LAR DA ARTE

O fotógrafo Luis Humberto, em ensaio reflexivo, revela ângulos surpreendentes de seu apartamento na 305 sul

‘‘Vim para esta cidade, há 42 anos, acreditando no sucesso permanente da inteligência, da beleza e da paz.’’ ‘‘Quanta ingenuidade... A paz é apenas o intervalo entre as guerras. Revoadas recorrentes de abutres e vampiros se abatem sobre a cidade e o mundo.’’
‘‘É um engano acreditar que a seriedade e sensibilidade irão nos garantir vitórias. Ao contrário irão transformar-nos em alvos.’’ ‘‘ O homem é indestrutível
e inviável.’’


Carlos Moura
Na oficina da 708/9 Norte que leva seu nome, Perdiz ajudou a consolidar a produção teatral da cidade, mas passa por dificuldades: "Estou falido e não tenho para onde ir."
Conserto cultural

O mecânico que transformou a oficina em palco e no endereço da própria família passa por dificuldades O carpinteiro e mecânico José Perdiz, 70 anos, não só ajustou o ambiente de trabalho à atividade cultural como ainda arranjou espaço para acomodar a família na oficina mecânica da 708/9 Norte. Há 14 anos, dos 38 de existência, a Oficina do Perdiz, à noite, serve de palco para apresentações culturais. Mas nem a tradição deu conta de resolver a ameaça crônica de derrubada do espaço ocupado sem a devida regularização.

  Em meio a ameaças e propostas de compra da oficina, Perdiz persiste. ‘‘No fim, continuo aqui. Também não tenho para onde ir. Estou falido e, com o serviço que tem, mal dá para se alimentar. Tenho que cuidar daqui porque eles (os artistas) realmente precisam deste palco’’, enfatiza.

  Morador de Brasília antes mesmo da inauguração, Perdiz diz que é de um tempo em que não se ouvia falar em roubo. ‘‘Todo mundo trabalhava, todos tinham dinheiro’’. Agora, mora no ambiente de trabalho, para ficar mais seguro. Dar caráter definitivo de casa de cultura à oficina é uma luta antiga. Na verdade ‘‘é um desejo’’, corrige Perdiz. ‘‘Já não tenho condições de luta. Sou lutador que não pode entrar no ringue: apanho, pela minha idade e pela falta de condições econômicas’’, justifica.

  Sem a vitalidade que impulsionou a criação da oficina, quando ele se viu desempregado, o mecânico sonha com a aposentadoria —, mesmo que espere rendimento de salário mínimo. ‘‘Dei minha força de trabalho, sempre pensando na grandiosidade do Brasil, numa capital à altura das nossas necessidades’’, comenta.

  ‘‘Quando cheguei a Brasília, me encantei pela enormidade do espaço e pela exuberância do cerrado. Era um cerrado magnífico’’, relembra. Naquela época, a jornada de trabalho chegava a 18 horas, pelas suas contas. ‘‘Isso aqui era uma coisa linda! Parecia música nas madrugadas: lá do Núcleo Bandeirante, você escutava o repicar dos vibradores, vibrando nos concretos para se ajeitar nas formas’’, conta.

  Antes de chegar ao Plano Piloto, Perdiz morou no Núcleo Bandeirante e em Taguatinga — ‘‘quando era um quinto do que é hoje’’, observa. Brasília surgiu como opção de vida, depois da desilusão com o regime de comunismo proposto pelo partido do qual foi atuante, em Minas Gerais.

  Recém-chegado à capital, Perdiz trabalhou numa firma de revenda de materiais de construção e consertava máquinas como betoneiras e vibradores. ‘‘Às vezes, era arrancado de madrugada, debaixo de chuva, para consertar as coisas’’, comenta. Na zona boêmia do Núcleo Bandeirante, viveu momento único da profissão: consertou uma interminável fileira de camas usadas em prostituição.

  Com um público modesto de mil pessoas — se comparado aos estimados 7,5 mil pagantes que acompanharam Bella Ciao (1991/92) —, há meio ano, Perdiz reencontrou um pouco de sua história de vida no espaço da própria casa, com a encenação de José, e Agora? (de Marcos Pacheco). A peça, que registra momentos desde a montagem de Esperando Godot, está entre as atrações destacadas para a revitalização do espaço durante este ano.

  Ainda que distante dos tempos em que Bella Ciao atraía público para dois espetáculos na mesma noite, e transformava a cozinha do espaço num cenário de festa (até para o público), José Perdiz ainda cultiva alegrias. A mais nova atende pelo nome de Júlia, sua filha de sete anos. Outro motivo de felicidade trata da perspectiva do aniversário da cidade: ‘‘Vou estar satisfeito se for comemorado homenageando o braço do trabalhador brasileiro, que foi quem fez Brasília’’, explica.
Palco de todos

  ‘‘Brasília é um lugar que vai te dar uma pernada de alguma forma. Não pense que é tão fácil viver aqui — a energia da cidade é uma coisa de louco’’. Pode parecer conversa de bicho-grilo, mas na boca da diretora e atriz teatral Tereza Padilha, 47 anos, a frase ganha novos contornos. Ela fala com o conhecimento de causa da ‘‘alienada’’ que chegou à cidade em 1972 e galgou a maturidade nas ruas e, particularmente, dentro da própria casa, fixada na 707 Norte. Foi lá que — levada pela profunda dor da perda do filho Tiago — mergulhou na arte do teatro. A mesma busca, que rendeu a construção de um palco dentro de casa, acabou expulsando-a da residência: atualmente é vizinha do teatro de sua propriedade, o Mapa’Ti.

  O teatro floresceu na casa de Tereza como um símbolo para a perpetuação da maternidade. ‘‘Queria ser a mãe de todos, pela necessidade de buscar o meu filho dentro de cada criança. A minha casa cheia, com crianças representando, era uma coisa que me fascinava’’, explica.

  A criação do teatro, há 12 anos, sacudiu a animosidade da vizinhança, por uma série de preconceitos. Vencida a resistência, e com a casa no chão, Tereza optou pelo estabelecimento do teatro no subsolo. Com as reformas ainda em andamento, a platéia deu sinal de vida. ‘‘O chão era de terra mas o público vinha, e ainda pagava! Foi um momento bonito, de muita criação. Produzi dentro do que não tinha’’, relembra a diretora.

  Depois de uma avaliação criteriosa, Tereza Padilha não esconde a alegria de ter, literalmente, aberto a porta da sua casa à infância brasiliense: ‘‘As crianças (agora crescidas), que foram alunas no passado, estão trazendo os filhos e sobrinhos para cá. Isto me deixa muito feliz e prova quanto valeu à pena criar o Mapa’Ti’’, arremata.
(Ricardo Daehn)