
Pesquisa da Gartner divulgada em outubro de 2025 apontou que 88% dos líderes de recursos humanos afirmam que suas organizações ainda não obtiveram valor de negócio significativo com ferramentas de inteligência artificial. O dado chama atenção porque não reflete falta de interesse das equipes, no mesmo levantamento, com quase 3 mil funcionários ouvidos, 65% se dizem entusiasmados em usar IA no trabalho, e 37% dos que têm acesso à tecnologia não usam porque percebem que os colegas também não usam. A barreira, segundo a pesquisa, é de implantação e de desenho do projeto, não de vontade.
Um exemplo na direção contrária ajuda a entender o que separa um projeto que entrega retorno de um que não entrega. A Vircos, companhia de engenharia de inteligência artificial corporativa, implementou o Friol.ai como base de conhecimento interna na NUV Brasil, empresa capixaba, com o objetivo declarado de reduzir o volume de perguntas operacionais repetidas que ocupam RH, administrativo e financeiro, um trabalho de balcão que consome tempo que deveria ir para análises que exigem julgamento humano.
Decisão de arquitetura antes da escolha do modelo
Segundo a companhia, o desenho do projeto passou por estruturar bases de conhecimento separadas por área e por grupo de acesso, de modo que políticas e processos internos respondessem dentro do aplicativo que o funcionário já utiliza, sem expor informação sensível entre departamentos.
"Uma base de conhecimento sem regras e sem políticas não é uma ferramenta de RH, é só um vazamento esperando acontecer. O trabalho começa em decidir quem enxerga o quê e manter essa política atualizada dentro do sistema. Escolher qual modelo de linguagem vai ser utilizado é a parte fácil. O mais difícil é definir quem vê o quê e até quando", afirma Guilherme Friol, CEO da Vircos.
Com esse desenho em funcionamento, as dúvidas de rotina passaram a ser resolvidas em segundos, sem fila e sem exposição, liberando as equipes administrativas para o que exige análise caso a caso. O retorno esperado era de produtividade. Um efeito adicional, segundo a companhia, foi o surgimento de perguntas que nunca haviam chegado ao RH por nenhum canal, algumas delas com valor de sinal para a gestão de pessoas.
"O ganho de tempo era o resultado esperado. O que surpreendeu foi o colaborador que finalmente perguntou, inclusive o que nunca perguntaria ao RH. Quando alguém começa a pesquisar sobre desligamento, isso é um sinal de alerta para a gestão de pessoas. A tecnologia consegue identificar esse comportamento. O que ela não consegue fazer é compreender, sozinha, as razões por trás dele", afirma Friol.
Para o executivo que avalia investimento em IA aplicada a RH, o caso reforça a leitura da própria Gartner, o retorno depende menos da escolha do modelo de linguagem e mais da arquitetura de acesso e da governança que sustentam o projeto ao longo do tempo.