
Há uma palavra que deixa Ingrid Coutinho desconfortável: especialista. Para ela, especialista é quem tem todas as respostas e seguiu um plano firme desde os vinte e poucos anos. Com ela nunca foi assim. "A história meio torta que passei tanto tempo escondendo é, hoje, a coisa mais valiosa que eu carrego", diz.
A passagem pela Malásia
Ingrid vem de cidade pequena e se formou em engenharia de produção sem saber onde aquilo ia dar. Ainda na faculdade, criou a Estônteco, uma edtech que usava inteligência artificial para ensinar as habilidades do futuro, numa época em que falar de IA fazia muita gente torcer o nariz.
Em 2018, o projeto a levou para a Malásia, onde representou o Brasil no Hult Prize, competição global de empreendedorismo universitário voltada naquele ano à educação. Foi a primeira vez que saiu do país, defendendo uma ideia própria diante do mundo inteiro.
A empresa não vingou. Ingrid voltou sem o negócio de pé e, por muito tempo, essa parte sumiu do currículo. "Eu escondia aquilo como quem esconde um defeito de fabricação", conta.
A escada corporativa deixou de existir?
O modelo de entrar júnior, subir um degrau por vez e se aposentar pela lealdade nunca funcionou na vida de Ingrid, e ela percebeu que também não batia com quase ninguém ao redor. "O que parecia um defeito meu era, no fundo, uma nova forma de jogar o jogo", afirma.
Propósito e carreira?
Por baixo dessa mudança há uma transformação de valores geracional. Na Gen Z and Millennial Survey 2024, da Deloitte, 86% da geração Z apontaram o propósito como critério inegociável na hora de escolher onde trabalhar. Muitos trocaram a cadeira para sempre pela chamada carreira de portfólio, juntando experiências e fontes de renda que nem sempre conversam num primeiro olhar.
Ingrid virou um retrato disso sem plano mestre. Depois da Estônteco, voltou para o corporativo, acumulou bagagem em produto e hoje ocupa a cadeira de Senior Product Manager no Itaú Unibanco, um dos maiores bancos da América Latina.
Assumir o movimento da carreira
A relação de Ingrid com tudo isso virou de lado por volta de 2020, num aperto financeiro que a obrigou a inventar uma saída. Desde 2019 ela já postava no LinkedIn sobre produto, mais para encontrar seus pares do que por audiência. Quando o dinheiro apertou, começou a oferecer mentorias, de graça no início. Foi aí que percebeu que gostava muito daquilo, e ficou evidente um talento que ela nunca tinha nomeado.
“Eu pego a confusão que mora na cabeça das pessoas e devolvo aquilo organizado, em clareza, em próximo passo, na coragem de finalmente fazer“ - Ingrid Coutinho
Autenticidade como única forma de performar
O que sustentou esse caminho não foi fórmula de engajamento, foi quase o oposto. Ingrid funciona melhor quando fala do jeito que é, com bastidores e dúvidas, em vez de uma versão lustrada de si.
“As pessoas não se conectam com perfeição, elas se conectam com verdade, e isso vale tanto para quem te assiste numa rede social quanto para o time que te encara numa reunião de segunda de manhã” - Ingrid Coutinho
Hoje, Ingrid reúne mais de 50 mil seguidores entre Instagram, LinkedIn e TikTok, num público de gente de tecnologia e produto. A autenticidade, que por muito tempo pareceu o caminho mais arriscado, virou sua maior vantagem.
Conectando diferentes mundos e visões
Uma trajetória cheia de desvios permite ligar pontos que quem seguiu uma trilha só nem percebe. No caso de Ingrid, isso aparece na forma como ela equilibra produto e criação de conteúdo. Perguntaram por anos se ela não precisava escolher um dos dois. A experiência mostra o contrário.
"As duas pontas se alimentam o tempo todo", resume. Ela entende mais de produto porque conversa com quem o constrói para o podcast, e leva esse aprendizado de volta para o banco.
Esse vaivém abriu portas que ela jamais teria desenhado num plano de carreira. Ingrid deu aula na FIAP e, em junho de 2026, tornou-se community member do ChatGPT Brasil.
Os números da creator economy
Os dados confirmam que o movimento é coletivo, não uma extravagância pessoal. O Censo dos Criadores de Conteúdo do Brasil 2025, da Wake Creators, contou mais de 14 milhões de criadores no país. Ainda assim, só 9% vivem exclusivamente disso. No mundo, a creator economy deve saltar de US$ 250 bilhões em 2023 para cerca de US$ 480 bilhões até 2027, segundo a Goldman Sachs Research. Ou seja, ela soma à carreira formal muito mais do que substitui.
A espiral da trajetória
Foi essa convicção que levou Ingrid a gravar o Produdiz no Itaú, série em que sentou com seis lideranças de produto e tecnologia do banco para falar de carreira sem filtro institucional. Ela queria a pessoa por trás do cargo, com caminho torto e tudo.
Lara Mansour é engenheira química que nunca pisou numa indústria. Entrou no banco como estagiária conferindo cheques e hoje coordena a estratégia e a governança de como a casa inteira faz produto.
Quando o seu repertório para de crescer numa sala, chegou a hora de trocar de sala.— Lara Mansour
Marcelo Linhares começou trocando tinta de impressora no suporte técnico. Músico, levou anos para entender que liderar engenharia tem menos a ver com entregar código e mais com tirar o fone para escutar as pessoas em volta.
Do chão de fábrica à superintendência
As outras conversas puxaram o mesmo fio por entradas diferentes. Lorena Lima passou por montadora e telecom antes do banco, onde tocou desde o lançamento do primeiro iPhone na operação até a construção do Itaú Shop do zero. Ieda Magalhães levou vinte anos para virar gerente de produto e defende que o cargo é consequência do desenvolvimento, nunca o contrário.
Raíssa Buri, superintendente, fala abertamente do fracasso que viveu cedo e amarra a trajetória na constância de saber para onde quer ir e por quê. E Maria Eduarda Paiva, a Duda, chegou à superintendência de produtos digitais por um percurso que nenhum manual de RH desenharia com régua.
Eram seis pessoas com pontos de partida que não conversavam entre si, unidas por uma coisa: ninguém ali subiu por uma linha reta, e foi o repertório de cada curva que tornou cada uma boa no que faz.
Repertório acumulado em silêncio
Ingrid não conta nada disso para entregar uma receita, até porque seria incoerente com tudo o que viveu.
Não existe mapa para carreira não linear, e quem te vende um provavelmente está mais interessado no seu dinheiro do que no seu caminho.— Ingrid Coutinho
O que existe é gente disposta a transformar a própria confusão em clareza, sem achar que é a única sem um plano bonitinho. Foi pensando nelas que Ingrid criou a mágica, comunidade para quem constrói um caminho fora do molde e cansou de dar conta de tudo sozinho.
Há um detalhe que ela faz questão de contar: construiu a comunidade inteira com inteligência artificial, inclusive a parte de código, mesmo sem ser desenvolvedora de formação. A mesma IA que muita gente trata como ameaça permitiu a ela tirar a ideia do papel sozinha. Quem quiser fazer parte a encontra em magica-carreira.com.br.
Ingrid perdeu tempo demais tratando a própria linha torta como um problema a corrigir, quando era o avesso disso: tudo aquilo era repertório se acumulando em silêncio. "O lugar onde a gente está é sempre emprestado", costuma dizer. Vale olhar para a própria bagunça com menos vergonha e mais curiosidade.
Ingrid Coutinho é Senior Product Manager no Itaú Unibanco e engenheira de produção de formação. Criadora do podcast Produdiz, disponível no Spotify, e da série Produdiz no Itaú, reúne mais de 50 mil seguidores nas redes, onde fala sobre carreira, produto e os bastidores que o LinkedIn costuma esconder. Já deu aula na FIAP e, em junho de 2026, tornou-se community member do ChatGPT Brasil. É fundadora da comunidade a mágica e está em @ingridiz e @produdiz.
Links:
Comunidade a mágica: https://magica-carreira.com.br/ Podcast Produdiz no Spotify: https://open.spotify.com/show/1UhJsLcMenLHlTDfLguARx
Fontes: Deloitte Gen Z and Millennial Survey 2024; Censo dos Criadores de Conteúdo do Brasil 2025 (Wake Creators); Goldman Sachs Research.