
Para o gestor que avalia um sistema sob medida, o prazo costuma pesar tanto quanto o preço. Durante anos, a referência foi o projeto de múltiplos trimestres, com equipe dedicada e risco alto de não entregar. Diante dessa régua, assinar uma solução pronta parecia a escolha óbvia.
Segundo Guilherme Friol, CEO da Vircos, empresa de engenharia de inteligência artificial corporativa, essa referência ficou para trás. Para escopos bem delimitados, o prazo caiu para semanas. O problema, na avaliação dele, é que a comparação usada pela maioria dos comitês de tecnologia foi calibrada para um cenário que não existe mais.
“A empresa compara o preço da assinatura com a memória que ela tem de quanto custava desenvolver em 2021. Não é o mesmo número, não é o mesmo prazo e não é o mesmo risco”, afirma Friol.
O que explica a mudança
Análise do Goldman Sachs publicada em março de 2026 aponta que, no agregado da economia, ainda não há relação significativa entre adoção de inteligência artificial e ganho de produtividade. Em dois domínios, porém, o resultado é claro: empresas que implantaram IA em suporte ao cliente e em desenvolvimento de software relataram ganho mediano de cerca de 30%. Desenvolvimento é justamente a variável que definia o custo do lado do construir.
O que cabe em semanas, e o que não cabe
Friol delimita o alcance do dado. A queda vale para sistemas de escopo definido, com regra de negócio clara e integração conhecida, e não para plataformas complexas de uso geral. Construir um fluxo que lê pedidos, aplica a política comercial da empresa e devolve uma proposta é hoje um projeto de semanas. Construir um sistema de gestão empresarial completo continua sendo um projeto de anos, e continua não fazendo sentido.
Escopo definido é aquele em que a empresa consegue descrever a regra antes de começar: quais dados entram, que critério se aplica, o que sai e para qual sistema vai. Costuma ser o caso de fluxos que hoje dependem de planilha, de troca de e-mail ou de etapas manuais entre dois sistemas que já existem. É nesse tipo de processo que o ganho no desenvolvimento se converte em prazo e orçamento menores.
O outro prato da balança
Enquanto o prazo de construir encolhia, o custo de alugar crescia. Levantamento da FinOps Foundation indica que o orçamento anual médio de inteligência artificial de uma grande empresa passou de US$ 1,2 milhão em 2024 para US$ 7 milhões em 2026. Parte relevante do mercado de software corporativo migrou de licenciamento por usuário para modelos com componente de consumo, o que transferiu para o cliente uma variável de custo que ele não controla nem projeta.
“Não estou dizendo que toda empresa deveria construir. Estou dizendo que a conta que justificava não construir precisa ser refeita, porque as duas variáveis andaram”, diz o executivo.
Por que a decisão não acompanhou
Para Friol, o obstáculo à revisão não é técnico. Projetos de compra têm dono claro, prazo curto e aprovação simples. Projetos de construção exigem definição de escopo, envolvimento das áreas de negócio e manutenção posterior. Mesmo quando o cálculo favorece construir, o caminho institucional favorece comprar.
Quanto tempo leva, então, para desenvolver um sistema sob medida? Para um fluxo de escopo definido, semanas. Para uma plataforma de uso geral, anos. Para o gestor, a diferença entre as duas respostas é o que precisa entrar na régua do comitê antes da próxima renovação de contrato.