Superquadras
HISTÓRIAS QUE OS LIVROS NÃO CONTAM


Primeiros moradores das mais antigas superquadras das Asas Sul e Norte narram as lembranças mais marcantes do passado

Rovênia Amorim
da equipe do Correio

Daniel Ferreira
Mario Cezar Sampaio e João Carlos Fernandes passaram a infância entre os blocos de três andares das 404, uma das mais antigas quadras da Asa Norte
 Brasília é uma cidade que vai muito além dos seus inventores, construtores e tudo aquilo que já foi escrito nos livros. Em cada superquadra da capital, desenhada pelo urbanista Lucio Costa, escondem-se histórias de pessoas apaixonadas pela cidade. Migrantes que vieram de cada canto desse Brasil e se encantaram com Brasília, com a qualidade de vida que testemunharam nascer em meio à poeira do cerrado e à descrença de tanta gente que desmerecia o futuro da nova capital.

  No ano em que Brasília completa 43 anos, o Correio visitou algumas das primeiras quadras do Plano Piloto. Em todas elas, ainda é possível esbarrar em lembranças de moradores; preciosidades do dia-a-dia de pessoas que viveram a construção da nova capital após a festa da inauguração — em 21 de abril de 1960 — ou de gente, que chegou bem depois, mas também descobriu a história do lugar, como o gaúcho Rubens Munhoz, inquilino do mesmo apartamento que abrigou Tancredo Neves.


Acácio Pinheiro
Antônio Augusto de Lima e a mulher, Geralda Oton: saudade de um "tempo divertido"
O roubo do bolo na 404 Norte

 Os dois não moram mais na quadra, mas quando passam por lá lembram a infância boa que ficou no passado. Os servidores públicos Mário César Sampaio e João Carlos Ferreira Fernandes, ambos com 47 anos, foram criados na 404 Norte, uma das mais antigas quadras da Asa Norte. No começo da década de 60, os 64 blocos de três andares da quadras 403, 404, 405 e 406 foram os primeiros a ficar prontos. A diversão dos dois era como a da meninada das cidades do interior: soltar pipa, jogar bolinha de gude, construir carrinho de rolimã.

  Mas muita travessura só deu para fazer porque eles foram criados em Brasília. Como aprender a nadar no Lago Paranoá. Era tarefa só para eles, meninos sem juízo. Iam a pé, atravessavam o cerrado que naquela época ainda tinha árvores repletas de caju e maracujá. Eles arrancavam as frutas e matavam a fome, a sede e aquele impulso nato quando se é menino. Na beira do lago, tinha sempre uma ou outra tábua, dessas que os operários usavam na construção dos barracões espalhados pela cidade. Virava a canoa deles.

  ‘‘Dois remavam e três tiravam a água com lata de Nescau para o barco não afundar’’, conta João Carlos, hoje funcionário público. A dupla aprontava e se vingava quando não era convidada para as festinhas de aniversário. Eles combinavam um blecaute — desligavam a chave da caixa de força do prédio — e aproveitavam o alvoroço para subir as escadas até o apartamento da festa e roubar o bolo do aniversário. ‘‘Era um barato’’, confessa Mário, bancário. E não havia limites para a meninada. Eles insistiam em jogar bola na grama. Nenhum queria a pelada no campinho de poeira, perto dali.

  Os fiscais da Novacap, apelidados de graminhas, vinham bravos, cara feia, e rasgavam todas as bolas com canivete. Mas Mário sempre tinha dinheiro para comprar outra. A única padaria ficava longe da quadra, na 703 Norte, e ele fez um trato com o dono, que revenderia os pães e o leite em garrafa para os moradores da quadra. Toda manhã, antes de ir para a escola, ele esperava debaixo do bloco a kombi que fazia a entrega.

  Hoje, quando passeiam pela quadra, lamentam as mudanças nos pilotis, as janelas que não existiam nas laterais dos prédios e a falta de crianças nos espaços livres. ‘‘Na nossa época, os prédios não tinham letras. Eram numerados, do um ao 64. E a meninada podia brincar despreocupada porque não havia bandidagem’’, recorda João Carlos.
o apito da janela,

Na 308 sul, era o aviso

  Ela guarda até a data: 12 de março de 1962. Nesse dia, mês e ano, Geralda Oton de Lima, o marido Antônio Augusto de Lima e dez filhos chegaram a Brasília. Estela, a caçula da família, nasceu pouco tempo depois. Antônio, gerente do Banco do Brasil, vinha transferido de Jacobina (BA) para a agência central da nova capital. Enquanto os apartamentos que seriam destinados aos funcionários do Banco do Brasil não ficavam prontos, a família ficou hospedada no alojamento de madeira, chamados de lâminas, na 303 Sul, depois demolido para a construção da quadra.

  ‘‘Era um tempo divertido’’, conta Geralda, 80 anos, lembrando o começo da vida no apartamento no primeiro andar da 308 Sul. Os dois filhos mais velhos, Arino e Marta, já estavam na universidade, mas os mais novos desciam todos os dias para brincar na área verde e nas obras da superquadra. Quando subiam, as calças estavam vermelhas de terra. ‘‘Eles perdiam sempre os sapatinhos nos buracos das obras’’, lembra a mãe, que estabeleceu um código para juntar a meninada na hora do almoço. Ela chegava à janela e apitava. Era o aviso.

  Depois de 41 anos na mesma quadra, o casal criou hábitos. Desde que se aposentou, Antônio Augusto começou a explorar a quadra onde mora. De manhã, costuma ir a um dos dois supermercados do comércio local. Compra leite, pão, o que mais falta em casa e até a laranja-lima que a bisneta Maria Eduarda, de um ano e meio, tanto gosta. Seis dos 11 filhos deles moram na mesma quadra, perto dos pais.

  A agitada Geralda acorda cedo e anda a pé até o Clube Unidade de Vizinhança da 109 Sul. Nada às 6h30 e depois completa a atividade física com a série de musculação. Domingo e pelo menos duas vezes por semana participa da missa na Igrejinha, em forma de chapéu de freira, que a ex-primeira dama Sarah Kubitschek mandou construir pela graça da cura da filha Maristela. ‘‘Se a gente não comportar aqui embaixo, São Pedro não abre as portas lá em cima’’, ensina.

Jose Varella
Madeleine El Nakle e a filha mais velha, Suely: orgulho de viver no primeiro bloco finalizado na cidade, em junho de 1959
Na 106 Sul, um bloco mais velho do que a cidade

  Em 1959, o soldador Herfeld de Roure veio de vez, com a família, para a Cidade Livre. Amigo do engenheiro Bernardo Sayão, ele era um dos encarregados de montar as ferragens das estruturas das pontes da nova capital. A viagem da mudança demorou oito dias de Goiânia para Brasília. O caminhão carregado com os equipamentos e os móveis para montar a primeira oficina mecânica na nova capital atolava toda hora na lama da estrada.

  Uma época difícil que a mulher de Herfeld soube entender. ‘‘O Bernardo Sayão era um entusiasmado. Batia cedo na porta da nossa casa lá, em Goiânia, para levar meu marido de carona até Brasília. Ele levava até o pão para o café que tomavam no caminho’’, lembra Madeleine El Nakle, hoje com 77 anos.

  A saga do soldador durou até o ano da inauguração da capital. Madeleine tinha pavor dos incêndios nas casas de madeira, tão comuns naquela época. Em dezembro de 1960, o casal e os três filhos — entre eles, o atual deputado Wasny de Roure — partem para a capital goiana. Em 1975, o soldador decide que é hora de voltar. E insiste em morar no primeiro bloco de apartamentos de Brasília.

  ‘‘Ele queria morar no local que era um marco da história’’, explica Madeleine. E conseguiu. O apartamento escolhido fica no segundo andar do bloco D da 106 Sul, que é mais velho que a própria cidade. Na parede externa do prédio, uma placa marca a data em que o prédio ficou pronto: 20 de junho de 1959. Obra da construtora Kosmos Engenharia, o bloco era destinado aos servidores públicos do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Comerciários (IAPC).

  Hoje, a história do primeiro prédio de Brasília, inaugurado com a presenção do presidente Juscelino, é esquecida pelos brasilienses. ‘‘Mas para a nossa família sempre foi um privilégio morar numa cidade que é Patrimônio da Humanidade e motivo de mais orgulho ainda viver no primeiro prédio que ficou pronto em Brasília’’, conta a professora de História aposentada Suely Nakle, 56, filha mais velha de Madeleina e a prefeita que zela pela preservação da quadra.

Daniel Ferreira
Maria Amélia e o marido, Antônio Rafael acham a 308 Sul "o máximo". "É bonita e chiquérrima", acredita a mineira
Morar na 308 Sul é melhor que ter uma casa no Lago

  Maria Amélia Simonini e o marido Antônio Rafael Teixeira Filho moram na 308 Sul. Ele, agrônomo, hoje com 63 anos, veio para Brasília em 1973, emprestado pela Universidade Federal de Viçosa por seis meses, com a missão de ajudar na estruturação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Acabou ficando por aqui. Os seis filhos cresceram, brincando na área verde da superquadra. Na frente do bloco dela, o paisagismo é de autoria de Burle Marx. As paredes dos prédios são cobertas pela arte das figuras geométricas dos azulejos de Athos Bulcão.

  ‘‘Essa quadra para mim é o máximo. Tem tudo e é bonita e chiquérrima’’, elogia a mineira Maria Amélia, avessa a fotos e a revelar a idade. ‘‘Tenho o suficiente’’, afirma. Donos de uma casa na nobre região do Lago Sul, a família prefere morar no apartamento. ‘‘Aqui, na superquadra, resolvo tudo a pé, sem estresse. Tenho um comércio perto e um clube praticamente no meu quintal. Vou de roupão e short até lá, fazer minha hidroginástica’’, explica Maria Amélia. O clube é o Unidade de Vizinhança da 109 Sul, o primeiro dos dois únicos construídos na capital.

  Pelo plano do urbanista Lucio Costa, haveria um desses clubes a cada conjunto de quatro superquadras. Os moradores das quadras 108, 109, 308 e 307 Sul foram privilegiados. Além do clube, eles contam com escola-parque (onde as crianças praticam esporte e atividades artísticas, como teatro e artes plásticas), um comércio local, com farmácia, padaria e supermercado e equipamentos públicos, como um posto dos Correios. ‘‘Era uma idéia de Lucio para toda Brasília e que eu não troco por nenhum outro local. Aqui não preciso nem de carro’’, garante a moradora.

Acácio Pinheiro
O gaúcho Rubens Munhoz toma conta do apartamento reformado de 254 m²: pedidos de visitas
Na 206 Sul, o inquilino anterior foi Tancredo

  Além das quadras tradicionais, apartamentos antigos que já abrigaram políticos famosos também despertam a curiosidade de muita gente. O gaúcho Rubens Munhoz, 40 anos, sabe bem o que é isso. Há dois meses, ele toma conta do apartamento que a ex-deputada mineira Maria Elvira Talles (PMDB) alugou do professor universitário aposentado João Bosco Ribeiro, 62. No apartamento 501 do Bloco J da 206 Sul morou, por pouco mais de um ano, o candidato a presidente Tancredo Neves.

  ‘‘Todo mundo pergunta como é o apartamento e alguns pedem para visitar a Maria Elvira só para conhecê-lo’’, afirma Rubens. A curiosidade não desaparece nem quando ele explica que o apartamento de 254 m² foi reformado e não guarda sequer um objeto que tenha pertencido a Tancredo. ‘‘Historicamente é um lugar importante. Quando morava lá ficava imaginando quantas coisas foram arquitetadas lá dentro’’, lembra o empresário César Gonçalves, que ocupou o apartamento depois da morte de Tancredo Neves.

  O político mineiro alugou o apartamento pouco antes da campanha para a Presidência, em 1985. ‘‘Foi muito frustrante saber da morte de Tancredo. Ele era meu inquilino e meu candidato a presidente’’, revela o professor João Bosco. Tancredo Neves foi eleito presidente pelo voto indireto. Ele recebeu 480 votos, contra 180 de Paulo Maluf. Mas na véspera da posse, precisou ser internado às pressas com graves problemas no aparelho digestivo. O político mineiro de São João Del Rey, que lutou pelas Diretas Já, morreu no dia 21 de abril, depois de 39 dias hospitalizado e sete cirurgias.

  Como o apartamento da 206 Sul, há outros famosos. Um deles é o apartamento 603, que ocupa todo o último andar do bloco A da 208 Sul. Ele foi projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer para hospedar o presidente Juscelino Kubitschek, quando deixasse o poder. Era o maior de Brasília na época. Ele morou ali de 1962 a junho de 1964, quando teve o mandato de senador por Goiás cassado pelos militares.



Como nasceram os blocos

Para construir os prédios residenciais, destinados aos funcionários que seriam transferidos, o presidente Juscelino Kubitschek destinou terrenos a seis institutos de previdência social da época. Seriam construídas as seguintes quadras: 206 a 208 Sul, 108/308 Sul, 107/307 Sul, 106/306 Sul, 105/305 Sul e 205 Sul.

Em 1957, os institutos montaram os acampamentos, mas as quadras não se distiguiam porque o cerrado era denso e contínuo. Em razão disso, até o final de 1959, ninguém conhecia ou chegava a uma quadra da Asa Sul por seu número correspondente, mas pelo nome do instituto que o construía.
— O Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado (Ipase) foi o primeira a construir as fundações de um prédio no Plano Piloto — o bloco 9 (atual C), da 208 Sul. Havia uma corrida entre os vários IAPs da época para a conclusão dos primeiros prédios da nova capital.

O IAP (Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários) foi o primeiro a completar um apartamento, com todas as louças sanitárias, torneiras e luminárias. Era uma apartamento de primeiro andar, num bloco que nem chegara ao sexto pavimento. Mas o prêmio pelo apartamento estar completo, pintado e decorado foi uma visita do presidente JK.

O IAPC (Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Comerciários) foi, no entanto, o primeiro a entregar, em junho de 1959, o primeiro bloco totalmente concluído — era o 10 (atual D), da 106 Sul.