
A decisão de levar inteligência artificial para a programação de máquinas industriais passa por uma questão de segurança da informação: o destino dos projetos de engenharia depois que eles entram nesses sistemas. Modelos CAD (desenho assistido por computador), geometrias de peças, estratégias de fabricação e parâmetros de processo concentram conhecimento confidencial das empresas, e a forma como cada fornecedor trata esse material passou a pesar na escolha da ferramenta. Camila Sarantopoulos, CEO da TECC Indústria Inteligente, relata que o tema surge com frequência nas conversas com o setor.
“Um dos receios que mais ouvimos das indústrias é em relação à confidencialidade dos projetos quando entram ferramentas de inteligência artificial. A dúvida é legítima: se uma empresa compartilha uma peça, um processo ou uma estratégia de usinagem com uma IA, esse conhecimento poderia, de alguma forma, beneficiar concorrentes? Esse tipo de preocupação é natural sempre que uma nova tecnologia começa a ocupar espaço dentro das empresas”, comenta.
Contrato, retenção e treinamento de modelos
Não há resposta única. As condições de uso dependem da arquitetura da ferramenta, das políticas do fornecedor, das cláusulas contratuais, das regras de retenção de informações e, sobretudo, da definição sobre o uso ou não dos dados dos clientes para treinar modelos. Por isso, governança e segurança da informação precisam avançar no mesmo ritmo da adoção, sem que dados industriais sensíveis sejam inseridos indiscriminadamente em qualquer sistema.
Para a executiva, a cautela segue um padrão conhecido. “Foi assim com o e-mail, com a nuvem e com tantas outras tecnologias que, em um primeiro momento, despertaram desconfiança. Com o tempo, à medida que segurança, governança e regras de uso foram amadurecendo, essas ferramentas passaram a fazer parte da rotina empresarial.”
Adoção em estágio inicial
O relatório State of AI in the Enterprise 2026, da Deloitte, mostra que 58% dos executivos brasileiros pesquisados afirmam que suas organizações já têm algum nível de uso de IA física, categoria que abrange manufatura, logística e operações. A maturidade, no entanto, é baixa: 47% classificam a adoção como mínima e apenas 1% como avançada. A consultoria projeta que essa presença pode alcançar 82% das organizações brasileiras pesquisadas nos próximos dois anos.
Na programação CNC (Controle Numérico Computadorizado), a tecnologia já automatiza partes da criação de estratégias de usinagem, reconhece características geométricas das peças e sugere ou gera operações. “O maior ganho não está necessariamente em substituir o conhecimento do programador, mas em multiplicar sua capacidade. Existe um conhecimento industrial acumulado durante anos dentro dessas pessoas. Quando a tecnologia assume parte do trabalho repetitivo, esse profissional pode usar sua experiência onde ela realmente gera valor”, afirma Sarantopoulos.
Escassez de profissionais acelera a demanda
O interesse cresce num contexto de restrição de mão de obra. Pesquisa da CNI (Confederação Nacional da Indústria) com 1.002 empresários indica que 62% apontam a dificuldade de contratar profissionais qualificados como um dos principais componentes do Custo Brasil. Já o Observatório da Produtividade Regis Bonelli, da FGV IBRE, registrou crescimento de apenas 0,4% na produtividade agregada do trabalho em 2025.
“Na indústria, acredito que acontecerá algo semelhante com a inteligência artificial. A preocupação com proteção de dados precisa existir e precisa ser tratada com seriedade, mas o potencial de ganho em produtividade, velocidade de programação, redução de tarefas repetitivas e melhor aproveitamento dos profissionais é grande demais para ser ignorado. A discussão tende a deixar de ser ‘se a indústria vai usar IA’ e passar a ser ‘como usar IA com segurança, governança e vantagem competitiva’”, afirma Camila Sarantopoulos.
O que avaliar antes de adotar
Para empresas que analisam ferramentas de IA na engenharia de produção, o uso seguro depende de verificar onde os dados ficam armazenados, por quanto tempo são retidos, o que o contrato estabelece e se o fornecedor utiliza as informações para treinamento. Com essas respostas documentadas, a proteção dos projetos passa a integrar o processo de adoção, e não a impedi-lo.