sem lar
POR UM LUGAR NA CAPITAL


Casa própria ainda é sonho para 440 mil brasilienses. Falta de moradia aflige pessoas de baixa renda e classe média

da redação
Entre o discurso poético e apaixonado dos pioneiros e a realidade dos brasileiros que escolheram Brasília para viver com a família há uma grande distância. A cidade-céu, com ruas largas e quadras residenciais recheadas de verde e espaço para as criança, não está disponível para todos. Só para os que têm renda suficiente para pagar cerca de R$ 2,5 mil por metro quadrado para viver.

  Com 43 anos de história, Brasília produziu um batalhão de 110 mil famílias, cerca de 440 mil pessoas, sem casa própria. Desse total, 95% são pessoas com renda de até dez salários mínimos, incapazes de concorrer com a especulação imobiliária, que eleva o custo dos imóveis e do terreno. Acabam vivendo de aluguel.

  O déficit habitacional da cidade não atinge apenas a parcela mais pobre da população. Em todo o país, 2% das famílias com renda acima de dez salários mínimos não têm casa própria, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No Distrito Federal, esse índice atinge 5% da população e é o segundo maior do país, ficando atrás apenas de Roraima, com 5,9% da população nessa faixa de renda sem casa própria.

  Com uma renda mensal de seis salários mínimos, a balconista Luciléia da Silva Nogueira, 32 anos, desistiu de comprar um imóvel. Moradora de uma quitinete na Asa Norte, Luciléia paga R$ 450 de aluguel, R$ 193 de mensalidade do plano de saúde, e ainda compra remédios todo mês para manter a asma sob controle. Apesar do esforço em manter uma pequena poupança, ela não consegue comprar nem uma quitinete para abandonar o aluguel.

  ‘‘Quero sim uma casa, mas não dá para pagar. Não posso arriscar um financiamento porque não sei se terei emprego amanhã’’, lamenta a mineira de Patos de Minas, que deixou a família na cidade natal e vive em Brasília desde 1989.

  Pelos cálculos do presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil, Márcio Edvandro Machado, Luciléia só conseguiria comprar um imóvel com a ajuda do governo federal. Mesmo assim, teria de deixar a Asa Norte, onde vive e trabalha, e mudar-se para mais de 40 quilômetros de distância. Em Santa Maria ou Samambaia, ela poderia comprar um imóvel de cerca de R$ 20 mil e arcar com prestações de R$ 200. Mudar para uma lugar tão distante, no entanto, está fora dos planos de Luciléia. ‘‘Moro na mesma quadra que trabalho.’’
  
Cooperativas
A renda baixa atrapalha a compra de um imóvel. Em todas as cidades brasileiras existem imóveis vazios à espera de moradores. No DF, o número chega a 53,8 mil. Mesmo assim, Luciléia vai ter de esperar mais. Os planos do governo federal para financiar a compra da casa própria restringem a verba de R$ 5,3 bilhões para famílias com renda de até cinco salários mínimos. O programa, do Ministério das Cidades, pretende beneficiar 359,8 mil famílias. em todo o país. Para o presidente do Sinduscon, 80% das famílias do Distrito Federal sem casa própria se encaixam no programa do governo.

  Enquanto isso, a Secretaria de Habitação do Distrito Federal negocia com a Caixa Econômica Federal a ampliação de recursos para novas unidades habitacionais. O objetivo é beneficiar famílias de baixa renda. Segundo a secretária Ivelise Longhi, 29 mil famílias foram beneficiadas nos últimos quatro anos. No programa Associação Solidária, que incentiva as cooperativas habitacionais, nove mil famílias conseguiram construir suas casas. No programa de lote semi-urbanizado, 20 mil famílias foram atendidas.