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UMA MULHER BRASILEIRA: SEU NOME É BRASÍLIA


Frei Betto
especial para o Correio

Conheci Brasília em 1962, no Congresso da Ubes (União Brasileira de Estudantes Secundaristas), quando ainda era chamada de Novacap e se resumia a um canteiro de obras. Fiquei hospedado num hotel que mais parecia cenário de faroeste.

  Em anos seguintes, vim a Brasília espaçadamente. Nunca por mais de três dias e, quase sempre, para participar de algum evento. A cidade me parecia muito estranha com suas construções monumentais, avenidas largas, prédios de costas para as ruas. Intrigava-me a falta de esquinas onde parar e bater um papo com os amigos, a dificuldade de movimentar-se como pedestre, sobretudo na hora de cruzar as principais vias públicas.

  Parecia-me espantosa a concepção de uma cidade cujo desenho urbanístico demarca a divisão de classes sociais: setor bancário, área de mansões, apartamentos funcionais do governo federal etc., como se o endereço da família identificasse sua condição social e posição na hierarquia do poder.

  Aos amigos de Brasília, que se esforçavam para derrubar meu preconceito, eu dizia: ‘‘Se Brasília fosse boa, Niemeyer moraria aqui’’. Assustavam-me as notícias de que o clima seco obriga as crianças a dormirem com toalhas molhadas no quarto; a porta do melhor hospital era a do aeroporto; a revoada para fora da cidade, nos fins de semana, dos mais abastados. Brasília me parecia uma gigantesca maquete colocada sobre o vazio de um deserto.

  A vitória de Lula trouxe-me para Brasília, nomeado seu Assessor Especial, destacado para a mobilização social do Programa Fome Zero. Vim de mala e cuia, instalei-me num hotel confortável porém sem luxo, trouxe meu carro sedã. Passados três meses, a proximidade faz-me enamorar da capital federal. Para quem deixou, depois de décadas, a Paulicéia desvairada, viver aqui e livrar-se da pressão compulsiva do tempo e da maratona cotidiana de cobrir longas distâncias a passo de tartaruga, asfixiado por engarrafamentos e muita poluição, é um bálsamo.

  Aos poucos descubro a cidade e seguro o volante confuso frente ao inusitado sistema de endereçamento. Ainda me custa combinar letras e números, ver-me desprovido de nomes de ruas, perdido entre quadras e conjuntos. Começo a gostar deste espaço dilatado e a me embevecer com a magia luminosa do céu. No entanto, sinto falta do aconchego das ruas apertadas, das casas velhas com jardins fronteiriços, dos bares de esquina onde se toma cafezinho em pé.

  Meu ritmo de trabalho tão intenso ainda não combina com o da cidade, bem mais acanhado. Estou por descobrir seus segredos e caprichos. E conhecer a linha divisória entre os habitantes da Brasília trivial e os hóspedes do poder que, como eu, moram mais como assentados urbanos.

 Talvez eu nunca venha a criar raízes nesta cidade, ao contrário do que me ocorreu em Belo Horizonte, Rio, São Paulo e Vitória. Confesso, porém, que começo a me encantar. Encruzilhada entre energias espirituais difusas e vaidades infladas que parecem não caber em tanto espaco, esta cidade é uma mulher bem brasileira: filha de mineiro com carioca, casada com nordestino, e funcionária pública, Brasília é uma enorme cidade do interior, onde quase tudo se sabe de quase todos.

Frei Betto é escritor, autor de A obra do Artista, uma visão holística do Universo (Ática), entre outras obras.
EM BUSCA DE UM SÍMBOLO

Barbara Freitag
especial para o Correio

 Quase todas as grandes cidades têm um símbolo característico que as distingue inconfundivelmente de outras metrópoles e capitais. Quando falamos de Paris, logo imaginamos a Torre Eiffel, quando nos referimos a Nova York, inevitavelmente pensamos na Estátua da Liberdade, como associamos à cidade do Rio de Janeiro o Cristo Redentor, no Corcovado. Esses símbolos assumem funções metonímicas, ou seja, a parte fala pelo todo. Assim, a imagem do portão de Brandenburgo com seus cavalos alados em bronze está associada a Berlim, a fonte do Menneken piss, o menino pipizeiro, à cidade de Bruxelas, a sereinha, do conto de Andersen, sentada em uma pedra no Mar do Norte, está vinculada a Copenhague. Há outros exemplos como a roda gigante do Prater, em Viena, a Praça San Marco, em Veneza, a London Bridge sobre o Tâmisa, na capital do Reino Unido, a Torre de Belém, em Lisboa.

  Esses símbolos das cidades fixam-se no imaginário de todos, especialmente dos turistas que podem não saber nada da história de um país ou de uma cidade mas fazem questão de subir na torre Eiffel, na estátua da Liberdade, no Cristo Redentor, entre outros, para tirar uma foto ou comprar um cartão postal, para poder dizer: ‘‘Estive lá!’’.

  O Guia turístico Michelin especializou-se em descrever roteiros e sublinhar as maiores atrações turísticas do lugar, tomando como ponto de partida o símbolo da cidade. O guia ainda sugere outras atrações. Assim, recomenda para o Rio visitar o Corcovado mas também o Pão de Açúcar, em Paris além da torre, o Arco do Triunfo e a Pirâmide do Louvre; e, em Berlim, depois do portão de Brandenburgo, a torre de televisão, construída pelo regime socialista, e o Reichstag, restaurado depois da reunificação.

  E Brasília? Qual seria sua ‘‘marca registrada’’? Qual, seu símbolo inconfundível? Qual a obra que representa a cidade? Seria o Memorial JK, homenageando o presidente fundador da nova capital? Seria o Panteão da Pátria Tancredo Neves, edificado para homenagear os defensores da liberdade e da democracia ? Ou seria a Catedral, que lembra a coroa de Cristo ou mãos erguidas ao céu, clamando perdão a Deus? Se fizéssemos hoje uma pesquisa de opinião entre os moradores de Brasília, certamente ouviríamos essas e outras sugestões como o Palácio da Alvorada, o mastro da bandeira, o Catetinho.

  Para os fundadores, não havia dúvidas: o símbolo de Brasília era a Praça dos Três Poderes, uma homenagem à República brasileira. Os arquitetos destacaram aqui o poder legislativo, com o Congresso Nacional, o poder executivo com o Palácio do Planalto e o poder judiciário, com o Palácio do Supremo Tribunal Federal, ornado com a escultura Justiça, de Alfredo Ceschiatti. Para fugirmos ao risco de cultuar o estatismo no símbolo da Praça é bom lembrar que ela é ao mesmo tempo uma homenagem à idéia republicana enquanto tal, cuja síntese, segundo Montesquieu, é o conceito da separação dos poderes, do qual a Praça é a expressão arquitetônica.
Barbara Freitag é professora pesquisadora da UnB