E tem mais: tenho a impressão de que podemos gostar muito de lá.

  — Por quê? Como é que foi? Conta...

  Só então foram todos percebendo que o pai tinha trazido, sim, um maravilhoso presente. A história do que tinha visto. E do que não tinha visto mas podia sonhar que um dia ia ver. E das circunstâncias em que esse sonho estava virando realidade.

  Cercado pelas crianças, o pai começou a falar sobre as suas primeiras impressões. Uma pista de pouso aberta no cerrado. Muita poeira vermelha. A secura do ar, que em pouquíssimo tempo transformava pão fresquinho e crocante em pão duro. Uma paisagem de árvores esparsas, retorcidas e diferentes, pelo meio de um mato ralo e sem flores. Gente chegando de todo lado, vindo aos magotes de tudo quanto era canto do país. Sem parar, o dia inteiro, em caminhões, jipes, ônibus precários, lombo de burro, a pé. Uma desolação e um formigueiro humano, ao mesmo tempo. E mais uma espécie de oásis, em que um barracão de madeira (maior mas não muito diferente dos que se encarapitavam na favela que as crianças viam pela janela, subindo morro acima) tinha nome de palácio, Catetinho. Ficava perto de uma fazenda, junto a uma pequena mata linda, com fontes de água limpa e até cachoeirinhas. Diziam que de noite até se ouvia urro de onça por ali...

  — Mas num mato desses vai dar para morar? Quanto tempo vai levar para ficar pronto? Vai ter escola? Hospital? Abastecimento?

  A mãe também tinha dúvidas, uma certa apreensão. Deus do céu, uma mudança daquelas com a criançada...

  — Vai dar para morar, sim. E vai levar o tempo que o Juscelino prometeu. O homem é um danado. Cismou e está fazendo. A gente tem que respeitar. Dar a mão à palmatória e tirar o chapéu.

  A mulher olhou para o homem meio surpresa. Estava casada com ele havia tantos anos... Acompanhara sua luta contra a ditadura de Vargas, seu embate diário com a censura no jornal onde trabalhava, as prisões a que fora submetido, seu horror à tirania se transformando depois em rejeição a tudo o que Getúlio havia criado — inclusive os dois partidos que o sustentavam, o PTB trabalhista e o PSD conservador. Sabia como o marido era intransigentemente de oposição. Como agora ele voltava de uma curta viagem falando nesses termos sobre o atual presidente, que era do PSD? Claro, ela sabia que ele era favorável à mudança da capital, preocupado com a integração nacional e o desenvolvimento do interior, buscando garantir a ocupação efetiva de todo o território do país, contribuindo para afastar a cobiça dos países mais ricos sobre a Amazônia. Mas nunca pensou em vê-lo assim, tão entusiasmado, demonstrando um encantamento tão genuíno por quem, até então, tinha considerado como adversário — e cuja política externa, em apoio ao colonialismo francês e português, continuaria sempre combatendo implacavelmente.

  Nesse instante, a mulher apenas estranhou. Não desconfiava que, a partir dessa primeira ida a Brasília, ia começar a se construir entre seu marido e o presidente uma relação que, se não chegou a ser de amizade próxima e convívio íntimo, foi sempre de admiração, respeito e carinho, e iria ser de solidariedade e um apoio ativo nas horas duras que o ingrato futuro político reservaria a JK, somando cassação, perseguição mesquinha e exílio.

  Mas nesse primeiro momento, ela apenas se surpreendeu com o tom de voz vibrante e empolgado com que o marido descrevia à família seu primeiro contato com a nova capital, ainda não inaugurada. Haveria muitos outros. Como deputado, ele representava a oposição na Comissão de Mudança da Capital. Ia acompanhar de perto o processo, o trabalho de parto de Brasília. Sempre com admiração e entusiasmo crescentes.

  Quando havia oportunidade, levava algum dos filhos junto. Queria que eles participassem daquele momento histórico, em que o Brasil estava provando ser capaz de fazer o que sonhava.

  Posteriormente, com o tempo, cada filho se ligou de forma diferente com a nova capital. Um estudou na UnB. Outra, futura estudante de Arquitetura, acompanhava com interesse profissional o desabrochar da cidade. Bem mais tarde, outro deles iria se estabelecer em Brasília, onde criaria os filhos. E a mais velha, então adolescente se preparando para o vestibular, fez companhia ao pai algumas vezes no período de implantação, ajudando na montagem do apartamento na SQS, revezando-se com a mãe que, grávida da caçula, não estava com muita disponibilidade para viajar.

  Durante essa experiência, a moça constatou que o pai tinha razão. Era a terra do ‘‘vai-ter’’.

  — É verdade que vai ter um Lago Paranóia, pai?

  — Paranóia é maluquice de quem tem medo do futuro... Mas vai ter um lago, sim, o Paranoá. Já está até se formando, a partir de uns riachos represados. Vou te levar para ver.

  Era chegar e olhar o descampado.

  — Aqui vai ser um lago, bem grande. Nas margens vai haver jardins. Cheios de flores. Vai ser uma cidade muito verde.

  Dava para ver tudo isso. Com os olhos da imaginação. Enquanto não chegava a hora, o jeito era se contentar com as vastidões varridas pelo vento poderoso, capaz de levantar folhas de zinco até às alturas, como se fossem pipa de papel de seda. E enfeitar a casa com as flores do cerrado, transparentes asas vegetais pacientemente compostas e armadas em torno a finos espetos de caules ressecados, entre a arte e o artifício, beleza artesanal, perfeito casamento de natureza e cultura.

  O tempo todo, um ato de fé no futuro e crença no sonho. Uma verdadeira ladainha:

  — Aqui vai ser. Um dia vai ter.

  Passam-se anos. A cidade festeja seu aniversário. A adolescente, agora mulher madura, vem visitá-la. Janta à beira do lago, admira a intimidade urbana com a água plácida. Caminha pelo parque, visita monumentos, come pizza dupla com mate na Dom Bosco, que está lá desde o tempo em que tudo começou. Volta à igrejinha de Nossa Senhora de Fátima e admira sua beleza como se a visse por primeira vez. Anda à sombra de árvores que atingem a altura dos prédios. Em meio ao verde, por toda parte. Na 105 até tem pomar — com caju, manga, goiaba e amora. Entre crianças brincando, jovens namorando, aposentados batendo papo em seus bares preferidos.

  Na cidade-monumento humanizada pelo uso, as quadras comerciais se abrem para as ruas, dão fundos para os prédios, deixam espaço para barraquinhas coloridas de artesãos, chaveiros e sapateiros. A utopia inicial, de habitações distribuídas segundo o tamanho das famílias, dá lugar à dura realidade urbana do país atual — e as grades se mostram nos andares baixos, os quintais das casas geminadas se fecham.

  A profusão de flores faz um rol poético. Patas-de-vaca, paineiras, buganvílias. Coroas-de-cristo, ixoras, resedás. Alamandas, espatódias, grevíleas. Viuvinhas, beijos, manacás.

  Emocionada, a mulher constata que não está mais no espaço do sonho, mas no terreno da História. Faz uma prece pelo pai e por JK. E a toda hora se lembra, em outra ladainha:

  — Aqui não era assim. Um dia já foi diferente...
  


Concepção do projeto e coordenação: Carlos Marcelo. Edição: Sérgio de Sá. Reportagem: Nahima Maciel, Natal Eustáquio e Sérgio Maggio. Edição de arte: Fabio Sales. Edição de fotografia: Luis Tajes. Fotografia: Edilson Rodrigues, Jefferson Rudy, José Varela e Zuleika de Souza. Agradecimentos: Armazém do Ferreira, meninas da noite da 314/315 Norte, comunidade do Vale do Amanhecer, Preto Rezende, Saulo Humberto e Grupo de Teatro da Via-Sacra.