
A locação é a área mais subestimada do mercado imobiliário. Ela construiu um negócio em cima disso
No mercado imobiliário, quase toda a atenção, e quase todo o treinamento disponível, está na venda. Comissão alta, ciclo curto, resultado visível. A locação, que sustenta o caixa recorrente de boa parte das imobiliárias brasileiras, é tratada como área de passagem: onde o corretor iniciante começa e de onde tenta sair o mais rápido possível.
Lígia Simões fez o caminho inverso, e transformou isso em negócio.
Hoje ela ensina corretores de todo o país, do iniciante que nunca fechou um contrato ao profissional intermediário que já opera, mas no improviso. São centenas de alunos, e a promessa é sempre a mesma: fazer da locação não apenas uma fonte de receita, mas uma operação segura e estratégica. Treinamentos, palestras, mentorias e conteúdo digital formam uma operação que nasceu de uma percepção incômoda: ninguém forma ninguém nessa área.
Trinta anos para entender o que estava faltando
Lígia entrou no mercado em 1991, ao lado do pai, em uma imobiliária de São Joaquim da Barra, no interior de São Paulo. Era um período sem regra e sem segurança jurídica. A Lei do Inquilinato ainda estava sendo digerida pelo setor, e ninguém sabia exatamente como operar. Ela decidiu aprender. Pouco depois, abriu a própria imobiliária, em Guará.
A rotina não foi confortável. Houve um ponto em que ela desistiu: saiu do setor, tentou outras áreas. E foi a própria locação que, anos depois, ofereceu a chance de recomeço.
"Já jogaram chave no balcão. Já gritaram comigo dentro da imobiliária", comenta Lígia Simões.
Foi nessa segunda passagem que ela chegou à tese que hoje sustenta o negócio: locação não é contrato. É gestão de pessoas, processos e responsabilidade. É lidar com o proprietário que quer rentabilidade, com o inquilino que quer previsibilidade, e com o conflito inevitável entre os dois. Nada disso está em manual. Nada disso é ensinado nos cursos de formação.
Do balcão para a sala de aula
A demanda apareceu antes do produto. Corretores começaram a procurá-la para entender como ela resolvia o que eles não conseguiam resolver. O que era troca informal virou treinamento; o treinamento virou palestra; a palestra virou mentoria.
O público se dividiu naturalmente em dois: quem está começando e precisa de método antes de cometer os erros caros; e quem já atua há anos, mas descobre que estava operando sem estrutura: contratos frágeis, garantias mal avaliadas, precificação no chute.
O que faltava era escala. E a escala veio do canal que ela nunca tinha usado.
O que ela aprendeu a fazer só agora
Com mais de trinta anos de mercado, Lígia começou a produzir conteúdo digital do zero. Sem experiência com câmera, sem intimidade com redes sociais, aprendendo enquanto fazia. Foi o que transformou uma operação restrita à sua região em algo com alcance nacional.
"Eu não posso guardar tudo isso só pra mim", diz Lígia Simões.
A lição vale além do mercado imobiliário: quem acumula expertise por décadas costuma subestimar o valor comercial do que sabe, e acreditar que os canais para distribuir esse conhecimento pertencem a outra geração.
O ativo que poucos enxergam
A aposta de Lígia é que a locação é uma das áreas mais poderosas do mercado imobiliário brasileiro e uma das menos exploradas com estratégia. Enquanto a venda depende de ciclo e de mercado aquecido, a locação constrói carteira, recorrência e previsibilidade, tanto para o corretor quanto para o proprietário.
Agora, ela prepara o lançamento de um curso online gravado, um programa estruturado para ensinar corretores a operar a locação de forma segura e estratégica, do primeiro contrato à gestão de uma carteira consolidada. É o formato mais escalável do que hoje ela entrega em treinamentos e mentorias, e o próximo passo natural de quem decidiu que não vai guardar trinta anos de mercado só para si.
A base da operação é Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, de onde Lígia comanda uma frente de educação que já não tem fronteira geográfica. É a mesma lógica que ela ensina: o interior nunca foi limite. Foi ponto de partida.