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O ciclista Abraão Azevedo compete por santa catarina, mas não deixa o apartamento em que vive há 15 anos na 312 Norte

Leonardo Meireles
da equipe do Correio

Adauto Cruz
Abraão guarda medalhas, troféus e equipamentos no apartamento: treinos e estudos perto de casa
 É opinião corrente entre os atletas do Distrito Federal que o empresariado e o governo dão pouco apoio para o esporte brasiliense. Pois um deles resolveu não ficar parado. Ex-campeão brasileiro, atual número dois do ranking de mountain bike no Brasil, Abraão Azevedo decidiu competir por Santa Catarina. Mas a paixão por sua casa em Brasília não deixou que ele fosse embora.

  Abraão mora com a mãe, Dona Terezinha, no bloco C da 312 Norte. Tinha mais gente quando a família mudou de Formosa para cá, em 1986. Abraão era um adolescente de 17 anos, nem sabia ainda que se tornaria um campeão sobre duas rodas. Vivia com a mãe, o pai, João Evangelista, e os irmãos Anselmo, Arnaldo, Ana Magda e Marcos. Em 1988, o pai morreu. Em 1997, um acidente de trânsito tirou a vida de Arnaldo. Os irmãos se casaram e só sobrou o meninão de 32 anos.

  ‘‘Este apartamento acompanhou toda minha esportiva’’, lembra Abraão. Ele começou a dar suas primeiras pedaladas em 1991. O espaço de 102 metros quadrados, três quartos, uma sala, uma cozinha e dois banheiros foi ficando cada vez menor com a chegada das bicicletas, troféus e medalhas de Abraão. ‘‘A última vez que contei foi em 2001. Já tinha passado de cem’’, contabiliza.

  ‘‘E ainda tem mais no quarto dele’’, sorri a mãe, orgulhosa. O quarto de Abraão tem uma cama e um armário. O restante do espaço é ocupado pelos prêmios mais importantes dele, além de vários equipamentos de bicicleta. Lá estão o troféu de primeiro lugar do Campeonato Pan-Americano do México, em 1998, o de campeão brasileiro de 1997, os de número um do ranking brasileiro em 1996, 2000 e 2001, além do Iron Biker de 2000, a competição mais importante do mountain bike brasileiro.

  Rodas, canos, aros, câmaras, troféus e medalhas ainda ocupam a sala e várias outras partes da casa. O apartamento de Abraão se tornou uma espécie de quartel-general. Lá ele reúne jovens e até experientes ciclistas para passar treinamentos específicos. ‘‘Antigamente minha mãe reclamava. Agora ela já se acostumou, nem nota mais’’, diz. Ele faz de tudo para não se afastar do clima caseiro e da comida da mãe. Treina na parte da manhã, fica em casa à tarde e à noite sai para as aulas de inglês.

Perto de casa

Foi assim a vida toda. Abraão sempre estudou perto de casa. Na Universidade de Brasília, passou para psicologia, mas as greves e viagens fizeram com que mudasse de curso e faculdade. Passou no vestibular de educação física no Alvorada, a poucos quilômetros de sua casa. Os treinos também sempre foram nas redondezas — para um atleta de mountain bike entenda-se por redondezas algo em torno de cem quilômetros de distância.

  Abraão conhece todas as trilhas do Distrito Federal. Mas fez do Lago Norte e Fercal outras moradas. ‘‘Não tenha dúvida que é por causa do lugar que moro, porque fica bem mais perto’’, explica. O ciclista é tão identificado com o lugar os amigos colocaram o nome de Trilha do Abraão em um circuito que fica um quilômetro depois do Varjão. O dono do nome só ri. ‘‘Dizem que você recebe essas homenagens quando está ficando velho, né?’’.

  A medida do valor que Abraão dá à sua casa está no fato de ele ser atleta de ponta. Ele viaja em média duas vezes por mês. E já chegou a ficar dois meses fora de casa, em um temporada que passou no México e nos Estados Unidos. ‘‘Não chegou a ser insuportável, mas a saudade era grande. Teve um dia, na volta, em que eu acordei no meio da noite e simplesmente não sabia onde estava. Só me tranqüilizei quando notei que estava na minha casa’’, lembra.

  Agora, Abraão prepara-se para dois sonhos antigos: os Jogos Pan-Americanos, em agosto, em Santo Domingo (República Dominicana), e os Jogos Olímpicos, ano que vem, em Atenas. Mais uma vez, o apartamento será sua base para as conquistas. Talvez por pouco tempo. Ele já comprou um lote e deve mudar para lá em dois anos. Adivinhem onde é o lote? ‘‘No Lago Norte. Não consigo ficar tão longe.’’
Paulista, Carioquinha agora é candango


Luiz Roberto Magalhães
da equipe do Correio

  Milton Setrini Júnior, o Carioquinha, morou em muitos lugares. Aos 52 anos, o ex-armador da seleção brasileira de basquete já viveu nos Estados Unidos e Itália, passou por São Paulo, Rio de Janeiro, São José dos Campos, Belo Horizonte, Uberlândia, Blumenau e Goiânia. Mas depois de tanto rodar, acabou escolhendo um apartamento de três quartos na 109 Sul como lugar em que pretende ver a filha Geovana, que fará 4 anos em agosto, crescer.

  Paulistano, Carioquinha defendeu a Seleção Brasileira entre 1970 e 1984. Neste período, conquistou muitas medalhas, entre elas a de ouro no Pan-Americano de Cali, em 1971. Aposentado das quadras, continuou envolvido com o esporte, como técnico de basquete. Veio para Brasília em março do ano passado para comandar da Universidade Salgado de Oliveira, a Universo.

  ‘‘Quando acabou o contrato com a equipe, depois que fomos campeões brasilienses, recebi vários convites. Alguns eram muito bons, mas gostei tanto de Brasília que pensei: ‘vou tentar por aqui mesmo’’’, disse Carioquinha. Antes de vir para a capital, o ex-armador da seleção morava em Copacabana, em um apartamento de três quartos. Lá viveu por quatro anos. ‘‘Sinto muita falta do mar. Eu gosto e é a única coisa que faz falta por morar em Brasília. Mas prefiro a segurança que tenho aqui a esse lazer que hoje no Rio de Janeiro é muito arriscado’’, justificou. ‘‘Agora sou candango’’, diz.

  Carioquinha está feliz com sua vida na capital e principalmente com o lugar onde está morando. ‘‘O apartamento é fantástico. Tem três quartos e duas suítes. Minha filha fica em uma e eu e minha esposa (Angélica) em outra. Tenho um clube do lado de casa, o Vizinhança, uma padaria na frente, um supermercado bem pertinho’’, elogia. ‘‘E minha filha fica lá embaixo brincando sem problemas.’’

  Um dos proprietários da Unisport, empresa especializada em eventos esportivos e dona da franquia oficial do Flamengo em Brasília, Carioquinha mora de aluguel mas faz planos de comprar um apartamento na cidade. Só então desempacotará as medalhas e troféus acumulados durante a carreira. ‘‘Algumas coisas, como as medalhas e os troféus eu ainda não tirei das caixas. Pretendo fazer uma estante para guardá-las.’’