
Empresas que pagam fornecedores, licenças de software ou serviços no exterior têm no IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) um componente fixo do cálculo. Pela regra geral em vigor, a alíquota é de 3,5% nas remessas ao exterior e de 0,38% no ingresso de recursos, com hipóteses de alíquota zero e isenção conforme a natureza da operação. O enquadramento de cada contrato interfere, assim, no custo final.
É nesse ambiente que a Trepzy, empresa de pagamentos internacionais incorporada em Delaware, nos Estados Unidos, chega ao Brasil com uma conta global multimoedas. A proposta é reunir em uma só estrutura o envio de recursos, a conciliação e o controle financeiro de quem paga e recebe em várias moedas, com foco em pequenas e médias empresas.
Spread e tarifas fixas além do imposto
O tributo é só uma das parcelas. Segundo a Trepzy, os meios tradicionais chegam a embutir até 6,5% de spread na conversão cambial e cobram tarifas fixas elevadas por transação. Como referência internacional, o Banco Mundial calcula em 6,36% do valor enviado o custo médio global de remessas de pequeno valor, considerando tarifas e margem de câmbio, conforme o relatório do Remittance Prices Worldwide referente ao terceiro trimestre de 2025.
O peso dessas despesas acompanha o volume. Em agosto de 2026, o déficit da conta de serviços chegou a US$ 5,3 bilhões, alta de 28,2% sobre agosto de 2025, segundo o Banco Central. Em 2025, de acordo com painel da Secex/MDIC (Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), o país importou US$ 104,77 bilhões em serviços e exportou US$ 51,83 bilhões.
Novos trilhos no perímetro regulado
A busca por alternativas aparece nas estatísticas oficiais. No primeiro semestre de 2026, residentes no Brasil compraram US$ 14,68 bilhões em criptoativos no exterior, alta de 135% sobre o mesmo período de 2025. O chefe do Departamento de Estatísticas do Banco Central, Fernando Rocha, estimou que as stablecoins, moedas digitais atreladas a divisas como o dólar, respondem por 90% a 95% dessa demanda. Desde fevereiro, normas da autoridade monetária tratam a conversão entre reais e esses ativos como operação de câmbio, o que traz esses fluxos para dentro do perímetro regulado.
Origem na operação da B2G Capital
A Trepzy nasceu como infraestrutura financeira interna da B2G Capital, empresa de software por assinatura fundada por Fernando Balbuena, hoje CEO da Trepzy. A B2G opera há três anos em mais de 60 países e cinco idiomas e, nesse período, destinou mais de US$ 2,5 milhões a investimento em mídia global e despesas gerais de seus produtos.
“Entendemos os problemas de uma gestão de recursos globais, porque não apenas viemos de um lugar onde enfrentávamos essas dificuldades, como ainda estamos lá, todos os dias”, afirma Fernando Balbuena, CEO da Trepzy e fundador da B2G Capital.
O que a conta oferece
No lançamento, a plataforma disponibiliza contas multimoedas, envios para mais de 90 países e múltiplas contas para separar recursos por projeto ou área. O Pix funciona nos dois sentidos: é possível pagar via Pix a partir de saldo em dólar e financiar via Pix transferências em dólar, euro, pesos e outras moedas, conforme a rota e a modalidade habilitada.
Até o início de 2027, estão previstos aceitação de cartões em checkout transparente, meios de pagamento locais por país, cartões em dólar e em real, categorização de transações, orçamentos por departamento e ferramentas de inteligência artificial para análise de dados. A meta pública da empresa é de US$ 150 milhões em pagamentos acumulados até o fim de 2027.
O IOF de 3,5% na decisão da empresa
Para a empresa que paga no exterior, o IOF de 3,5% sobre remessas segue a regra geral, o que desloca a decisão para os componentes que variam entre fornecedores: o spread na conversão, as tarifas por transação e o tempo gasto com conciliação. É sobre esses pontos que a Trepzy concentra sua proposta de conta global.