quatro cantos
QUEM MORA NO LIMITE DO DF


Marcos feitos de pedra e cimento definem os vértices geográficos de um retângulo chamado distrito federal

Conceição Freitas
da equipe do Correio

  Duas linhas retas, paralelas à linha do Equador, ajudam a definir os limites de um território diferente de tudo quando há no Brasil. Chão e teto do quadrilátero são definidos por duas linhas imaginárias. A leste e a oeste, a área é delimitada pelas águas dos rios Preto e Descoberto, dois dos mais importantes do Distrito Federal. Em cada um dos quatro cantos do território de 5,8 mil quilômetros quadrados foi fincado um marco da divisa do Distrito Federal. É uma coluna quadrada, de 1,30 metro de altura, por 45 centímetros de lado. Feito de pedra, brita e cimento, o marco tem nele gravado os paralelos e sua situação geográfica: se está no extremo nordeste, noroeste, sudeste ou sudoeste. O Correio encontrou os quatro marcos, fincados durante a construção da capital. Estão abandonados, dentro de fazendas, engolidos pelo mato e, um deles, ameaçado de submergir nas águas da Hidrelétrica de Queimado, na divisa de Minas Gerais, Goiás e DF. Um deles, o sudoeste, caiu faz muito tempo. Ninguém nunca apareceu para reerguê-lo.

Jefferson Rudy
Noroeste

  O pai de Antônio de Tota chegou a essa terra no tempo em que existia ‘‘um tal de amor’’, conta Tota filho (foto). Antônio Cardoso de Oliveira era tropeiro. Levava mercadoria pelo sertão mineiro e goiano em tropas de burro. Um dia, passando pela cidade de Estrela do Sul (Goiás), viu a moça na janela, por ela se apaixonou, com ela se casou e veio para o sertão goiano arrumar um jeito de vida melhor. Tinha um tostão no bolso, fruto de um grande carregamento de marmelada de Santa Luzia, a Luziânia de hoje.

  Com esse tostão, Antônio Tota, o pai, comprou a Fazenda Curralinho, isso pelo idos de 1903. Teve oito filhos, fez a vida no Goiás. ‘‘Naquele tempo isso aqui era um sertão feroz’’, descreve o Tota filho, irmão de um personagem lendário na história de Brasília, seu Bêja. Por sua sabedoria de curar gente com a medicina das plantas, Bejamim Cristiano de Oliveira ficou conhecido por toda a redondeza. Tinha uma farmácia de ervas medicinais em Brazlândia. Morreu em novembro de 1997.

  O filho mais novo de Tota mora na divisa do extremo noroeste do Distrito Federal e Goiás, em Brazlândia, onde o mapa faz um ângulo reto com a ajuda de duas linhas imaginárias. Mora numa fazenda confortável, onde palmeiras imperiais abrem caminho para uma piscina grande. Mas a vida de Antônio de Tota e sua mulher, dona Diva, é simples, quase monástica. Vivem de cuidar da fazenda, da visita de filhos e netos nos fins de semana, e de esperar o dia da festa de Nossa Senhora da Abadia, manifestação religiosa centenária que ocorre em Niquelândia. É a Romaria de Muquém, que reúne milhares de fiéis todo mês de agosto. O casal Tota monta acampamento no centro da cidade em lugar reservado para os romeiros mais ilustres, tal qual antigamente se destinava os melhores bancos das igrejas às famílias mais importantes da cidade.

  O marco noroeste do Distrito Federal está acompanhado de uma frondosa mama de porca, arbusto de muitos espinhos que nasceu ao pé da coluna de cimento e pedra. Antônio de Tota já estava lá quando os homens do governo chegaram para demarcar o Distrito Federal. Não chegava a ser uma novidade: Tota tinha tido notícia da nova capital pelo Repórter Esso, programa da Rádio Nacional. Nada, no entanto, que viesse alterar o ritmo lento e ensimesmado dos goianos.

  Nascido na Fazenda Curralinho, Antônio foi registrado em Luziânia. Só conheceu cidade aos 7 anos, quando o pai o levou para aprender a assinar o nome e a ser padre. ‘‘Fui para a escola todo bonito, de chapéu na cabeça’’. Estudar estudou e até tentou gostar de batina, hóstia e missa em latim. Foi coroinha de padre Bernardo (que dá nome à cidade goiana). ‘‘Naquele tempo, padre era uma espécie de santo’’ e Antônio de Tota seguia o religioso, homem querido por toda a região. Mas preferiu a lida da terra.

  O irmão de seu Bêja nem de longe parece ter chegado na casa dos 80. Sai em busca do marco noroeste, no meio de um matagal, com agilidade de triatleta. Enegrecido pelo tempo, largado no esmo, o bloco de cimento em nada parece ser um monumento que separa o Estado de Goiás do território do Distrito Federal. Quem mora por ali sabe que em algum lugar às margens da DF-205, que leva a Padre Bernardo (Goiás), quando a pista se encurva numa subida, à altura do quilômetro 68, existe uma linha divisória imaginária.

  Àqueles moradores de fazenda interessa mais esperar o mês de agosto, para a Romaria de Muquém. No final da semana passada, Antônio de Tota visitou o local da romaria, a quase 300 quiômetros da fazenda. Queria demarcar a área onde vai acampar na festa de agosto próximo. Ao lado dele, estarão velhos vizinhos de fazenda e de fé. Para eles, o centro do universo é Muquém. Brasília é só uma cidade distante, que a eles diz muito pouco.

Jose Varella
Sudoeste

  É lá longe, no canto sudoeste do Distrito Federal, à beira do Rio Descoberto, que uma casa secular resiste ao desprezo do tempo. O atual morador, Antônio Domingos Lagares, 65 anos, o Antônio Mineiro (foto), calcula que a construção tenha mais de 100 anos. O antigo proprietário, Benedito Maria, nasceu e morreu na mesma casa, feita de adobe, alicerce de pedra e colunas de madeira. ‘‘A fazenda chegava até Samambaia’’, conta Antônio Mineiro, há 23 anos morando na divisa do Distrito Federal com Goiás, entre o Rio Descoberto e a rodovia BR-060, que liga Brasília a Anápolis.

  A pouco mais de dois quilômetros do povoado de Engenho das Lajes, a velha fazenda tem chão de cimento vermelho, pé-direito baixo e telhado feito de madeira rústica, que avança pela sacada e pela cozinha, generoso. Ainda restam, a 50 metros da casa, uns 40 metros de cerca de pedra de Pirenópolis sobrepostas, à moda do tempo da escravidão. A fazenda das Lajes abraça a divisa sudoeste do Distrito Federal e Goiás. ‘‘Desde que cheguei aqui o marco está lá jogado no chão. De vez em quando, alguém aparece aqui, diz que vai levantar (o marco), mas... nada’’. O monumento de pedra, coberto de cimento, repousa atirado no meio do mato, a 50 metros do Descoberto, rio caudaloso, apressado e poluído.

  Quando Antônio Mineiro chegou à fazenda, no início dos anos 80, o Descoberto ainda era um rio cristalino. ‘‘Dava pra ver o chão, limpinho...’’, lembra. Logo depois, os assentamentos planejados pelo primeiro governo de Joaquim Roriz trouxeram a sujeira. ‘‘Já vi até cadáver boiando...’’, conta o gerente da Fazenda das Lajes. Na altura da fronteira do Distrito Federal com Goiás, o rio alcança mais de 10 metros de largura, tem água barrenta, mas não desiste da corredeira potente.

  Pelas redondezas, todos sabem que o Descoberto há muito não é mais o mesmo. Desde que o primeiro governo de Joaquim Roriz criou o assentamento de Samambaia, o rio perdeu a limpidez de suas águas. Antônio Mineiro lamenta a poluição do rio tanto quanto proíbe a matança de bichos. Na fazenda das Lajes não se mata gado. As mais de 500 cabeças são tratadas com capricho. Churrasco, ali, só se o boi for sacrificado em outro lugar. As vacas nelore têm nome: Mariana, Gina, Isabel, Linda. O touro de pêlo manchado e corcova gigante tem nome à altura, Soberbo.

  A vida na cidade não interessa a Antônio Mineiro, nascido em Cruzeiro da Fortaleza, Minas Gerais. Não chega a ser um ermitão, a casa centenária fica a 700 metros da BR-060, na boca das Sete Curvas, a 75 quilômetros do Plano Piloto. Prefere, no entanto, passar os dias na fazenda a ir para a sua casa e as dos filhos em Samambaia e Santa Maria, 20 quilômetros dali. Passa os dias cuidando do gado na fazenda encravada em morros que correm para o rio Descoberto.

  Mais importante fonte de abastecimento do Distrito Federal, o Descoberto ficou ainda mais poluído por causa do crescimento acelerado de Águas Lindas e da expansão da área agrícola com seu uso exagerado de fertilizantes. Na Fazenda das Lajes, logo depois de abandonar o Distrito Federal, o Descoberto faz uma curva. Poucos metros antes, está o marco da divisa do extremo sudoeste. Não se sabe se ele foi arrancado do lugar original — o que só seria possível com ajuda de algum tipo de veículo, mesmo uma carroça — ou se foi mal cimentado no chão. Tal qual os outros três marcos, não há uma laje de sustentação. A construção, erguida na terra crua, está enegrecida pelo tempo.

Para quem mora nas fazendas mais distantes do df, brasília é apenas uma cidade a mais. a terra

Luis Tajes
Nordeste

  Num chapadão que parece bem perto do céu, o marco extremo nordeste do Distrito Federal reina, solitário. Nenhuma vegetação ameaça tomar seu lugar e ninguém dá importância a uma coluna de pedra e cimento, cravada na terra sem nenhuma ostentação. Sabem, os mais antigos, que ali é a esquina de Goiás com o Distrito Federal. O baiano Manoel de Almeida Neto, 58 anos (foto), é gerente da Fazenda Asa Branca, que fica na divisa das duas unidades da federação, a 100 metros da rodovia DF 205, que liga Formosa a Planaltina de Goiás.

  Baiano de Rui Barbosa, seu Manoel carrega um sotaque meio-a-meio. À malemolência baiana juntou-se o ritmo interiorano de Goiás. Filho de fazenda, fugiu da seca do sertão da Bahia. Lá, conta, ‘‘o emprego é mais difícil, a vida é mais dolorosa’’. Dia desses, seu Manoel ligou para os parentes que ficaram no Nordeste e ouviu notícias desanimadoras. ‘‘A seca está que é uma tristeza’’. Muitos de seus parentes já vieram para Goiás. ‘‘Alguns trabalham mais eu’’, conta o gerente de fazenda.

  Quando a seca parecia nunca mais acabar e faltava trabalho em fazenda, seu Manoel juntou mulher e quatro filhos, largou Rui Barbosa e tomou o rumo de Goiás, terra de fazendeiro rico, de caminhonete D-20 e de gado enfeitando o pasto no meio do cerrado. Parou no município de Alvorada do Norte, depois na região de Flores, nordeste de Goiás, até chegar às proximidades de Formosa, já dentro do Distrito Federal.

  No planeta de seu Manoel, Brasília é uma cidade tão distante quanto qualquer outra metrópole. ‘‘Fui lá umas vezes...’’, diz, sem nenhum interesse pela obra modernista. O que move o gerente da Asa Branca é coisa bem distinta: a terra. ‘‘Eu canso de dizer pra meus filhos, que Deus nos ajude pra gente comprar uma chacrinha. Eu não gosto de cidade. Quero comprar uma rocinha pra eu viver até o fim dos meus dias’’.

  É bem verdade que esse dia está longe. Seu Manoel tem fôlego de juventude. Acorda às 4h para tirar leite de vaca, uns 180 litros por dia, e fazer queijo, umas vinte unidades. No acordo com o patrão, o leite é dele, para se somar ao salário líquido de R$ 500. Mas o baiano que gosta de fazenda tem razão em se preocupar com a velhice. Um dos dez funcionários da Asa Branca já foi dono da fazenda. ‘‘Eu já disse pra ele: tu tem sangue de barata. Eu ia pra bem longe daqui’’. Encurralado por um financiamento bancário, o antigo fazendeiro teve de vender a terra e aceitar emprego do novo dono.

  É por isso que seu Manoel cuida do futuro de seus quatro filhos, todos morando em Formosa e com a vida encaminhada. A família já tem casa própria na cidade, mas seu Manoel prefere, sempre, dormir na casinha da roça. ‘‘Nasci em fazenda, vou findar meus dias em fazenda. Vou para cidade, mas tenho de dormir na roça. É um sono muito melhor’’. Dorme, todas as noites, perto do marco extremo nordeste do Distrito Federal. Seu Manoel, no entanto, se preocupa mais com o fato de, na fazenda ao lado, o novo dono ter arrancado a vegetação do cerrado. O monumento da divisa, portanto, perdeu as árvores retorcidas que lhe faziam companhia. Ficou sozinho no chapadão.

Luis Tajes
Sudeste

  A fazenda leva o nome de Fronteira, mas bem cabia Duas Fronteiras. Dentro dela, à margem do Rio Preto, está o marco do extremo sudeste do Distrito Federal, separando Goiás, Minas Gerais e o território da capital do país. Mais algum tempo, e ele ficará a dois metros das águas da Hidrelétrica de Queimado, que está sendo construída pelo governo mineiro. O dono da fazenda, Nelson Cappellesso, 60 anos (foto), gaúcho de pele rosada, largou o sul para plantar soja no DF, no início da década de 80.

  Por esses dias, Cappellesso anda ressabiado. Um grupo de homens armados, e usando um carro e duas motos, invadiu sua fazenda no início de abril, amarrou e ameaçou o caseiro, revirou a casa do avesso e disparou tiros de revólver e espingarda no fazendeiro e sua mulher, Salete, 60 anos. Ninguém ficou ferido e o pouco que os bandidos levaram — eles não sabem quantos exatamente — foi largado no meio do tapete de soja.

  De início, os fazendeiros pensaram em abandonar a casa, uma construção avarandada, vistosa, quase à margem da BR-215, mas logo mudaram de idéia. Estão planejando construir um muro alto e instalar portão eletrônico, fazer da fazenda um condomínio. A Fronteira fica a 100 quilômetros de Brasília, na região da Cooperativa Agropecuária da Região do DF, área de grandes lavouras de soja, cujos produtores, em sua absoluta maioria, vieram do sul do país, para dar início ao Projeto Integrado de Assentamento Dirigido do DF, o PAD-DF, em meados da década de 70.

  Quando chegou à região, Cappellesso abrigou-se numa lona debaixo de um caminhão. Expulso do sul pela falta de terra e de financiamento, veio para o Distrito Federal sonhando com tratores, muita terra para cultivo e prosperidade. Em pouco mais de 20 anos, conseguiu tudo o que queria. Sua casa é rodeada de soja (colhe 50 sacos por hectare), tem três tratores, um neto na faculdade, dois carros na garagem, tudo conseguido com a labuta de sol a sol. Reina sobre 300 hectares de terra, mais os 130 do filho mais velho, que vai se casar nos próximos dias.

  A família Cappellesso diverte-se nas festas com a colônia gaúcha, na visita aos dois filhos que moram nos Jardins, povoado próximo. Moram longe de tudo o que é urbano: Unaí fica a 120 quilômetros, Planaltina, a 70. Porém perto do selvagem — quando guiava a procura o marco sudeste no meio do matagal, Cappellesso mostrou marcas de garras de onça impressas na lama. ‘‘Com o desmatamento feito para a barragem, elas estão procurando outro lugar’’, conta o fazendeiro de bigode, pele branca curtida de sol e jeito bonachão.

  À margem do Rio Preto a terra é boa para cultivo, não pede muita correção, ao contrário do chão árido e ácido característico do cerrado. Pouco importa. Corrigido o solo, a terra fica fértil. Melhor assim. Porque os Cappellesso nem pensam em voltar para o sul. Dona Salete apresenta seus mais fortes argumentos: ‘‘Lá é frio demais, três graus abaixo de zero. Fica tudo branco de geada. O vento bate na orelha. Não há roupa que nos proteja’’. Nem o susto do assalto numa noite de domingo, os tiros no pára-choque e na lataria do carro, o desespero de pensar que seu filho poderia estar ferido, os leva a desejar uma vida longe do Distrito Federal, das terras que lhes deram a prosperidade sonhada.
(Conceição Freitas)

Memória de um quadrilátero

Há mais de dois séculos começaram os estudos para escolher a área do DF

Um dos mais recorrentes equívocos sobre a construção de Brasília faz crer que a nova capital saiu do colete de Juscelino Kubitschek num comício em Jataí (Goiás), quando o então candidato à Presidência da República prometeu cumprir a Constituição e transferir a capital do país para o Planalto Central. A idéia era antiga, que vinha se insinuando desde o século 18, como foi crescendo, com algumas interrupções e apatias, porém intermitentemente presente nas aspirações de um Brasil melhor.

A idéia de um Distrito Federal deslocado do Rio de Janeiro, fincado no interior do país, ganhou substância com a criação da Comissão Exploradora do Planalto Central, no final do século 19. A qualidade e diversidade do elenco que compôs a Comissão indicava seriedade de propósitos. O diretor do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro, o astrônomo Luiz Cruls, foi designado comandante da força-tarefa, que saía da capital litorânea para se enfurnar num sertão desabitado e desconhecido.

Geógrafos, médicos, botânicos, higienistas, geólogos, engenheiros compunham a missão exploradora e seu ânimo para viajar de burro, a cavalo, a pé, enfrentar a seca durante o dia e o frio da noite, se surpreender com paisagens magníficas . a Serra dos Pireneus, as Águas Emendadas, a Chapada dos Veadeiros . e conhecer um povo que mantinha tecnologia e hábitos do período colonial. A Missão Cruls demarcou, de início, uma área três vezes maior que o atual Distrito Federal, de 14.400 quilômetros quadrados, que abraçava antigas fazendas de Planaltina e Luziânia. Dessa portentosa missão exploradora resultaram estudos até hoje não de todo aproveitados. E impuseram ao mapa do Brasil um novo marco geográfico, o Quadrilátero Cruls, área retangular denominada Distrito Federal. Nova Missão Cruls, em 1896, aprofundou estudos sobre o clima, a topografia, os recursos hídricos para escolher, finalmente, o local definitivo onde Brasília seria construída.

Só que ainda não era hora do finalmente. Passaram-se quase 50 anos até que o sentimento mudancista voltasse a contagiar o país.

O presidente Eurico Gaspar Dutra criou a Comissão Temática de Estudos de Localização da Nova Capital que confirmou a escolha feita pela Missão Cruls. Em fins de 1952, o Congresso Nacional aprova lei que autoriza estudos para a escolha definitiva do sítio onde a cidade seria construída. A demarcação do Distrito Federal ficou na dependência do local a ser escolhido para a nova capital. Em se identificando a área, o DF abarcaria um conjunto de 5,8 mil quilômetros quadrados. Nova comissão foi criada, agora chefiada pelo marechal José Pessoa, que contratou a firma americana Donald Belcher & Associates. Os americanos partiram de uma área mais de três vezes maior que a estabelecida pela Missão Cruls. Um retângulo de 52 mil quilômetros quadrados do Planalto Central foi escarafunchado palmo a palmo num precioso estudo de uma região que avançava até Goiânia, de um lado, e para lá de Unaí, de outro. A firma americana usou os, à época, sofisticados recursos da fotografia aérea. O retângulo de 52 mil quilômetros quadrados foi subdividido em 18 quadros para os quais foram preparados mosaicos aerofotográficos na escala de 1 por 50.000. O chão de Brasília foi escolhido numa palheta de cinco cores. Belcher definiu cinco áreas distintas, de 1 mil quilômetros quadrados cada uma, e nomeou-as de sítio castanho, sítio verde, sítio vermelho, sítio amarelo e sítio azul. Em cada um dos sítios, os americanos estudaram e documentaram a topografia, a drenagem, a utilização da terra, os solos para a agricultura, os solos para engenharia e a geologia. Venceu o sítio castanho, avaliado a partir de critérios estabelecidos em lei, quais sejam: clima e salubridade favoráveis, facilidade de estabelecimento de água, topografia adequada, energia elétrica, existência de materiais de construção, facilidade de acesso às vias de transporte terrestre e aérea, solo favorável às edificações, proximidade de terras para cultura, paisagem atraente, facilidade de desapropriação. Escolhido o sítio, e a partir dele, uma comissão foi encarregada de demarcar a área do Distrito Federal. A lei, lembre-se, determinava que ..em torno do local escolhido, fossem traçados os limites do Novo Distrito Federal, que deveria conter aproximadamente 5.000 km²... A comissão de três engenheiros, dois do Serviço Geográfico do Exército, gastou onze dias para dar conta da tarefa. A lei (veja trecho na página seguinte) foi assinada a 5 de janeiro de 1953, 50 anos atrás.


Documentos

‘‘O perímetro começa no ponto de latitude 15º30’ e longitude 48º12’ W.Green. — Desse ponto segue para leste pelo paralelo de 15º30’ Sul até encontrar o meridiano de 47º25’ W.Green. — Daí por esse meridiano de 47º25’ W.Green, para o Sul, até encontrar o talvegue do Córrego Santa Rita, afluente da margem direita do Rio Preto. Daí pelo talvegue do citado córrego Santa Rita até a confluência deste com o Rio Preto, logo a jusante da Lagoa Feia. Da confluência do córrego Santa Rita com o Rio Preto, segue pelo talvegue deste último, na direção sul, até cruzar o paralelo de 16º03’ Sul. — Daí, para o norte, pelo talvegue do Rio Descoberto até encontrar o meridiano 48º12’W. Daí para o norte, pelo meridiano 48º12’, até encontrar o paralelo de 15º30’sul, fechando o perímetro’’.
Subcomissão Encarregada do Estudo da Demarcação dos Limites do Distrito Federal

‘‘O Brasil deve ser louvado pelo fato de ser a primeira nação da história a basear a seleção do sítio de sua Capital em fatores econômicos e científicos; bem como nas condições de clima e beleza’’.
Donald Belcher, 1955

‘‘Em torno deste sítio, será demarcada, adotados os limites naturais ou não, uma área aproximadamente de 5.000 km², que deverá conter, da melhor forma, os requisitos necessários à constituição do Distrito Federal e que será incorporada ao Patrimônio da União’’.
Art. 2º da Lei 1803, de 5 de janeiro de 1953

‘‘Uma das falhas mais comuns na localização de uma cidade, no passado, foi o fato de não terem sido levadas em consideração as condições geológicas. Como exemplo, as seguintes cidades pagaram, no passado, e estão pagando ainda um alto tributo às péssimas condições geológicas de seu subsolo — Amsterdã, Cidade do México, Bancoc, Istambul, Boston e Chicago. Nestas cidades, os solos são úmidos e a rocha firme está em uma grande profundidade. Tais áreas existem no Retângulo, mas em nossa seleção de sítios elas foram evitadas’’.
Trecho do Relatório Belcher

‘‘É inegável que até hoje o desenvolvimento do Brasil tem-se sobretudo localizado na estreita zona do seu extenso litoral, salvo, porém, em alguns de seus estados do sul e que uma área imensa de seu território pouco ou nada tem beneficiado deste desenvolvimento. Entretanto, como demonstra a exploração a qual procedeu esta comissão, existe no interior do Brasil uma zona gozando de excelente clima com riquezas naturais, que só pedem braços para serem exploradas.’’
Trecho do Relatório da Missão Cruls

‘‘O nosso céu, de uma beleza notável, carrega-se pela manhã de nuvens a leste, passando elas pelo zênite nas proximidades do meio-dia para, à tarde, acumularem-se pelo lado oeste e afinal desaparecerem quase totalmente, descendo a nebulosidade às vezes quase a zero; parecem fazer cortejo ao sol. Só nas proximidades do mês de agosto e durante ele é que aparecem os nevoeiros secos de fumaça que, turvando o ar, impedem qualquer observação; porém, felizmente, não é sempre que velam totalmente o céu’’.
Trecho do Relatório Cruls