
Órgãos federais de meteorologia e monitoramento climático divulgaram, em 19 de junho, Nota Técnica Conjunta que aponta probabilidade superior a 95% de persistência das condições de El Niño ao longo do segundo semestre de 2026, com potencial de intensidade forte a muito forte e possibilidade de extensão até pelo menos o início de 2027. O documento, assinado por INPE, INMET, Funceme e CENSIPAM, projeta redução das chuvas no Norte e no Nordeste, com risco de secas mais severas, incluindo a porção leste da Amazônia, enquanto a Região Sul tende a registrar precipitação acima da média na primavera e no verão. O Centro-Oeste, onde está o Distrito Federal, fica numa faixa intermediária de atenção, entre o arco de maior risco de estiagem e a região de maior volume de chuva projetado.
A leitura internacional reforça o cenário. O Climate Prediction Center, da NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos), atribuiu 63% de probabilidade a um evento muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027 e 96% de chance de o fenômeno seguir ativo entre dezembro e fevereiro, período que coincide com a fase mais sensível da safra 2026/27.
A convergência entre os dois monitoramentos, o nacional e o internacional, tem levado o debate técnico a migrar da previsão climática para a política de infraestrutura hídrica. Estimativa apresentada por Eduardo Assad, professor da FGV e ex-secretário do Ministério do Meio Ambiente, projeta queda de 7% a 10% na produção de soja, milho, café e laranja em cenário de El Niño forte. Segundo análise do Itaú BBA com base em dados do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), o ganho esperado no Sul do país, historicamente favorecido pelo fenômeno, tende a compensar apenas parcialmente as perdas no Centro-Oeste e no MATOPIBA. A conta nacional, portanto, não fecha por compensação geográfica, o que reforça a leitura de que a política de irrigação deixou de ser tema setorial e passou a integrar a agenda de segurança hídrica e alimentar do país.
Levantamento da Embrapa com dados até outubro de 2024 mostrou que a área irrigada por pivôs centrais no Brasil cresceu mais de 14% em dois anos e chegou a 2,2 milhões de hectares. Estudos da Agência Nacional de Águas (ANA) e do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional estimam o potencial irrigável do país em até 55 milhões de hectares, patamar que os dois órgãos apontam como referência para o planejamento de políticas públicas de expansão da irrigação. Segundo a ANA, a produção irrigada tem produtividade de duas a três vezes maior do que a de sequeiro, dado que tem orientado parte da discussão regulatória sobre outorga de uso de água e planejamento hídrico nas bacias do Centro-Oeste.
Indústria reorganiza a entrega conforme o mapa de risco
No elo produtivo, o mapa climático tem se traduzido em reorganização logística. A Asperbras, fabricante de tubos e conexões de PVC e PEAD fundada em 1985 em Penápolis (SP), opera seis plantas industriais em São Paulo, Rio Grande do Norte e Bahia, com capacidade de 60 mil toneladas por ano de PVC e 14 mil toneladas por ano de PEAD. As unidades no Nordeste ficam dentro do arco apontado pelos órgãos climáticos como o de maior risco de estiagem, o que encurta o prazo de entrega justamente onde a demanda deve pressionar.
"O produtor do Sul e o do MATOPIBA vão receber a mesma notícia climática e tomar decisões opostas. Um vai se preocupar com drenagem e com a janela de colheita, o outro com reposição hídrica. A indústria precisa atender aos dois, e isso é uma questão de onde está a planta, não de quanto se produz", afirma Francisco Carlos Jorge Colnaghi, Vice-Presidente do Conselho de Administração da Asperbras.
A escolha do sistema de irrigação varia conforme a cultura e o investimento disponível. A aspersão convencional cobre grandes áreas de grãos com investimento por hectare menor, mas tem eficiência de aplicação inferior e sofre com vento e evaporação, fator que pesa mais em ano de El Niño no Nordeste, onde temperatura acima da média acompanha a falta de chuva. O gotejamento entrega água na raiz, com eficiência alta e menor perda por evaporação, mas exige filtragem, manejo e investimento inicial maior por hectare, o que costuma fazer sentido em fruticultura, café e horticultura antes de fazer em grão.
O terceiro caminho, e o que mais cresce em propriedade média, são os sistemas móveis de engate rosca e engate metálico, em que os tubos são unidos por acoplamento mecânico em vez de adesivo, o que permite montar, desmontar e deslocar a linha entre glebas conforme a estação. Para quem quer testar irrigação em uma gleba antes de imobilizar capital, é a porta de entrada.
Do lado da especificação técnica, a linha vai de tubos DN15 a DN500 a conexões de DN15 a DN150. O detalhe que o produtor costuma subestimar é o dimensionamento do diâmetro de condução: tubo subdimensionado gera perda de carga, perda de carga exige bomba de maior potência, e a diferença aparece na conta de energia todos os meses da safra, não na nota fiscal da compra.
"No campo, a conta que importa não é a do tubo, é a do custo por milímetro de água aplicado no talhão ao longo de dez safras. Quando o produtor faz essa conta, a decisão sobre diâmetro deixa de ser detalhe e vira o projeto inteiro", comenta Thiago Rosa, Diretor Comercial da Asperbras.
No campo regulatório e de política pública, há ainda o recado sobre quem fica de fora da proteção disponível. Guilherme Bastos, professor da FGV e ex-secretário do Ministério da Agricultura, aponta que pequenos e médios produtores estão mais expostos ao fenômeno do que os grandes, defende seguros paramétricos e mecanismos estaduais para quem não acessa o Proagro (Programa de Garantia da Atividade Agropecuária) ou seguros privados, e observa a falta de mapas de risco articulados entre estados e municípios, o que aponta uma lacuna de coordenação federativa a ser endereçada pelos órgãos competentes.
O calendário técnico fecha a discussão. O plantio da safra 2026/27 se concentra entre setembro e outubro, e dimensionar, contratar, instalar e testar um sistema de irrigação consome semanas. A decisão que o setor produtivo e os órgãos de política agrícola tomarem em julho e agosto é a que vai valer quando o Pacífico esquentar de vez.