
Na quarta-feira, 26 de agosto, concluiu-se a escavação de um túnel para a conexão das linhas 2-verde e 4-amarela, na região entre as avenidas Consolação e Paulista, na cidade de São Paulo. Foram instalados cerca de 480 sensores e instrumentos de medição a fim de acompanhar construções vizinhas e a movimentação de pessoas, garantindo a segurança do entorno. A finalização dessa etapa representou a conclusão de 78% da obra
A escavação de um túnel próximo a fundações de prédios já existentes é, do ponto de vista técnico, um dos cenários de maior risco em obras de infraestrutura urbana, explica Matheus K. Leite, engenheiro mecânico da Bristol. Segundo ele, "qualquer deslocamento do solo em volta se propaga para a estrutura vizinha na forma de recalque diferencial, empena o piso e, no limite, compromete a estabilidade do prédio."
Andreia Rodrigues, responsável técnica pela atividade, afirmou que o trabalho foi feito sem impactos estruturais na região.
Entretanto, isso é resultado de um roteiro técnico bem definido antes que a execução da obra se inicie. De acordo com Leite, "trabalhos assim começam com uma vistoria cautelar detalhada dos imóveis vizinhos, com investigações geotécnicas que definem como aquele solo específico vai se comportar durante a obra, além de se investigar também desníveis já existentes.”
No caso da interligação entre as estações Consolação e Paulista, o método de escavação utilizado foi o NATM (Novo Método Austríaco de Túneis), que prioriza avanços curtos seguidos do fechamento rápido do revestimento estrutural. Cinco estacas raiz de fundações de edificações vizinhas precisaram ser cortadas para viabilizar a passagem do túnel. Antes de qualquer corte, no entanto, a carga que essas estacas sustentavam foi transferida para outros pontos de apoio, garantindo que os prédios não dependessem mais delas no momento da intervenção. Já os sensores instalados ao longo do trecho monitoraram sete edifícios em tempo real, medindo recalque, deslocamento lateral do solo e vibração.
"Esse cuidado é primordial em obras desse porte, fazendo a diferença entre uma operação segura e um acidente”, afirma Leite. Ele explica que a análise do solo é o ponto de partida para obras que envolvam escavação ou perfuração próxima a estruturas existentes. “Cada tipo de solo se comporta de um jeito diferente sob vibração e remoção de material.” É esse levantamento, segundo ele, que define parâmetros técnicos concretos da obra, como o tipo de perfuratriz mais adequada, a profundidade de sondagem necessária e o raio de influência que precisa ser monitorado.
Além disso, o engenheiro acredita que esse episódio reforça um ponto que o setor de equipamentos para construção civil enfrenta cotidianamente: a escolha dos equipamentos de perfuração e rompimento não pode ser dissociada do contexto ao redor da obra. "Perfuração para sondagem, abertura de furos e demolição controlada em ambiente urbano exigem equipamentos calibrados para o solo e a estrutura em questão. Não existe uma máquina genérica que sirva para qualquer cenário", diz. "A vibração gerada por um rompedor mal dimensionado para a operação, por exemplo, pode causar fissuração em prédios vizinhos a uma obra, por isso a compatibilidade entre equipamento e contexto geotécnico é tão determinante quanto o monitoramento em si."
Com a escavação concluída, a obra entra na fase de acabamento. As próximas etapas incluem a impermeabilização, a aplicação do revestimento definitivo, a concretagem das lajes e a montagem dos sistemas elétricos, hidráulicos e de ventilação. A reurbanização da superfície, com melhorias viárias e paisagísticas na região da Consolação e da Paulista, também faz parte do cronograma.
“Essa etapa terminou sem impacto nas fundações vizinhas graças aos dados técnicos considerados e aos monitoramentos feitos", afirma Leite. "Essa cautela contribui para manter uma obra segura."
Matheus K. Leite é engenheiro mecânico da Bristol, fabricante nacional de equipamentos hidráulicos para perfuração, rompimento e construção civil.