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PRESENTE, PASSADO E FUTURO
"(...) E fico a imaginar o setor cultural já realizado. De um lado, o museu com a sua cúpula enorme de concreto, o salão de exposições, os mezaninos se entrelaçando harmoniosamente, sem esconderem a cúpula imensa, bonita como um grande céu iluminado (...)"
Oscar Niemeyer
especial para o Correio
Pedem-me falar de Brasília, e acho justo justo e necessário
que o novo governo e seus ministros saibam como tudo começou e como
até hoje, já construída, ela vai evoluindo.
Para mim Brasilia se iniciou com Pampulha, muitos anos atrás.
E vale a pena lembrar por que de Brasília participei.
O ministro Gustavo Capanema tinha incumbido o arquiteto Carlos Leão
de cuidar do projeto da Universidade do Rio. E Leão me chamou: Queria
que você colaborasse nesse trabalho, a começar pelo projeto do hospital.
Se o Souza Campos (era quem dirigia o empreendimento) perguntar o que está
desenhando, não diga que é um hospital. Ele é médico,
e, não sei por que, acha que todo hospital tem de ter a forma de um Y.
Já iniciava meus desenhos quando ele apareceu: O que está
desenhando? perguntou. Sem querer mentir, respondi: Estou
desenhando um hospital, mas não em Y, como o senhor prefere.
Discutimos, nos separaram, disse-lhe o que tinha a dizer e pedi demissão.
Capanema não aceitou a minha demissão, convocando-me para o seu
gabinete. E lá fiquei, em contato com o Leal, o Drummond, o Massot e o
Cruz, atendendo Capanema nos assuntos ligados à arquitetura.
Lembro-me das pequenas tarefas que realizava, como o grande palanque
construído no estádio do Vasco da Gama para o festival do Villa-Lobos.
Capanema gostava de mim, e ficamos amigos pela vida toda. Um dia, o Governador
de Minas Gerais Benedito Valadares pensou construir um assino no Acaba Mundo,
e Capanema me indicou para esse projeto. Conheci Valadares e, com ele, JK, candidato
a Prefeito de Belo Horizonte, que, eleito, logo me convocou: Niemeyer
disse-me ele no primeiro encontro , não vou construir apenas
o cassino, mas um bairro, o bairro mais bonito do muno, na represa da Pampulha,
aqui em Belo Horizonte. Vai ter um cassino, uma igreja, um clube e uma casa de
chá. E mais categórico: Preciso do projeto
do cassino para amanhã. Eu o atendi e, trabalhando a noite
inteira no hotel onde estava, entreguei o projeto no dia seguinte, como havia
prometido.
Pampulha foi a primeira obra pública de JK, o primeiro projeto
de vulto que elaborei e a primeira obra que Marco Paulo Rabello acompanhou como
engenheiro. E Pampulha começou. A mesma correria, os mesmos problemas,
as mesmas esperanças, o mesmo entusiasmo com que Brasília foi construída
vinte anos mais tarde. Era a minha arquitetura que se iniciava, leve, vazada,
cheia de curvas, como o concreto armado sugere.
Recordo JK a nos convidar, altas horas da noite, para de barco vermos
os prédios se refletindo nas águas da represa. Que entusiasmo! Para
mim o êxito da arquitetura de Pampulha influiu na determinação
com que JK resolveu construir Brasília tempos depois. E eu passei a ser
seu arquiteto predileto.
Com a mesma decisão com que me convocou para projetar Pampulha,
o Presidente me procurou na minha casa das Canoas: Niemeyer, construimos
Pampulha. Agora é a vez de Brasília, a capital do nosso país.
Acompanhei JK na primeira viagem ao local. Longe, longe demais, sem
estradas, sem meios de comunicação. Terra vazia e abandonada. Mas
o seu entusiasmo prevaleceu, a todos contagiando.
A presença do Presidente era imprescindível para o início
dos trabalhos, e a construção de uma pequena casa onde ele pudesse
passar os fins de semana surgiu como solução indispensável.
Lembro a reunião que teve num bar da Cinelândia com o
engenheiro Juca Chaves, o piloto Milton Prates e outros amigos de JK. A promissória
que assinei e, descontada num banco, permitiu realizar as obras do Catetinho.
Uma casinha de madeira sobre pilotis, uma sala e três quartos, banheiro
e cozinha. Algumas árvores a protegiam. Um pequeno oásis naquele
cerrado sem fim. Embaixo, uma grande mesa onde nos reuníamos e, na árvore
mais alta, pendurada, a caixa dágua que abastecia a casa.
Ali JK passava os fins de semana, discutindo os problemas da construção
de Brasília que se iniciava. Cedo, Bernardo Sayão aparecia de helicóptero
para trazer os suprimentos. Ah, como o Catetinho foi útil na construção
de Brasília!
Vamos construir o Alvorada disse-nos
um dia JK. O Plano Piloto ainda não fora apresentado. E lá fui eu,
com Israel Pinheiro, o capim a nos bater nos joelhos, à procura do local
mais adequado.
Brasília se iniciava. Foi aberto o concurso do Plano Piloto
e escolhido o projeto de Lúcio Costa. A cidade a se estender à volta
do lago, onde a simplicidade das áreas residenciais e a monumentalidade
que uma capital exigia estavam presentes, como ele tão bem soube imaginar.
E até o fim caminhamos juntos, de braços dados
ele resolvendo os problemas do urbanismo, e eu os da minha arquitetura.
Conversei com Israel Pinheiro e organizei a minha equipe. Levei comigo
quinze arquitetos, um jornalista, um médico que pouco sabia de medicina
mas que era divertido e dois amigos, desempregados, que achei ser
o momento de ajudar. Não queria só tratar de arquitetura naquele
fim de mundo, mas rir um pouco, falar da vida, que é mais importante que
tudo.
Durante algum tempo trabalhamos, juntos, no edifício-sede do
Ministério de Educação e Saúde, no Rio, e seguimos
depois para Brasília, onde as obras das casas populares estavam sendo concluídas.
Trabalhamos muito, de sol a sol, num barracão coberto de zinco
onde desenhamos todos os palácios da nova capital. Morávamos nas
casas geminadas que construímos; comíamos num restaurante improvisado.
À noite, não raro, íamos para as boates da Cidade-Livre,
onde engenheiros, arquitetos e operários se refaziam do trabalho e daquele
ambiente hostil de lama e poeira que antes desconheciam. Parecia-nos que a vida
estava melhorando, que éramos todos iguais. Uma ilusão que logo
se desvaneceu, com a inauguração da nova capital, o poder do dinheiro
a se impor novamente.
Tinha fechado o meu escritório no Rio e, preocupado com minha
situação, JK me telefonou: Niemeyer, quero que você
projete a sede do Banco do Brasil e a do Banco do Desenvolvimento Econômico,
de acordo com a tabela de honorários do IAB. Disse-lhe que
não podia aceitar, que era um funcionário. Mas como nos agradava
vê-lo interessado nos problemas pessoais de todos que com ele trabalhavam!
Cedo, muito cedo, Israel nos procurava com seu vozeirão. Era
um homem bom; sem ele Brasília não teria sido construída.
E, juntos, seguíamos pelas estradas enlameadas a ver as obras em construção.
Muitas vezes JK aparecia. Queria acompanhar tudo, sentir que seu sonho predileto
se realizava afinal.
E as obras foram concluídas. Era a arquitetura de Pampulha
que de novo surgia, mais audaciosa, inovadora. Como me agrada poder afirmar hoje
aos visitantes: Vocês vão ver os palácios de Brasília,
podem gostar ou não, mas nunca dizer terem visto antes coisa parecida!
Ou Le Corbusier a declarar a Ítalo Campoflorito, ao subir a rampa do Congresso:
Aqui há invenção!.
O tempo correu. Coisas boas e ruins se passaram na nova capital. Não
vou perder tempo em enumerá-las. O mesmo acontece em todas as cidades do
mundo. A densidade demográfica excessiva, o poder imobiliário a
aumentar gabaritos, ou a mediocridade ativa a intervir sem controle no campo da
arquitetura.
A mim o que mais me constrange é sentir como os visitantes
de Brasília caminham, com entusiasmo, da Praça dos Três Poderes
até a Catedral, e aí, diante da terra vazia que se estende até
o viaduto, perguntarem surpresos: O que é isto? Por que este
espaço vazio e abandonado? E isso explica por que os que como
eu viveram aqueles velhos tempos de Brasília sentem-se hoje obrigados a
apoiar o governador Roriz, ao vê-lo tomar todas as providências necessárias
para a construção do museu e da biblioteca previstos no setor cultural.
E agora, para tranqüilidade nossa, é o Presidente Lula a me declarar
convicto: Vou construir o museu.
E fico a imaginar o setor cultural já realizado. De um lado,
o museu com a sua cúpula enorme de concreto, o salão de exposições,
os mezaninos se entrelaçando harmoniosamente, sem esconderem a cúpula
imensa, bonita como um grande céu iluminado. E depois a praça, a
biblioteca os jovens de Brasília contentes de conhecerem o presente,
o passado e o futuro deste estranho mundo. Do outro lado, o grande salão
musical a revelar a riqueza da música popular do nosso país, e a
seguir os cinemas e o planetário.
É claro que Brasília tem problemas a densidade
excessiva que um apoio mais efetivo às cidades-satélites reduziria,
a falta dos estacionamentos projetados que, construídos, eliminariam o
problema dos carros a esconderem a arquitetura dos principais palácios
da cidade, a ameaça constante às áreas livres que o Plano
Piloto fixou, e essa audácia, essa falta de ética com que se propõem
aumentos de gabaritos e outras modificações nos prédios existentes,
impossíveis de aceitar.
Releio este texto, elaborado às pressas, eu mais preocupado
com este mundo em que vivemos e que o imperialismo norte-americano degrada, a
massacrar o povo desprotegido do Iraque, sem nenhum respeito pelo que lá
existe da memória dos homens. É claro que nos conforta a política
externa que o atual governo brasileiro adota, nacionalista, certo de que é
o momento de se unir esta América Latina tão ameaçada e ofendida.
Oscar Niemeyer é arquiteto
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