
A Previdência concedeu, em 2025, 546.254 benefícios por incapacidade temporária ligados a transtornos mentais e comportamentais, volume 15,66% superior ao do ano anterior. O dado costuma ser interpretado como sinal de uma população mais fragilizada, mas também pode indicar um desajuste entre a forma como as carreiras se organizam e a realidade demográfica e econômica do país.
Essa é a leitura do psicólogo clínico Rodrigo Toledo Potechi, pós-graduado em Saúde Mental pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Segundo ele, parte do adoecimento observado entre profissionais nasce de uma expectativa que deixou de corresponder às condições concretas de ascensão.
Uma promessa que perdeu correspondência
"Não estamos diante apenas de uma geração mais ansiosa ou menos tolerante à frustração. É uma geração que recebeu uma promessa de mobilidade baseada em estudo, trabalho e desempenho, mas chegou à vida adulta num mundo em que posições e oportunidades circulam de outra maneira. Diante desse descompasso, tenta compensar performando cada vez mais. Em algum momento, corpo e mente cobram a conta", afirma Toledo.
O quadro descrito pelo psicólogo inclui ansiedade, insônia, irritabilidade, compulsões, episódios depressivos e burnout. Antes de chegar a esse ponto, o esforço de compensação tende a se intensificar, com jornadas mais longas, acúmulo de cursos, pressão por produtividade e, em alguns casos, uso de cafeína em excesso, álcool, drogas e psicoestimulantes sem indicação clínica. Em pesquisa com universitários usuários de psicoestimulantes, 75% apontaram o neuroaprimoramento como finalidade.
Transformações que alteram a pirâmide
Do ponto de vista estrutural, duas mudanças se sobrepõem. A primeira é a longevidade. A expectativa de vida ao nascer, que era de 45,5 anos em 1940, chegou a 76,6 anos em 2024, e quem atinge os 60 tem hoje a perspectiva de viver mais 22,6 anos. A permanência no mercado se amplia, enquanto a sucessão avança devagar: um levantamento indicou que 19,3% dos CEOs não planejam deixar o trabalho, 6,9% pretendem seguir depois dos 80 e apenas 16,1% contam com sucessor preparado.
A segunda é a reorganização produtiva. Em 1985, a indústria de transformação respondia por 26,2% do emprego formal; em 2024, por 14,8%. Empresas de tecnologia passaram a gerar valor bilionário com estruturas enxutas e, em 2026, 60% dos CEOs brasileiros ouvidos pela PwC afirmaram esperar menos profissionais em início de carreira nos três anos seguintes, em razão da inteligência artificial. Há ainda o peso do custo de vida: em São Paulo, 33% dos inquilinos destinavam 30% ou mais da renda ao aluguel em 2022.
Etarismo e convivência entre gerações
Toledo afasta a hipótese de responsabilizar os trabalhadores mais velhos. Pesquisa da PwC Brasil em parceria com a FGV (Fundação Getulio Vargas) mostrou que 86% das empresas pesquisadas não tinham planos de carreira para profissionais acima dos 40 anos, o que revela um mercado capaz de estender carreiras e, ao mesmo tempo, envelhecer precocemente seus quadros.
"Uma geração inteira aprendeu que, se o resultado não veio, faltou alguma coisa nela: qualificação, disciplina, produtividade, resiliência. Então, aumenta a dose de tudo. Talvez estejamos tentando corrigir indivíduos para adaptá-los a uma equação que também mudou fora deles", observa o psicólogo.
Saúde mental como questão estrutural
Na avaliação de Toledo, os números previdenciários precisam ser lidos à luz desse contexto, e não apenas como a soma de trajetórias individuais. Para ele, "cuidar da saúde mental também passa por reconhecer isso: distinguir o que pertence ao sujeito, o que pertence ao mundo em que ele vive e o que ainda pode ser construído entre os dois, sem transformar em culpa individual aquilo que também nasce de um problema estrutural, coletivo e social".
O desafio, nesse sentido, envolve empresas, gestores e formuladores de políticas, que precisam pensar como acomodar mais gerações, por mais tempo, em estruturas cada vez mais eficientes. "No fim, desenvolvimento deveria ampliar possibilidades humanas, não apenas abreviar processos. Se estamos vivendo mais, precisamos encontrar formas de fazer essas vidas caberem num mundo profissional cada vez mais enxuto, automatizado e competitivo. Pessoas de 28, 42, 52 ou 70 anos continuam sendo pessoas antes de serem recursos, cargos ou indicadores de produtividade", conclui.