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ENCANTO BRITÂNICO


James e Sarah Walker têm 34 anos de história na capital. Vieram para dirigir a Cultura Inglesa, mas criaram raízes na cidade

Samy Adghirni
da equipe do Correio

Carlos Vieira
O casal Walker deixou o Rio de Janeiro em 1969 para morar em Brasília: empatia com ritmo tranqüilo da capital
 Em uma casa discreta do Lago Sul, mora uma das famílias estrangeiras que está há mais tempo em Brasília. Os Walker estão radicados na capital desde 1969 e não trocam por nada a vida no planalto central. Sentem falta da Grã-Bretanha, mas a combinação de sucesso profissional e empatia com o espírito candango os enraizou de vez na cidade.

  James Walker, 66 anos, é do tipo calado e observador. Mas a aparente fleuma esconde um apurado senso de humor, misto de sutileza britânica e malícia brasileira. Chegou ao país em 1963 para lecionar matemática em Teresópolis, RJ. Quatro anos depois, trocou a serra pelo litoral e instalou-se no Rio de Janeiro para trabalhar na Cultura Inglesa. Nessa época, conheceu a alegre e descontraída conterrânea Sarah, que também dava aulas de inglês na capital carioca. Juntos desde então, James e Sarah aceitaram, há 34 anos, um convite do Conselho Britânico para dirigir a Cultura Inglesa na nova capital.

  ‘‘Chegamos a Brasília no final do governo Costa e Silva. Era um período complicado, onde ainda se cogitava seriamente voltar a capital para o Rio’’, lembra Sarah, 61 anos. Quando muitos relutavam em deixar a brisa atlântica para engolir a poeira do cerrado, James e Sarah eram daqueles que desembarcavam na nova capital com o otimismo dos idealistas e a inabalável fé de quem se sente participando de um grande projeto coletivo.

  O primeiro endereço foi uma casa de amigos na W3 sul. ‘‘Em frente à extinta Casa do Barata’’, lembra James. Encantado com a pacata rotina da nova capital, o casal nunca se arrependeu de ter trocado a efervescência carioca pela tranqüilidade e segurança de Brasília. ‘‘Podíamos sair sem trancar a porta de casa e andar pelas ruas sem nos preocupar com assaltos. E dirigir na cidade era muito fácil pois havia pouquíssimos carros e nenhum semáforo’’, relata Sarah, em impecável português.

  Até a primeira metade dos anos 70, os Walker já haviam fundado o Independent British Institute (IBI), comprado um apartamento na 108 sul e comemorado o nascimento da primogênita Mary. Sarah também começara a lecionar inglês no Instituto Rio Branco e James comandava os prósperos negócios do IBI. Além do sucesso profissional e da realização familiar, o que motivou o casal a ficar na capital foi a empatia com os brasilienses. ‘‘A cidade era morta mas nela encontramos um ambiente bem mais simpático do que no Rio. Os cariocas só queriam amizade com outros cariocas’’, lança James.

  ‘‘Era muito fácil fazer amigos em Brasília. Os contatos sociais eram excepcionais porque todo mundo queria conhecer pessoas novas’’, recorda Sarah. Os Walker explicam também que na década de 70, estrangeiros e brasileiros se misturavam mais. ‘‘Os governos demoraram em transferir suas embaixadas do Rio para Brasília. Antes de mandar diplomatas à nova capital, eles enviavam funcionários de baixo gabarito. Acho que esses se integravam mais facilmente à vida local’’, arrisca Sarah.

  Em 1976, após o nascimento de Robert, o segundo filho, os Walker compraram a casa onde moram até hoje. ‘‘Nossas crianças têm dupla cidadania e se orgulham muito do passaporte brasileiro. Foram felizes crescendo aqui. E nossos empreendimentos profissionais deram certo. Resolvemos ficar, não havia razão para voltarmos para a Inglaterra’’, diz Sarah. Hoje, Mary é uma bem sucedida agente de viagens e o caçula Robert leciona computação gráfica em uma universidade particular. Nenhum dos filhos optou por uma vida fora de Brasília.

Casal divertido

  ‘‘James e Sarah Walker são muito queridos pelos amigos, tanto brasileiros como estrangeiros. Ambos têm um lado excêntrico bem divertido. Ele tem uma mente que está sempre alerta e é excelente cozinheiro. Ela é uma pessoa extraordinária e possui uma energia incrível. Os dois tem uma mente independente e aberta, por isso adaptaram-se tão bem ao Brasil’’, comenta Anthony Stevens, britânico radicado em Brasília e amigo do casal há 17 anos. ‘‘Eles tem muita facilidade em conquistar a simpatia das pessoas. Quem os conhece logo se encanta’’, comenta um ex-aluno de Sarah.

  Hoje em dia, a rotina de James e Sarah continua parecida com a de muitas famílias brasilienses. Durante a semana, trabalho. Aos sábados, sessão de cinema na Academia de Tênis ou no Pier 21. Domingo é dia de almoçar com os filhos no Clube de Golfe, onde o nome dos Walker figura ao lado dos mais antigos sócios. A escassez de maiores opções culturais na cidade não é um problema para o casal. ‘‘Gostamos mesmo é de assistir filmes, no cinema ou em casa’’, confessa James, deitado no sofá da sala, apontando para uma enorme coleção de fitas de vídeo na parede.

  A decoração da casa é sóbria e elegante, mas não revela a identidade de seus ocupantes à primeira vista. Objetos de arte foram retirados da sala e poupados dos quatro exaltados e amigáveis cachorros que correm pela residência. A alma britânica dos Walker vive através das inúmeras fotos penduradas ao longo do principal corredor. São principalmente retratos felizes de família. Há também uma foto do pai de James na Índia, tirada no início do século, em pleno império britânico. Outro quadro mostra o sorridente casal Walker em meio a uma verdejante e linda planície. ‘‘Além da família, é das maravilhosas paisagens do interior que mais sinto falta. A Inglaterra é um país pequeno mas muito bonito’’, conta Sarah.

  A vegetação do cerrado também encanta o casal. Tanto quanto a exuberância do céu da capital. ‘‘A luz alaranjada de alguns finais de tarde é extraordinária. Nunca vi nada igual’’, jura Sarah. A arquitetura de Brasília não fascina tanto. ‘‘Muito concreto, muita geometria’’, justifica. Mas segundo James, ‘‘ruim mesmo, só o trânsito de um anos pra cá’’.

  Mesmo aposentados, os Walker não pensam em deixar Brasília. Já não comandam o IBI, mas mantêm outras ocupações. James está envolvido em atividades ligadas ao Clube de Golfe. Sarah ainda é professora de futuros diplomatas. Ela também viaja toda semana para Tocantins, onde participa de um ambicioso projeto de capacitação de professores de ensino médio. Seus esforços pela divulgação da língua inglesa no Brasil já lhe valeram uma medalha entregue pela própria rainha Elizabeth II. ‘‘Mas receber a Ordem do Rio Branco me deixou ainda mais feliz’’, confessa a inglesa.
"É artificial?"

Imanol Ibarrondo, pedagogo espanhol, está há três semanas na cidade. Para ele, o Lago Paranoá ainda é um mistério

  O pedagogo espanhol Imanol Ibarrondo, 28 anos, ainda está sob o choque da chegada a Brasília. Desembarcou há três semanas na capital, onde pretende passar ‘‘pelo menos um ano’’, e, aos poucos, se recupera da primeira impressão. ‘‘Onde estou? Que planeta é este?’’, pensou durante o trajeto que o levou do aeroporto até o apartamento no Sudoeste onde se instalou.

  ‘‘Quando desembarquei, imaginava, com meus clichês de europeu, encontrar morenas sambando nas ruas. Mas logo percebi o quanto estava enganado’’, diz. Dias após a chegada, Imanol realizou o tradicional roteiro turístico da capital e disse estar muito surpreso com a arquitetura da cidade. Achou a catedral ‘‘estupenda’’ e declarou-se impressionado com a quantidade de carros nas ruas.

  Ele, que costumava andar a pé ou de bicicleta no seu País Basco natal, lamenta a falta de infra-estrutura para ciclistas e pedestres. ‘‘É uma pena, por que há bastante espaço para caminhar ou construir ciclovias’’, constata. Mesmo assim, Imanol não hesita em percorrer a pé trajetos que parecem impossíveis para a maioria dos brasilienses. ‘‘Num dia desses, caminhei do Sudoeste até a UnB. Foi um passeio legal, que durou cerca de duas horas’’, relata. ‘‘O desenho da cidade é lógico mas confesso que as vezes ainda me perco durante minhas caminhadas.’’

  Imanol está deslumbrado com o céu do Planalto Central, mas não entende a falta de pessoas andando nas ruas. O Lago Paranoá ainda é um mistério. ‘‘É artificial? Lago norte e sul são a mesma coisa?’’, pergunta. No País Basco, Imanol adorava fazer longos passeios a pé nas montanhas ao redor de sua casa, onde também praticava alpinismo, seu esporte predileto. Hoje em dia, seu contato diário com a natureza se resume à vista do apartamento onde mora, localizado em frente ao Parque da Cidade. ‘‘Desde a janela do quarto onde durmo, vejo os cavalos do centro hípico que fica no parque’’, comenta.

  Mas o espanhol não pára em casa. Está sempre andando, a pé ou de ônibus, para descobrir os meandros da capital ou se encontrar com os novos amigos brasilienses. ‘‘Ele é muito simpático e atencioso e já se enturmou bem por aqui’’, garante a triatleta Gleise Botelho, 27 anos, amiga de Imanol que o convenceu a vir à Brasília

  A amizade entre os dois começou há três anos, quando percorriam uma trilha Inca no Peru. Ao saber que Gleise era brasileira, Imanol contou sobre sua paixão pela obra de Paulo Freire. A triatleta explicou então que Brasília era um grande centro de estudos sobre o pedagogo e o convidou para conhecer de perto a realidade da educação no Brasil. No dia 14 de março, Imanol chegou ao Brasil. Desde então, mora no confortável apartamento dos pais de Gleise, no Sudoeste.

  Mesmo com muitas viagens previstas pelo país, Imanol terá sua base de trabalho em Brasília. Veio por conta própria para aprofundar seus conhecimentos sobre os métodos de Paulo Freire na intenção de tentar aplicá-los à realidade basca. Também participará de atividades ligadas ao programa Universidade Solidária.

  Para acelerar a adaptação do novo visitante, Gleise já o levou para várias festas, incluindo uma noite de forró. ‘‘Incrível como os brasileiros têm ritmo quando dançam’’, constatou o basco. Um dos momentos mais marcantes da nova vida de Imanol aconteceu na semana passada, quando a amiga triatleta o levou para comer sushi. ‘‘Foi sensacional. Na Europa, restaurantes japoneses são tão caros que nunca havia provado este tipo de comida. Adorei!’’. No entanto, o alegre e descontraído rapaz confessa que não está acostumado à sofisticação pretensiosa de alguns restaurantes da capital. ‘‘As vezes tenho a impressão de que a essência, a alma, do povo brasileiro se perde um pouco em Brasília. Espero voltar de minhas viajens pelo país para tirar conclusões’’, comenta.
Samy Adghirni