lar do poder
ADAPTAÇÃO TRANQÜILA


Ministros e parlamentares se acostumam com facilidade à capital e destacam a qualidade de vida como a maior virtude da cidade

André Campos
da equipe do Correio

  Ao completar 43 anos, Brasília parece ter aposentado a antiga Península dos Ministros no Lago Sul. As autoridades do governo Luiz Inácio Lula da Silva preferem morar em apartamentos na Asa Norte, na Asa Sul ou em casas no Lago Norte. Os novos poderosos da República juram amor pelo céu do Planalto Central e pelo verde das ruas da capital. E não se enquadram no velho esquema da ponte aérea na quinta-feira rumo ao estado de origem, e na terça-feira, de volta ao Distrito Federal. A tendência atual é morar por aqui e retornar à cidade natal apenas quando o trabalho permite. O Correio entrevistou dois ministros, uma secretária nacional e o líder do governo na Câmara do Deputados para saber como eles vivem, onde vão e o que fazem em Brasília. De todos, só ouviu palavras apaixonadas por uma cidade em que a surrada expressão qualidade de vida parece ganhar sentido e sinceridade.

José Varella
A senadora Emilia Fernandes se mudou para a 206 Sul: ..quando vi as árvores, pensei: "é aqui que vou morar".
Profecia confirmada

  Há quinze anos, quando era ainda vereadora pelo PDT em Santana do Livramento, cidade na fronteira com o Uruguai, a gaúcha Emilia Fernandes ouviu uma previsão que a marcou para o resto da vida. ‘‘A senhora ainda vai morar em Brasília e ocupar um espaço privilegiado do poder’’, disse um amigo vidente.

  Hoje no PT, e desde janeiro nomeada secretária especial de Políticas para as Mulheres, Emilia Fernandes acha que realizou a profecia. No Distrito Federal há nove anos, ela chegou por aqui para ocupar uma cadeira no Senado e, diferente de alguns colegas da política que consideram a cidade apenas um local de trabalho, a ex-parlamentar criou um laço afetivo com a capital. ‘‘Aprendi a amar Brasília. Mesmo com os problemas sociais típicos das cidades brasileiras, aqui existe tranqüilidade, as pessoas se querem bem. Há muita música e respeito ao meio ambiente’’, descreve a secretária.

  Agora no governo Luiz Inácio Lula da Silva, Emilia Fernandes inverteu a rotina de viagens de sua época de senadora. Atualmente, ela passa três finais de semanas em Brasília e apenas um no Rio Grande. ‘‘O único problema disso é a saudade que sinto do meu pai, que tem 84 anos’’, revela. As novas responsabilidades no Executivo a fizeram trazer o carro lá do Sul para Brasília. Ela acaba também de trocar um apartamento na 309 Sul por um na 206 Sul. ‘‘Quando abri a janela e vi as árvores em frente a este bloco da 206, falei: é aqui que vou morar. É uma alegria viver numa capital de tanto verde, de tantas flores’’, conta a secretária.

  A programação de fim de semana em Brasília inclui sempre um cinema na Academia de Tênis ou no Terraço Shopping com os três netos, Carlos Fernando, 13, Marcos Vinícius, 11, e Luís Felipe, 8. Com os amigos gaúchos, para aquele sempre bem-vindo churrasco de domingo, o local é o Clube do Congresso. De noite, ‘‘para escutar uma musiquinha num barzinho descontraído’’, a dica da secretária é a mesma de dez entre dez petistas da ala tradicional: o Feitiço Mineiro. Emilia Fernandes não dispensa também os encontros nos Centros de Tradição Gaúchas (CTGs) da Capital.
‘‘Recentemente comi uma costela no espeto na Estância Gaúcha do Planalto maravilhosa’’, diz.

  Emilia Fernandes acredita que conseguiu se libertar rápido do lugar-comum que aprisiona Brasília no falso status de ‘‘um cidade que gira em torno do poder’’ por ter um irmã que veio para cá há mais de 40 anos.‘‘Graças a ela, sempre vi Brasília além da Esplanada dos Ministérios. Percebo hoje uma cidade com vida cultural pulsante, com pessoas que cultivam fortes laços de amizade’’.

Marina Silva e a casa tribalizada

  Diante da imensidão do céu do Planalto Central, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, continua impressionada, mesmo após nove anos de convívio íntimo com Brasília. ‘‘Parece que o olho de Deus é maior aqui’’, afirma a ex-seringueira. Pelas bandas de cá, realmente tudo é muito diferente da paisagem em que ela cresceu. As árvores altas e clima úmido da região Amazônica — que provoca nuvens constantes e com baixa altitude — dificultam a visão do horizonte nas florestas do Acre.

  A diferença de cenário até estimulou que Marina Silva se adaptasse com certo prazer a Brasília. Evangélica, ela freqüenta todo domingo em que fica na capital os cultos da Assembléia de Deus na 611 Sul. E desde que assumiu apasta do Meio Ambiente, em janeiro, só conseguiu ir uma vez ao Acre — assim mesmo a trabalho. Ou seja, a igreja da Asa Sul acaba de ganhar agora mais uma assídua fiel. ‘‘O trabalho é muito no novo governo. Não dá nem para viajar. Estou virando brasiliense’’, desconfia a ministra.

  Marina Silva mora na 309 sul com o marido Fábio e os quatro filhos: Shalon, 21, Danilo, 20, Moara, 13, Maiára, 10. O processo de se tornar brasiliense inclui dividir com uma vizinha, em sistema de rodízio, a responsabilidade de levar os filhos à escola adventista. ‘‘Isso é bem comum por aqui. E me adianta bastante, já que não posso dirigir, porque tenho problemas de visão’’, diz a senadora pelo PT do Acre.

  O apartamento em que vive a família Silva em Brasília foi decorado com carinho, com o objetivo claro de parecer um lar e não um endereço provisório. O estilo, de acordo com Marina Silva, é algo tribalista — termo cunhado antes da moda lançada pelo trio pop Marisa Monte-Arnaldo Antunes-Carlinhos Brown. ‘‘Tribalizei a minha casa para ficar mais parecida comigo’’, comenta. Os móveis, por exemplo, são de bambu. O relógio de parede tem, no lugar dos números, doze pássaros, que cantam nas horas certas. Tudo remete à natureza.

  Levar os filhos para dar uma volta de bicicleta no Parque da Cidade ou para comer pratos típicos do Norte do país na feira da Torre de Televisão. São esses os programas de Marina Silva no fim de semana. Quando sobra tempo, coisa rara atualmente, ela arrasta o marido para um cinema no shopping Pier 21. ‘‘Gosto de ir ao Cinemark. É mais fácil, porque lá tem várias opções’’.
(Ana Maria Campos)

José Varella
Ilustre morador da QI 8, o ministro da Previdência anda diariamente no calçadão do Lago Norte
A caminhada de Berzoini

  O senhor de cavanhaque, alguns quilos acima do peso, de short e de tênis, passa desapercebido no meio das pessoas na manhã nublada. O ministro da Previdência, Ricardo Berzoini, caminha todos os dias por volta das 8h da manhã pelo calçadão do Lago Norte para controlar o estresse. Essa é a forma que encontrou para suportar as pressões de ser o principal responsável por desenhar a proposta da reforma constitucional mais complicada do governo Luiz Inácio Lula da Silva.

  Na ponte aérea São Paulo-Brasília há cinco anos, quando chegou por aqui num mandato de deputado federal em 1999, Ricardo Berzoini assumiu, em janeiro passado, o Ministério da Previdência decidido a trazer toda a família para a capital. Pouco mais de três meses depois, o ministro está em estado de graça com a nova vida brasiliense. ‘‘Para quem está acostumado com São Paulo, que tem um trânsito terrível e um ambiente muito estressante, Brasília é muito mais agradável. Gasto hoje um quarto do tempo que gastava lá no trânsito’’, compara.

  A família Berzoini instalou-se numa confortável casa na QI 8 do Lago Norte. A mulher Sônia já está adaptada à cidade, garante Ricardo Berzoini, e os filhos Giulia, 8, e Luigi, 4, matriculados no colégio. A filha mais velha, Natasha, que faz faculdade de cinema, preferiu ficar em São Paulo. ‘‘Os meus dois filhos que vieram para cá estão gostando. Eles se acostumaram muito rápido à cidade’’.

  A troca de São Paulo por Brasília tem caráter permanente, ao menos enquanto o desafio de ser governo durar. ‘‘Transferi as coisas da minha casa de São Paulo para cá. Aliás, a casa está vazia e para alugar. Trouxe também o carro’’, informa o ministro. O verde das ruas de Brasília e a céu da capital não passaram desapercebidos pelo supertécnico do governo Lula. ‘‘Eu morava também em casa na periferia da Zona Sul paulistana, num bairro chamado Cidade Ademar. Lá tinha até passarinho, mas aqui a gente convive mais com o verde na rua, andando pela cidade, que tem pouco prédios, o que permite ver o horizonte’’, comemora.

  No fim de semana, ele gosta de almoçar com a família no Retiro do Pescador, restaurante que fica perto do Clube de Imprensa, e caminhar pelo Setor de Mansões do Lago, para ‘‘pensar na vida’’. Mas seu maior prazer é mesmo curtir a família. ‘‘Por uma questão de estilo, eu gosto mesmo é de ficar em casa com meus filhos’’, diz Ricardo Berzoini. Tanto que nesta Páscoa, ele convidou a irmã e o irmão, com as respectivas famílias, para passar o feriado com ele no Lago Norte. ‘‘São Paulo, agora, eu sou vou a trabalho’’, confessa.

Acácio Pinheiro
Aldo Rebelo na 202 Norte: apartamento decorado com quadros nordestinos
Rebelo é fã da Feira do Guará

  O líder do governo na Câmara, deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP) pega o carro e ruma para o Guará quando quer matar a saudade do seu Nordeste querido. ‘‘Você vai à Feira do Guará e sente na Feira de Caruaru’’, compara o líder do governo, referindo-se a uma das maiores manifestações populares da cultura pernambucana. Treze anos de Brasília lhe ensinaram os caminhos além da Esplanada dos Ministérios. Natural de Viçosa, norte de Alagoas, ele corre para a feira mais tradicional da cidade quando seu coração começa a bater forte no compasso do forró.

  Aldo Rebelo não teve problemas para se adaptar a Brasília. A forte influência nordestina no Distrito Federal ajudou com que ele se sentisse em casa com mais facilidade. Ele crê que nem em São Paulo, seu reduto eleitoral, a região tenha tanta influência sobre a população local. ‘‘Aqui tem até uma Casa do Cantador, outro lugar que considero importante. Nem toda capital nordestina possui algo semelhante’’, afirma o parlamentar.

  Morador da 202 Norte, Aldo Rebelo decorou seu apartamento com quadros que retratam cenas típicas do Nordeste, além de objetos de arte com um vaso chinês e um jarro iraniano. De São Paulo, trouxe parte de sua biblioteca, que ocupa um dos quatro quartos do apartamento. Entre os livros, pode ser visto um pequeno busto do líder comunista Ho Chi Min, que liderou os vietinamitas à vitória contra os EUA.

  Quando fica no fim de semana em Brasília, o deputado, acompanhado da mulher Rita costuma levar o filho Pedro, 10, à hípica, onde o menino aprende equitação. ‘‘O fato de Pedro ter nascido aqui nos torna brasilienses’’, observa. Mas não tem sobrado muito tempo para o lazer. A nova situação como governista tem obrigado o parlamentar a cumprir uma agenda pesada. ‘‘O trabalho da oposição é mais simples. Atualmente, não me sobra tempo para muita coisa’’, desabafa.