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O homem que decidiu dar ouvidos ao silêncio

Publicado em 10/09/2026 19:46

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O homem que decidiu dar ouvidos ao silêncio  -  (crédito: PulseBrand)
O homem que decidiu dar ouvidos ao silêncio - (crédito: PulseBrand)

Edison Claro gosta de contar uma história de praia para explicar o que faz da vida. Ele tem uma casa litorânea com vizinhos dos dois lados: um ama pagode, o outro é fanático por rock. Ele, pessoalmente, não suporta o primeiro estilo e aí vem a virada: quando mede o volume dos dois sons, descobre que a intensidade é praticamente idêntica. Ainda assim, um o irrita profundamente; o outro o deixa animado.

É dessa observação simples que nasce a definição que guia toda a carreira do engenheiro à frente da Atenua Som (empresa especializada em isolamento acústico): o barulho não é uma medida objetiva de decibéis, é tudo aquilo que incomoda. Essa tese, cultivada ao longo de mais de 30 anos de projetos residenciais, hoteleiros e culturais, é o fio condutor do seu livro O Silêncio é Disputado, mas também é, antes de tudo, a lente pela qual Edison Claro enxerga o mundo.

A janela como território de guerra

Nos bastidores da profissão, Edison conta ter testemunhado o quanto o incômodo sonoro pode escalar. Atendeu clientes com hiperacusia (condição que torna a audição intolerante à sons corriqueiros) e ouviu relatos de vizinhos que quase chegaram às vias de fato por causa de um pagode ligado até tarde. Para ele, esses episódios extremos, que volta e meia viram manchete de crime passional, comprovam algo que a engenharia tradicional ainda trata como coadjuvante: o silêncio não é conforto, é necessidade fisiológica e emocional.

Foi tentando resolver esse tipo de conflito, esquadria por esquadria, que Edison Claro chegou a uma constatação técnica que reivindica como criação própria: além das duas leis clássicas da acústica arquitetônica (a lei das massas, quanto mais peso, mais isolamento; e a lei das frequências, às vezes, duas paredes finas e assimétricas isolam melhor que uma parede grossa), existe uma terceira, que ele batizou de lei das frestas. Não é uma lei da física reconhecida nos livros-texto, mas descreve um fenômeno que ele viu se repetir em obra após obra: no Brasil, onde predominam janelas e portas de correr, a folga necessária para o deslizamento das peças costuma ser o ponto por onde todo o esforço de isolamento escapa. Uma abertura milimétrica, segundo ele, pode anular o desempenho de um vidro caríssimo.

Os projetos que viraram estudo de caso

Esse olhar para o detalhe é o que costuma render à Atenua Som os desafios mais espinhosos do mercado. Edison gosta de lembrar, por exemplo, do condomínio a poucos metros do Allianz Parque, casa do Palmeiras, onde o som da plateia chega a 107 decibéis nos dias de show: a solução, uma reforma completa das esquadrias sem alterar a fachada original, precisou sair do papel em apenas 30 dias. Ou do Hotel Marriott próximo ao Aeroporto de Cumbica, onde a diretoria só topou pagar o valor mais alto entre os concorrentes depois que a equipe propôs um teste direto: dormir uma noite no quarto com a janela instalada e comparar o resultado com o das outras marcas.

Mas o projeto que ele define, sem hesitar, como o maior desafio da carreira foi o NEOJIBA, programa de orquestras juvenis da Bahia idealizado pelo maestro Ricardo Castro. Para um dos núcleos, em Salvador, sua equipe teve que produzir 49 esquadrias arqueadas capazes de isolar 50 decibéis, seguindo parâmetros da consultoria japonesa Nagata Acoustics, referência mundial em acústica de salas de concerto. O prédio, tombado pelo patrimônio histórico, impedia o uso de guindastes internos: vidros e perfis de centenas de quilos tiveram que ser erguidos manualmente. E as portas ainda precisavam ser largas o bastante para a passagem de um piano, sem perder um decibel de isolamento. "Imagine alcançar, com esquadrias, o desempenho acústico equivalente ao de uma parede", resume Edison ao lembrar do feito.

De engenheiro a provocador do setor

Se a Atenua Som resolve os problemas um a um, o verdadeiro projeto de vida de Edison Claro talvez seja outro: mudar a mentalidade de todo um setor. Há quase duas décadas ele mantém a Universidade do Som, plataforma de formação técnica da qual nasceu o Vidro Som.

Foi durante uma dessas edições, em Florianópolis, que Edison fez a pergunta que talvez resuma sua visão de mercado: janela tem marca? Diante do silêncio constrangido da plateia, ele puxou uma comparação com a indústria automobilística, que soube transformar um carro popular em produto sofisticado (com ar-condicionado, airbag, multimídia) mesmo em plena crise econômica. Por que o setor de esquadrias, questionou, não segue o mesmo caminho, agregando vidros melhores, cores, telas e fechaduras de qualidade, até criar marcas reconhecíveis? Para ele, essa é a próxima fronteira: transformar o conforto acústico de detalhe técnico invisível em critério de compra tão relevante quanto qualquer outro item de uma construção.

Para além de um livro técnico, um manifesto

É esse cruzamento entre vivência de campo, obsessão técnica e provocação de mercado que Edison reuniu em O Silêncio é Disputado. O livro passeia por explicações sobre decibéis, curvas de ponderação e normas brasileiras de esquadrias, mas o que sustenta cada capítulo são as histórias que ele foi colecionando pelo caminho (inclusive as mais duras, como a de gêmeos criados na mesma casa em São José dos Campos que cresceram com estaturas visivelmente diferentes, atribuída pelo pediatra da família à interrupção constante do sono de um deles por morar voltado para uma rodovia).

Para Edison, esse tipo de relato prova que o silêncio deixou de ser luxo estético para virar questão de saúde pública, tão urgente, segundo ele, quanto a água potável ou o ar limpo. Não à toa, ele cita como inspiração lugares como a Capela de Kamppi, em Helsinque, construção de madeira onde é proibido falar e a acústica é tão precisa que se ouve o próprio coração batendo. Se cidades como essa já tratam o silêncio como patrimônio a ser protegido, ele aposta que o Brasil também vai precisar aprender a projetá-lo, ao invés de apenas remediá-lo depois que o barulho já causou o estrago.

"Em um mundo barulhento, quem não planeja o som, colhe o incômodo", resume Edison Claro. É a frase que fecha o livro, mas também poderia abrir qualquer conversa com ele: a certeza de que o silêncio, longe de ser um efeito colateral do acaso, é algo que se constrói janela por janela, decibel por decibel.

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