
Quando a maturidade das equipes vira ativo: o avanço do Valuation Humano na avaliação de empresas
Desde 26 de maio de 2026, uma mudança discreta na NR-1 (Norma Regulamentadora 1) começou a reposicionar uma discussão que, até pouco tempo atrás, vivia restrita às áreas de cultura e gestão de pessoas. Pela nova redação, os fatores de risco psicossociais passam a integrar o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais e devem constar no inventário de riscos ao lado dos perigos físicos, químicos, biológicos, ergonômicos e de acidentes. Metas inalcançáveis, sobrecarga, assédio moral, falhas de comunicação e ausência de apoio da liderança deixam de ser desconforto difuso e passam a ser passivo a ser gerido.
O efeito prático é deslocar o tema para o território da governança. O que era pauta de clima organizacional começa a tocar compliance, prevenção de litígios e responsabilidade dos conselhos. Em empresas marcadas por alta rotatividade, pressão extrema por performance ou liderança frágil, o chamado risco emocional tende a ficar visível para auditorias internas e áreas jurídicas, com consequências que extrapolam o RH.
Uma lacuna antiga no balanço
Esse movimento conversa com um problema estrutural na forma como o mercado mede valor. Por muito tempo, o valuation foi um exercício essencialmente financeiro, organizado em torno de receita, margem, geração de caixa e custo de capital. A economia dos intangíveis, porém, escancarou um ponto cego: parte relevante do valor de uma companhia mora em ativos que o balanço não consegue capturar por inteiro. A norma internacional IAS 38 reconhece a dificuldade ao tratar elementos gerados internamente, como marcas, que raramente entram nas demonstrações como ativo formal.
José Roberto Marques, fundador do IBC, encaixa nessa lacuna o conceito de Valuation Humano. A premissa é direta e incômoda para conselhos e investidores: o valor de uma empresa não estaria apenas no que ela fatura ou detém, mas também na qualidade emocional, relacional e decisória das pessoas que sustentam a operação. Capital humano, nessa conta, sai da condição de linha de custo e passa a ser tratado como vetor capaz de gerar, preservar ou destruir valor.
"Valuation Humano é a ideia de que o valor de uma empresa não está apenas no balanço. Está nas pessoas. Uma equipe emocionalmente madura toma decisões melhores, inova mais, retém talentos e gera resultados superiores. Quando você mensura isso, o impacto no valuation é direto", resume José Roberto Marques.
O que os números já mostram
Outras instituições chegaram à mesma conclusão por caminhos diferentes. Em 2024, o Fórum Econômico Mundial reforçou que o capital humano segue como motor central de criação de valor, ainda que tratado de modo distinto de outros ativos nos relatórios financeiros. No ano seguinte, a IFC, braço do Banco Mundial para o setor privado, sustentou em nota técnica que divulgar dados sobre capital humano pode ampliar o acesso a capital, reforçar ratings ESG e responder a uma expectativa crescente de investidores e reguladores.
Os efeitos econômicos aparecem em pesquisas de mercado. Levantamentos da McKinsey indicam que organizações saudáveis entregam, no longo prazo, três vezes mais retorno total ao acionista do que as não saudáveis, independentemente do setor. A consultoria registra ainda aumento de 18% no EBITDA em um ano entre companhias que melhoraram sua saúde organizacional, e 35% a mais de TSR (retorno total ao acionista) em transformações que incorporaram esse tipo de investimento.
O custo de ignorar a agenda também é quantificável. No State of the Global Workplace 2026, a Gallup apontou queda do engajamento global para 20% em 2025 e estimou perda de aproximadamente US$10 trilhões em produtividade no período para a economia global. São cifras que tiram o assunto do campo do bem-estar abstrato e o ancoram na criação concreta de valor.
De camada complementar a critério de diligência
José Roberto Marques é cuidadoso ao posicionar o conceito. O Valuation Humano não pretende substituir as métricas tradicionais, e sim funcionar como camada complementar de análise. O raciocínio é que turnover elevado, burnout, absenteísmo, baixa confiança interna e liderança desorganizada não são apenas sintomas de clima. São fatores que corroem produtividade, elevam custo de reposição, comprometem execução e, no limite, ampliam risco operacional e reputacional.
"Hoje o mercado ainda discute pessoas como despesa e saúde emocional como benefício. O Valuation Humano propõe outra leitura: equipes desequilibradas geram risco, e equipes maduras geram valor. Esse diferencial precisa entrar na lógica de avaliação das empresas", afirma.
As estruturas de reporte também mudaram. Em agosto de 2025, a ISO (Organização Internacional para Padronização) publicou a segunda edição da ISO 30414, voltada à divulgação de capital humano, com requisitos auditáveis, uma base de 14 métricas obrigatórias e escopo ampliado para bem-estar da força de trabalho, produtividade, ética, relações de trabalho e direitos humanos. O capital humano deixou de ser terreno difuso para virar espaço mensurável e auditável.
"A NR-1 é uma sinalização clara de que saúde emocional não é acessório. É infraestrutura de gestão. Empresas que tratarem isso com antecedência terão vantagem operacional e menos exposição a passivos. As que ignorarem o tema vão descobrir tarde o custo da omissão", completa José Roberto Marques.
Indicadores ambientais e de governança já fizeram esse percurso: saíram da periferia para o centro da precificação e da diligência. A aposta de José Roberto Marques é que métricas de qualidade humana sigam o mesmo caminho, mas com uma diferença: o ativo central aqui não é máquina, imóvel ou patente, é a capacidade de uma empresa sustentar desempenho através de pessoas emocionalmente preparadas.
A formulação do conceito se apoia em mais de quatro décadas de atuação de José Roberto Marques no desenvolvimento humano, em uma operação de escala rara no setor: mais de 6 milhões de pessoas treinadas, presença em mais de 40 países, mais de 140 mil alunos formados e 110 livros publicados que somam milhares de exemplares vendidos