
O manual de quem expande redes tem três verbos: escolher o ponto, padronizar o formato, replicar a operação. Alex Cardoso, nome conhecido no mercado de franchising e varejo, está aplicando exatamente esse manual a um setor que costuma pensar em quilowatts: a infraestrutura de recarga para carros elétricos.
Cardoso é o fundador da Rota BR 101, rede de eletropostos com conveniência completa desenhada para o corredor litorâneo da BR-101, rodovia de 4.658 quilômetros. Ele não veio do setor elétrico, e é justamente essa a aposta do projeto: tratar cada eletroposto como uma unidade de rede, com ponto comercial analisado individualmente, formato idêntico e operação replicável, do jeito que uma rede padronizada abre lojas. Todas as unidades são próprias.
Na prática, cada unidade é um ativo comercial completo, com mais de dez frentes de receita: recarga, conveniência completa, souvenirs, assinaturas de conteúdo e de serviços, e-commerce, aluguel de bicicletas, mídia digital em painéis de LED, reciclagem, rede de fornecedores, logística e crédito de carbono, entre outras. A recarga gera o fluxo, o tempo de carregamento gera permanência, e a permanência gera consumo. A primeira etapa prevê 20 eletropostos de cerca de 3.000 m² cada, com cinco torres de recarga rápida de 120 a 360 kW por unidade, operação 24 horas e de 25 a 35 empregos diretos por ponto, e a expansão planejada chega a 200 unidades, todas construídas do zero, sem conversão de estruturas existentes.
A disciplina de rede também aparece onde ninguém olha. Antes da primeira unidade, veio a marca: Cardoso conduziu ele mesmo o registro no INPI em 2014, quando o plano ainda era posto de combustível com loja de conveniência, e, enxergando um mercado que ainda era promessa, abriu um segundo registro na frente de energia elétrica antes de a virada se confirmar.
“O que a gente vende é tempo e conforto. Enquanto o carro carrega, o que seria apenas uma parada rápida vira uma experiência completa, com todos os serviços que o viajante precisa. Quem entende de ponto comercial e de padrão de rede enxerga a estrada como uma malha de unidades, e é assim que a Rota BR 101 foi desenhada”, afirma o fundador.
A transposição de método encontrou mercado em expansão. O Brasil emplacou 215.023 veículos eletrificados no primeiro semestre de 2026, alta de 125% sobre o mesmo período de 2025, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), e junho marcou recorde de 18,3% de participação nas vendas de veículos leves. A rede pública de recarga, de 25,4 mil pontos, permanece concentrada nos grandes centros do Sudeste e do Sul.
Para executivos de expansão, o caso deixa uma provocação de carreira: o ativo mais transferível de quem cresce redes não é o conhecimento do produto, é o método. Muda o que se vende na unidade; não muda a disciplina de abrir a próxima.