O Dia Em Que Exu Caveira Baixou No Planalto


"Dei-lhe as costas, desci a escada rolante, parei na Pastelaria Viçosa, pedi um pastel de queijo"
Haviam me falado daquele pastel com tanto fervor que era como se falassem da Catedral.



por Zeca Baleiro

Edílson Rodrigues
Na Rodoviária

Conheci Aderaldo na Rodoviária. Vi que ele fumava e me aproximei pra lhe pedir fogo. Foi então que o surpreendi aplicando um velho conto do vigário numa senhora ruiva, de riso largo. Era um golpe aparentemente simples, embora exigisse certo engenho para ser posto em prática. Vi o sujeito abordar a velha senhora e pedir gentilmente que ela trocasse uma nota de vinte reais. A dona, amistosa e receptiva, se dispôs à troca. Muitos toma-lá-dá-cá depois, escarcéu armado, vi perplexo a coitada consentir em levar uma nota menor, e ainda dar de ombros feliz por ter feito a sua boa ação do dia.

  Aderaldo vendia bugigangas há anos naquele lugar — capas de celular, brinquedinhos eletrônicos baratos, pulseiras de relógio coloridas, capas de sombrinhas, ‘‘de um tudo’’, como ele me diria depois. Nas horas vagas, aplicava pequenos golpes como esse nos incautos que passavam.

  Então me aproximei para lhe pedir fogo, ele viu que eu o flagrara em pleno delito, deixou escapar um sorriso cúmplice, e a partir daí deu-se entre nós uma estranha afinidade.

  — Aderaldo, seu criado...

  — Aderaldo?! Nome curioso...

  — É uma homenagem ao cego Aderaldo, já ouviu falar? Um poeta, um cantador do Cariri, meu pai é de lá.

  Devagarinho, com terna malandragem, ele foi me contando sua vida: tinha dois filhos, Juscelino e Niemaier (escrevia assim mesmo, ‘‘culpa do escrivão ignorante!’’), também uma homenagem, dessa vez à cidade que o acolhera. Em poucos minutos, Aderaldo me abriu o coração, como se fôssemos grandes e velhos amigos. Me falou do sonho de ser ponta-direita da Seleção Brasileira, quando menino. Até que ele foi um esforçado atacante do 11 Estrelas, time de Estância, lá no interior do Sergipe, que chegou a terceiro lugar no Torneio Municipal.

  Era um apaixonado por Brasília, chegara à cidade havia mais de vinte anos. Conhecera um rapaz que trabalhava de olheiro pro Gama, um time recém-criado à época. Foi indicado para um teste. Era bem jovem, então. Não agradou, resolveu ficar. Teve que se virar. Trabalhou como feirante, contínuo, hoje vende coisas na Rodoviária.

  — Não consigo entender Brasília, eu falei.

  — E quem disse que precisa entender Brasília? Tem que tentar entender é cabeça de mulher e discurso de político. Cidade não, cidade tem é que tirar o melhor dela, só isso!...

  Não entendi muito bem o que ele quis dizer, mas continuamos a conversar entre longas baforadas.

  — Aqui é o melhor lugar pra se viver, pra ganhar a vida, a Rodoviária...

  — Por quê?, perguntei abobalhado.

  — Essa gente não pode fazer outra coisa enquanto espera, só comprar... Por mais pobre que seja, vai comprar alguma coisa, comprar faz passar o tempo...

  Tive que reconhecer que Aderaldo tinha um modo muito particular de pensar, uma tosca sabedoria. Homem rude, de poucas letras e muita lábia, era de tal maneira apaixonado pela cidade que sabia de cor datas históricas, narrava acontecimentos políticos com a destreza de um comentarista de tv, frases, discursos, tudo escorria da boca de Aderaldo com fluência, naturalidade e uma ponta de vaidade, claro.

  Lá pelas tantas, vi ele conversando inflamado com um rapaz de outra banca.

  — Essa gente ignorante, hipócrita, vai pra tv, vai pro jornal e começa a falar de ética, ética daqui, ética dacolá... Ética, o que é que eles sabem sobre ética? Vou falar uma coisa pra você: nunca faltou comida lá em casa, isso pra mim é ética...

  Eu via as meninas com cheiro suburbano indo e vindo, algumas falando ao celular, banho tomado... Vi passar um homem sério com uma gravata de Mickey sobre a camisa bordô, achei a combinação engraçada... Rodoviária é um lugar engraçado, pensei.

  — O que você faz aqui em Brasília?

  — Tô tentando descobrir, falei, cabisbaixo.

  O rádio do baleiro ao lado tocava uma velha canção popular — ‘‘eu vou tirar você desse lugar, eu vou levar você pra ficar comigo...’’ Lembrei das rádios de minha infância, lá em Arari, no ermo do Maranhão, e pensei: — Nunca vou ter esse amor, esse apego a uma cidade. As cidades sempre foram pra mim apenas um lugar, um lugar a mais, um vale de sobrevivência, não havia nenhuma ternura na minha relação com as cidades onde havia morado. Por um instante, tive quase inveja dele.

  — Quero morrer em Brasília, disparou Aderaldo, me fazendo despertar do meu devaneio geográfico, minha canção do exílio íntima.

  — Passa aqui mais tarde, hoje eu fecho mais cedo. Quero te mostrar umas coisas.

  Dei-lhe as costas, desci a escada rolante, parei na Pastelaria Viçosa, pedi um pastel de queijo. Haviam me falado daquele pastel com tanto fervor que era como se falassem da Catedral, me senti quase obrigado a experimentá-lo. Também senti uma vontade danada de beber uma cerveja, mas segurei o impulso.
  
No Conic

Passei mais tarde, como combinado. Aderaldo estava guardando seus teréns, a tarde azulada já se dobrava no horizonte, o frenesi dos ônibus e do metrô agora era mais intenso, mais gente perambulava pra lá e pra cá. Aderaldo me conduziu até o Conic, perto da Rodoviária, um lugar indescritível, um aglomerado mundano de bares, igrejas, lojas, teatros e até cinema pornô. Gostei do lugar, gosto de lugares barulhentos. Uma fauna soberba circulava ali, barulhos ressoavam de todos os lados.

  Paramos num bar, pedimos enfim uma cerveja. Enquanto bebíamos, Aderaldo falava pelos cotovelos, vez por outra cumprimentava alguém que passava. Ao fim da primeira cerveja, ele parecia já bastante alterado, diferente, seus olhos tinham outro brilho. Falava com mais ansiedade, mais urgência, quase gritava. Pedi mais uma. Estava sedento como um caubói de faroeste italiano.

  Pelas tantas, sentou-se à nossa mesa uma moça gorda, cabelos encaracolados, olhos pintados de negro:

  — Oi, Aderaldo, não trabalha mais?

  — Que é isso, Estela, também sou filho de Deus! — respondeu na lata Aderaldo. Quer uma cerveja? Fiiiiu, assobiou para o garçom. Cerveja pra dona! Essa é Estela, me falou com certa malícia.

  — Prazer, Estela!, falei respeitoso.

  Depois fui saber, Estela era um caso, um ‘‘cacho’’ de Aderaldo, segundo o próprio me segredaria dali a pouco. De dia, vendia confecção na Feira do Guará, de noite fazia bico no cinema, recrutava as meninas que faziam strip.

  — Mais cerveja, Genésio, pedia inflamado Aderaldo.

  Não sabia, mas o cara era um bom copo e, à medida que bebia, mais e mais falava, com aspecto cada vez mais febril, até que algo inesperado se deu. Lá pela sétima cerveja, Aderaldo subiu na mesa, e, com os olhos cravejados de uma quase demência, começou a gritar como um pastor ensandecido.
  
No Vale do Amanhecer

-Entre os paralelos quinze graus e vinte graus, havia um leito muito extenso, que partia de um ponto que formava um lago. É onde aparecerá a grande civilização, a terra prometida, onde jorrará leite e mel, dizem as santas palavras de Dom Bosco no distante ano de 1883. Agora quem fala sou eu, jaguar medianeiro dos céus e da terra, com os poderes de Olorum, sob os olhos do pai Seta Branca, eu, primeiro comandante do trino Aranã, na captação das energias cósmicas...

  Aderaldo seguiu falando como que em dialeto desconhecido, enquanto as pessoas se aglomeravam no bar para vê-lo em seu delírio místico. Estela então sussurrou no meu ouvido:

  — Ele é médium, o Aderaldo. Incorpora de tudo, esse aí deve ser um Exu Caveira...

  Duvidei, cético.

  — E essas coisas que ele tá falando?

  — Ah, ele sabe tudo de religião, meu filho. Já foi evangélico, da Igreja Pentecostal Nova Vida, já foi membro do Vale do Amanhecer...

  — Vale do Amanhecer?

  — É, também freqüenta mesa branca, é amigo de pai Eusébio, lá de Planaltina, sabe de coisa esse homem!..., falou, sem esconder um certo orgulho.

  — E o que a gente faz?

  — Nada, espera, só.

  Aderaldo em pele de Exu Caveira continuava em sua ascese caótica e particular.

  — Invoco os poderes deste amanhecer, por meu plexo iniciático, latitude trinta e dois graus...

  Uma multidão já se amontoava para ver aquele espetáculo gratuito, tragicômico. Fui saindo de fininho, meio envergonhado, com uma inevitável compaixão por meu ‘‘amigo’’ Aderaldo, ali, palhaço de todos, cavalo da própria loucura.

  — Salve Galdino, mártir da raça, cordeiro de Deus sacrificado para a redenção dos ímpios, salve Juscelino, herói assassinado, saravá Niemeyer, arquiteto do éter, ungido pela graça, coroado pelo santo nome de Deus, Oxalá e Seta Branca, misericórdia à dor dos pobres e desamparados, e o enxofre dos infernos aos usurários, os miseráveis de espírito...

  Foram as últimas palavras que ouvi da boca de Aderaldo, em plena febre dos sentidos, enquanto me afastava dali, sob o eco dos gritos dos populares à volta. Saí à rua, acendi um cigarro, me deixei ficar envolto na fumaça por alguns segundos, até caminhar pra lugar nenhum. Noite escura, nenhum sinal daquele céu azul-Brasília que há pouco me cegava.


Concepção do projeto e coordenação: Carlos Marcelo. Edição: Sérgio de Sá. Reportagem: Nahima Maciel, Natal Eustáquio e Sérgio Maggio. Edição de arte: Fabio Sales. Edição de fotografia: Luis Tajes. Fotografia: Edilson Rodrigues, Jefferson Rudy, José Varela e Zuleika de Souza. Agradecimentos: Armazém do Ferreira, meninas da noite da 314/315 Norte, comunidade do Vale do Amanhecer, Preto Rezende, Saulo Humberto e Grupo de Teatro da Via-Sacra.