
Para boa parte dos passageiros, o comissário de bordo é quem serve refeições e orienta sobre bagagem. A lei brasileira descreve a função de outro jeito. A Lei 13.475, de 2017, conhecida como Lei do Aeronauta, dá ao comissário de voo a designação de tripulante de cabine e o define como auxiliar do comandante encarregado do cumprimento das normas relativas à segurança e ao atendimento dos passageiros a bordo. A mesma definição inclui a guarda de bagagens, documentos, valores e malas postais.
A formação segue a mesma lógica. No CEAB, escola de aviação civil com 27 anos de mercado, a parte prática é uma imersão na selva: combate ao fogo, marinharia e sobrevivência, com técnicas para fazer fogo e abrigo, usar a bússola e preparar armadilhas.
Segurança e serviço
Na definição legal, a segurança aparece ao lado do atendimento. Ao comandante, a mesma lei atribui a responsabilidade pela operação e pela segurança da aeronave, o que inclui, na prática, decisões como a de pousar fora do destino para levar um passageiro a atendimento. O comissário atua como auxiliar direto dessa responsabilidade dentro da cabine.
“O passageiro vê o comissário no serviço de bordo e acha que o trabalho é esse. A gente forma a pessoa para a hora em que alguém passa mal no corredor, e isso não se aprende só na teoria: se treina com o corpo até virar reflexo”, afirma Salmeron Cardoso, diretor e CEO do CEAB.
Quando a segurança vira atendimento
A emergência médica é um dos momentos em que as duas partes da função se encontram. Um estudo publicado em 2013 no New England Journal of Medicine analisou 11.920 emergências médicas em voos comerciais registradas por um centro de apoio médico em solo e chegou a uma frequência de uma a cada 604 voos. Desmaio ou quase desmaio responderam por 37,4% dos casos, seguidos por sintomas respiratórios, com 12,1%, e náusea ou vômito, com 9,5%.
Antes do chamado pelo sistema de som, a tripulação de cabine já chegou até o passageiro, fez a primeira avaliação e avisou a cabine de comando. Passageiros médicos ajudaram no atendimento em 48,1% das ocorrências, e o avião precisou ser desviado em 7,3% delas. As ocorrências do estudo foram registradas a partir de chamadas feitas durante o voo a esse centro de apoio. Na prática, o atendimento a bordo pode combinar três frentes: a tripulação, que chega primeiro; o profissional de saúde que esteja entre os passageiros; e a orientação a distância, quando a companhia conta com esse serviço.
“Na selva, o aluno aprende que o resgate pode demorar e que alguém precisa manter o grupo de pé até ele chegar. No avião é igual: entre o primeiro sinal e o pouso, quem está ali para agir é a tripulação”, diz Salmeron.
O que se treina
Os primeiros socorros são um módulo que atravessa todo o curso. A imersão na selva da escola foi registrada em vídeo. As imagens trazem a turma em briefing na mata, na prática de fogo e no uso de sinalizador à noite. É a parte da profissão que o passageiro raramente vê.
“Ninguém embarca pensando que vai precisar da gente. É por isso que o treino tem que acontecer antes, longe do avião, num lugar em que errar ainda faz parte do aprendizado”, afirma o diretor.
A resposta ao título, pela letra da lei, é sim: como auxiliar do comandante, o comissário responde pelas normas de segurança, ao lado do atendimento aos passageiros. A formação que prepara para o dia a dia de bordo é a mesma que prepara para o dia em que algo sai do roteiro.