
O relacionamento sugar deixou de ser nicho no Brasil. Um setor que já reúne milhões de cadastros se organizou em torno de plataformas próprias, um modelo de receita de marketplace e uma zona jurídica que poucos conhecem de fato. O advogado Rogério Queiroz explica como o segmento funciona por dentro e por que o arranjo se sustenta para os dois lados.
O relacionamento sugar deixou de ser assunto de nicho no Brasil. O que começou como um formato importado, restrito a grandes capitais e a um público muito específico, se transformou em um segmento com plataformas próprias, milhões de usuários cadastrados e uma discussão pública que mistura curiosidade, preconceito e desinformação em doses parecidas.
A plataforma mais antiga do país opera há cerca de dez anos. A Bebaby nasceu em 2021 e, desde então, acumulou mais de 5 milhões de cadastros hoje são aproximadamente 3,2 milhões de perfis femininos e 900 mil masculinos. Números dessa ordem não se sustentam em modismo. Eles indicam que existe uma demanda real de dois lados que não estava sendo atendida pelos aplicativos de relacionamento tradicionais.
Vale entender o que esse setor é de fato, como ele se organiza e por que o arranjo funciona para quem participa.
O que a lei diz e o que ela não diz
Começo pelo ponto que mais gera ruído, porque é o meu ofício.
Não existe no ordenamento jurídico brasileiro qualquer vedação a que dois adultos capazes mantenham um relacionamento em que haja apoio financeiro de um para o outro. Presente entre namorados, mesada, ajuda com aluguel, pagamento de faculdade: nada disso é ilícito. O Código Civil trata de doação nos artigos 538 e seguintes, e a doação entre pessoas capazes é um negócio jurídico perfeitamente válido.
O que o Código Penal criminaliza, no artigo 228, é a conduta de terceiros induzir, atrair, facilitar ou impedir que alguém abandone a prostituição. O artigo 229 pune manter estabelecimento com essa finalidade. A prostituição em si nunca foi crime no Brasil. O que se pune é a exploração por um terceiro.
É por isso que a distinção entre uma plataforma de relacionamento e um serviço de intermediação sexual não é retórica de marketing: é o que separa uma operação legal de um crime. Uma plataforma séria não negocia encontros, não intermedia valores, não estipula preço por programa e não recebe comissão sobre o que dois usuários combinam entre si. Ela conecta pessoas e sai do caminho. Quando a plataforma passa a organizar a transação, o enquadramento muda e muda por completo.
Isso impõe ao setor uma disciplina de termos de uso, moderação e remoção de conteúdo que vai muito além do que se exige de um aplicativo de namoro convencional.
Como o setor se sustenta financeiramente
O modelo de receita do segmento é bastante padronizado e, para quem vem de fora, costuma ser contraintuitivo: o acesso feminino é gratuito e a receita vem quase integralmente de assinaturas masculinas.
A lógica é de marketplace, não de generosidade. Plataformas de relacionamento vivem de liquidez sem gente dos dois lados, não há produto. Como a oferta feminina é o lado escasso na largada, o setor subsidia esse lado para viabilizar o outro. É a mesma mecânica de qualquer marketplace de dois lados, de aplicativo de transporte a delivery.
Na prática, isso significa que o homem paga para ter iniciativa de contato e recursos de conversa, enquanto a mulher se cadastra, cria perfil e responde sem qualquer custo. Uma consequência menos óbvia dessa arquitetura é que ela filtra: quem assina uma mensalidade tende a levar a interação mais a sério do que quem entra de graça e desaparece depois de três mensagens.
O que cada lado está buscando
A caricatura mais comum é a do homem rico e da jovem interesseira. A realidade dos perfis é bem menos cinematográfica.
Do lado feminino, a motivação predominante é previsibilidade. Estudante que precisa fechar a mensalidade da faculdade, profissional em início de carreira dividindo aluguel, mulher que quer acesso a experiências que o salário não cobre. Não é fantasia de mansão é conta que precisa fechar no dia 10, somada ao desejo legítimo de viver melhor.
Do lado masculino, o que aparece com mais frequência é tempo e clareza. Homens entre 40 e 60 anos, em geral com carreira estabelecida, que não querem passar seis meses de sinalizações ambíguas para descobrir se a outra pessoa quer um compromisso, um casamento ou nada. Muitos já foram casados, já têm filhos, e não estão procurando reconstruir uma vida estão procurando companhia com regras combinadas.
Por que o arranjo funciona para os dois lados
O ponto central do modelo e o que explica sua permanência é a transparência sobre expectativas.
A maior parte do sofrimento em relacionamentos convencionais vem de expectativas não ditas. Uma pessoa acha que está construindo algo sério, a outra acha que está se divertindo. Uma espera exclusividade, a outra não. Ninguém combinou nada e ambos supõem coisas diferentes por meses.
No modelo sugar, a conversa que a maioria dos casais evita acontece na primeira semana. O que cada um espera, com que frequência vão se ver, se há exclusividade, qual é o tipo de apoio envolvido, o que acontece se um dos dois quiser encerrar. Combinar isso explicitamente não é frieza é a forma mais honesta de evitar que alguém saia machucado por um mal-entendido que poderia ter sido resolvido com uma conversa.
Há um efeito adicional que costuma passar despercebido: o desequilíbrio de poder em um relacionamento assumidamente assimétrico é mais fácil de discutir do que em um relacionamento que finge ser simétrico. Quando as duas partes reconhecem que há uma diferença de recursos e conversam sobre isso, ela fica administrável. Quando ninguém reconhece, ela opera no escuro e aí, sim, vira problema.
Nada disso significa que o modelo seja adequado para todo mundo, ou que não haja relações ruins dentro dele. Significa apenas que o desenho de expectativas explícitas resolve uma classe de problemas que o namoro tradicional deixa em aberto.
Verificação, responsabilidade e o que ainda falta
O setor tem uma vulnerabilidade conhecida: o golpista de adiantamento. O sujeito se passa por homem de posses, promete transferência e pede que a mulher pague antes uma suposta taxa de liberação. A regra prática é simples e não tem exceção quem vai te pagar não pede dinheiro seu.
Combater isso exige investimento contínuo em verificação de identidade, moderação de conteúdo, retenção de conversas dentro da plataforma e canais efetivos de denúncia. É custo operacional relevante e não gera receita direta. Mas é o que separa um ambiente sustentável de um viveiro de fraude e, em um setor que já carrega estigma, é também o que determina quem sobrevive nos próximos cinco anos.
Falta ainda ao segmento uma discussão pública madura sobre tributação. Doações entre pessoas físicas estão sujeitas ao ITCMD estadual quando ultrapassam os limites de isenção de cada estado, que variam bastante. É um tema que praticamente ninguém no setor aborda com clareza, e deveria.
O que esperar daqui para frente
O relacionamento sugar não é uma anomalia brasileira. É a formalização de um arranjo que sempre existiu, agora com plataforma, regras de uso e alguma responsabilidade sobre quem entra. O que mudou não foi o comportamento foi a infraestrutura.
Para quem quiser entender melhor como o modelo funciona na prática, a plataforma brasileira de relacionamento sugar mantém um material aberto explicando o que é um relacionamento sugar e quais são as combinações mais comuns entre os dois lados.
O setor vai crescer. A pergunta relevante não é se ele deveria existir ele já existe, com milhões de pessoas dentro. É se vai crescer com verificação, transparência e alguma responsabilidade sobre o que acontece na plataforma, ou sem nada disso.
Rogério Queiroz é advogado e cofundador da Bebaby, plataforma brasileira de relacionamento sugar em operação desde 2021.