núcleo bandeirante
LIBERDADE PARA CRESCER
Lugar de desembarque de muitos brasileiros na capital, antiga Cidade Livre se expande mas mantém clima de interior
| Acácio Pinheiro |
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A paraibana Ester Azevedo chegou ao Núcleo Bandeirante de pau-de-arara: símbolo de resistência
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Era 1958. Um mundo despertava no cerrado, ressoante de
sons metálicos e estuante de energia humana, nas palavras do
presidente JK. Novas esperanças tomavam conta de homens e mulheres que
chegavam ao Planalto. A paraibana Ester Barbosa de Azevedo, 80 anos, estava entre
esses desbravadores. Saiu do Nordeste com três cruzeiros, deixando três
filhos para trás que seriam buscados no ano seguinte. Tinha
poeira para todo lado, recorda.
Poeira e lama, quando chovia. Essas são as imagens mais marcantes
na memória da pioneira, quando fala sobre a Cidade Livre, local onde desembarcou
do pau-de-arara que a trouxe do norte em 12 dias. Ela conseguiu emprego de cozinheira
e servente num bar. Depois arrumou outro na Metropolitana, na casa de um engenheiro.
Trabalhou ainda no restaurante Oásis do Leão e no Grande Hotel.
Ao sair do hotel, teve um boteco e, em seguida, um restaurante.
Ester trabalhava na Avenida Central e morava na 3ªAvenida. Aluguei
um barraco. Não tinha água nem luz. Só os hotéis tinham
gerador. Um caminhão pipa trazia a água ou eu ia buscar com lata
na cabeça. Banho era de água fria e em barraco cheio de brecha.
E era um tal de barraco pegar fogo porque a gente usava lampião com querosene,
lembra a pioneira.
Desses tempos, apenas a disposição das avenidas do Núcleo
Bandeirante continua a mesma (das cinco avenidas, apenas a quinta que era
uma invasão até 1960 desapareceu). Poucos barracos da época
permanecem de pé: a Igreja Nossa Senhora Aparecida, conhecida como igrejinha
da Metropolitana, ainda em funcionamento; o HJKO, primeiro hospital de Brasília,
agora Museu Histórico; o Centro de Ensino da Metropolitana e o Toy Clube
de Brasília, clube recreativo onde os homens jogavam e bebiam.
Todos esses prédios estão cercados de asfalto, meio-fio
e calçadas. Paisagem diferente daquele chão que, em dias de chuva,
transformava-se em lamaçal. O Bandeirante surgiu no final de 1956, quando
chegavam os primeiros candangos, e deveria acabar quatro anos depois. Enquanto
existisse, abrigaria hotéis, bares, restaurantes, cinema, feiras, mercados
e até escolas. O governo de Juscelino Kubitschek incentivava a quem quisesse
trabalhar e montar negócio na área. Por isso não cobrava
taxa alguma por lotes aos interessados. Livre de quaisquer encargos fiscais, recebeu
o nome de Cidade Livre.
Quando o lugar estava prestes a desaparecer, seus moradores realizaram
o Movimento Pró-Fixação e Urbanização do local.
No dia 14 de dezembro de 1961, foi sancionada a Lei nº 4.020 que fixou o
núcleo e deu a ele o nome de Núcleo Bandeirante (a data marca o
aniversário da cidade). Dois anos antes, muitos moradores e comerciantes
haviam se mudado para Asa Norte, Taguatinga e Gama. Outros ficaram. A
Cidade Livre foi a cidade-mãe, compara o advogado e empresário
Linaldo de Araújo Persiano, 65, desde 1959 na cidade. É
uma pena que quase nada tenha restado do Bandeirante antigo.
Atualmente, os moradores da cidade continuam prestigiando o comércio
local e ainda andam a pé pelas ruas do lugar. O Núcleo Bandeirante
expandiu-se e ganhou muitas áreas, aglutinadas na mesma região administrativa.
Tem hoje cerca de 36 mil habitantes. Com a evolução, os problemas
surgiram. Mas a tranqüilidade típica do interior ainda é sua
principal característica. Tanto a Feira Permanente como o Mercadão
ajudam a manter a tradição dos mercados, lançada na época
em que era conhecida como Cidade Livre.
(Marcelo Rocha)
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