
O levantamento "From Waste to Wheels - Turning organic waste into renewable fuel for transport", estudo internacional encomendado pelo Instituto MBCBrasil, coloca o país entre os mercados de expansão mais rápida do biometano no mundo, ao lado dos Estados Unidos, China, Índia, Espanha, Irlanda, Áustria e Bélgica. O estudo mapeia o avanço do combustível em cerca de 40 países, que já o utilizam no transporte em quase 30 mercados e o colocam em escala comercial em mais de 12 deles. Do outro lado dessa lista, entre os mercados já consolidados, estão países como Suécia, Alemanha, Itália, França, Holanda, Dinamarca, Finlândia, Suíça, Reino Unido, Noruega e o estado americano da Califórnia, onde 97% do combustível gasoso usado nas estradas já é biometano.
Cada mercado chegou até aqui por um caminho diferente. A Europa soma 1.678 plantas de biometano em operação e mais de 100 mil instalações industriais que podem ser adaptadas para o combustível. A China, com uma malha de gás natural de 260 mil quilômetros, já opera cerca de 40 milhões de biodigestores. Nos Estados Unidos, o levantamento contabilizou 470 projetos de biometano em 2023, enquanto a Índia soma 7,7 milhões de veículos movidos a gás, apoiados em um mercado de gás natural veicular de 7,6 bilhões de m³ por ano. Montadoras já vendem plataformas a CNG e LNG para veículos de passeio, frete, uso municipal e agrícola, e redes de distribuição por caminhão-tanque, os chamados gasodutos virtuais, vêm levando o combustível a regiões sem gasoduto físico.
O ritmo de crescimento também aparece nas projeções para a Europa, que hoje movimenta cerca de 22 bilhões de m³ de biometano por ano. A meta da União Europeia, dentro do plano REPowerEU, é chegar a 35 bilhões de m³ até 2030. O estudo projeta um salto para cerca de 132 bilhões de m³ em 2040, com o setor podendo alcançar entre 181 e 205 bilhões de m³ por ano até 2050.
No Brasil, o cenário combina um recurso ainda pouco explorado com uma indústria que já roda. O país tem hoje 755 plantas de biogás e cerca de 345 usinas sucroenergéticas em operação, mas aproveita menos de 2% do potencial de 41,4 bilhões de m³ por ano estimado só para o setor sucroenergético. Em São Paulo, aponta o estudo, o biometano já é competitivo em relação ao diesel e poderia substituir cerca de 50% do combustível fóssil usado no frete regional. A partir de 2026, o programa instituído pela Lei do Combustível do Futuro estabelece metas de redução das emissões de gases de efeito estufa no mercado de gás natural por meio do incentivo ao biometano. Para o primeiro ano, a meta foi fixada em 0,5%, podendo ser ampliada gradualmente nos anos seguintes, até o limite de 10%.
Uma prova de que esse potencial já saiu do papel está na usina Cocal, em Narandiba (SP), em operação desde 2020. Ali, vinhaça e torta de filtro, resíduos gerados no processamento da cana, alimentam biodigestores verticais capazes de acompanhar em tempo real fatores como pH e temperatura, resultando em uma produção diária de cerca de 50 mil Nm³ de biometano. A planta foi retratada em um inédito documentário editorial, trazendo também o projeto Biorota, que mostra na prática o tipo de conversão de resíduo em combustível que o estudo aponta como caminho para o Brasil destravar seu potencial.
"O estudo mostra que o Brasil não está correndo atrás de uma tendência, está entrando em um movimento que já é realidade em quase 30 países. A diferença é que poucos desses mercados têm a nossa escala de matéria-prima disponível. Estar ao lado dos Estados Unidos, China, Índia e Espanha nessa lista de expansão rápida é um reconhecimento do nosso potencial, mas também um chamado à ação para destravar esse aproveitamento", afirma José Eduardo Luzzi, presidente do Conselho de Administração do Instituto MBCBrasil.
Para a professora Gláucia Mendes Souza, da USP e líder da IEA Bioenergy Task 39, uma das autoras do estudo, olhar os números lado a lado muda a forma como o país costuma discutir o tema. "O biometano não é aposta de um único mercado. Ele já está sendo testado, ampliado e financiado em economias muito diferentes entre si, da Califórnia à Índia. O Brasil entra nesse grupo com uma vantagem que poucos países têm, que é o volume de resíduo agroindustrial disponível, e o caso de São Paulo mostra que essa vantagem já pode virar operação real", afirma a pesquisadora.
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O Instituto?MBCBrasil?é uma organização multissetorial dedicada a acelerar a descarbonização da mobilidade no Brasil. Criado a partir da união de empresas, associações, entidades de pesquisa e trabalhadores, o Instituto tem como missão transformar evidências técnicas em políticas públicas e fomentar soluções sustentáveis de mobilidade.
Sua atuação se concentra em promover uma descarbonização viável, estimular o avanço das tecnologias ligadas à bioeletricidade e conduzir uma transição energética justa. Guiado pela neutralidade tecnológica, incentiva a integração de biocombustíveis, eletrificação e novas fontes renováveis, fortalecendo a competitividade da indústria e impulsionando emprego, renda e inovação, ao mesmo tempo em que posiciona o Brasil como protagonista global da transição energética.??
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