
As transformações tecnológicas e econômicas previstas para os próximos anos estão levando empresas a rever tanto as competências exigidas dos profissionais quanto a forma de liderar equipes e tomar decisões. Segundo o Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, 39% das habilidades atualmente exigidas no mercado de trabalho devem mudar ou se tornar obsoletas até 2030. O levantamento ouviu mais de mil empregadores, que representam mais de 14 milhões de trabalhadores em 55 economias.
Pensamento analítico aparece como uma das competências mais valorizadas, mencionado por 69% dos empregadores. Resiliência, flexibilidade e agilidade vêm logo depois, com 67%, enquanto liderança e influência social são citadas por 61%. Esta última também ganhou importância em relação à edição de 2023 do levantamento.
No Brasil, quase nove em cada dez empresas participantes afirmam que pretendem investir na qualificação de seus profissionais nos próximos cinco anos. Inteligência artificial, big data e letramento tecnológico estão entre as prioridades, mas as empresas também esperam maior demanda por competências humanas, como empatia, escuta ativa, resiliência, flexibilidade, curiosidade e aprendizagem contínua.
Para Renata Campedelli, associada TrendsInnovation e profissional com mais de 30 anos de experiência nos setores financeiro e de serviços, essas mudanças ajudam a colocar em discussão um modelo ainda presente em muitas organizações: aquele em que decisões importantes permanecem concentradas em poucos níveis da hierarquia.
“A horizontalização não significa uma empresa sem liderança ou em que todos decidem tudo coletivamente. O que muda é a concepção de poder. O líder deixa de concentrar todas as respostas e passa a criar as condições para que as pessoas mais próximas dos problemas tenham autonomia para participar das decisões, sempre com responsabilidade, alinhamento estratégico e clareza sobre os objetivos da organização”, afirma Renata.
No capítulo “Liderança e gestão em organizações horizontais – o desafio do poder”, do livro Governança TrendsInnovation, Renata analisa a passagem de estruturas baseadas em comando, controle e decisões centralizadas para modelos mais horizontais ou matriciais, com maior participação das equipes. A autora trata essa mudança como um processo gradual, que não pressupõe abandonar de uma vez as estruturas existentes.
A necessidade de rever a forma de trabalhar também aparece entre as preocupações dos próprios empregadores. Para 63% dos participantes do levantamento do Fórum Econômico Mundial, a falta de competências disponíveis será a principal barreira para a transformação dos negócios entre 2025 e 2030.
Distribuir decisões, porém, não significa apenas conceder mais liberdade às equipes. Para Renata, a autonomia só funciona quando as pessoas também têm acesso às informações necessárias e sabem quais responsabilidades assumem.
“Quando uma empresa descentraliza uma decisão, ela não pode descentralizar apenas o poder e esquecer a responsabilidade. Autonomia precisa vir acompanhada de confiança, informação e compreensão do propósito. Esse talvez seja um dos maiores desafios das organizações horizontais: fazer com que a decisão deixe de depender exclusivamente da hierarquia sem transformar descentralização em falta de direção”, explica.
Uma das ferramentas abordadas pela autora é o chamado processo de aconselhamento. Nesse modelo, quem identifica uma oportunidade pode assumir determinada decisão, desde que consulte profissionais afetados por ela e pessoas que conheçam o assunto. Quem propõe a decisão também responde por sua implementação e pelos resultados, seguindo o princípio de “autonomia com responsabilidade”.
A mudança na distribuição de poder também altera a função dos gestores. Renata trabalha com o conceito de liderança educadora, em que o líder participa do desenvolvimento da equipe, atua como facilitador e mentor e deixa de ter sua função associada exclusivamente ao comando.
Algumas das competências apontadas pelo Fórum Econômico Mundial seguem essa mesma direção. Empatia e escuta ativa, curiosidade e aprendizagem contínua e gestão de talentos estão entre as dez competências centrais dos trabalhadores em 2025. Ensino e mentoria são mencionados por 26% dos empregadores.
A descentralização chega ainda aos conselhos de administração. Na avaliação de Renata, distribuir decisões dentro da companhia não reduz a importância do conselho, mas exige uma atuação menos concentrada no exercício direto do poder e mais voltada à orientação da gestão.
“O conselho não perde importância quando a organização distribui poder. O desafio é usar experiência e conhecimento para aconselhar, provocar a gestão e ajudar a construir um ambiente de confiança, sem assumir automaticamente todas as decisões. Horizontalidade exige uma liderança mais madura justamente porque influenciar passa a ser tão importante quanto controlar”, diz.
No capítulo, Renata atribui aos conselheiros funções de orientação, mentoria e aconselhamento e defende que a descentralização precisa permanecer conectada à estratégia geral da organização.
O tema integra o capítulo 16 do livro Governança TrendsInnovation, que reúne análises de associados da Associação TrendsInnovation sobre mudanças nos modelos de governança e gestão.
Sobre Renata Campedelli
Renata Campedelli possui mais de 30 anos de experiência nos setores financeiro e de serviços. É formada em Administração de Empresas pela EAESP-FGV, possui MBA em Marketing de Negócios pela ESPM e formação em Governança Corporativa TrendsInnovation pela Inova. Ao longo da carreira, atuou em desenvolvimento de produtos, inovação, gerenciamento de projetos, operações, tecnologia e marketing.
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