
Quem paga a consulta online do próprio bolso ainda é exceção. Um painel da Saúde Digital Brasil com o Datalab da Serasa Experian, feito com dados de empresas de saúde digital, somou 7,98 milhões de atendimentos de telessaúde entre 2020 e 2025. Planos de saúde financiaram 42%; benefícios corporativos, 31%; recursos públicos, 8%; e o pagamento direto pelo paciente, 1%.
Para as empresas que querem levar a consulta online a quem ganha pouco, o número resume o desafio: esse cliente quase não aparece na conta. A VoxCare é uma das que apostam na democratização desse acesso: atende todos os públicos, da classe média alta à baixa renda, e a plataforma reúne, num aplicativo com atendimento 24 horas, teleconsulta médica, apoio psicológico e orientação nutricional, além de um clube de benefícios com descontos e cashback. Na venda direta, o plano individual custa R$ 24,90 por mês, cerca de R$ 0,83 por dia.
Um cliente fora do radar
O público existe e é grande. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde, do IBGE, só 2,2% das pessoas com rendimento mensal de até um quarto do salário mínimo tinham plano de saúde médico em 2019; na faixa de mais de cinco salários mínimos, eram 86,8%. No mercado de trabalho, a informalidade era de 37,4% da população ocupada no segundo trimestre de 2026, segundo a PNAD Contínua. É gente fora do benefício corporativo, o canal que respondeu por quase um terço dos atendimentos do painel.
“Democratizar o atendimento não é só cobrar menos. É desenhar o serviço para quem só acessa a internet pelo celular, trabalha sem carteira assinada e não pode perder um dia de serviço numa fila”, diz Sonia Cardoso, CEO da VoxCare.
Quem paga a conta
Para atender esse público, o negócio tem dois caminhos, que podem conviver. O primeiro é a mensalidade paga pela própria pessoa, que precisa caber num orçamento apertado. O segundo é chegar às pessoas por meio de organizações que já as reúnem e oferecem o serviço como benefício. É o desenho da VoxCare no CEAB, escola de aviação em que os alunos em curso, do ensino a distância ao presencial, têm acesso ao aplicativo.
“Preço baixo sozinho não fecha a conta. O que sustenta o modelo é chegar a muita gente pelos lugares em que ela já está, como a escola, a associação ou a empresa, e fazer com que o benefício seja usado de verdade”, afirma Sonia.
Nos dois casos, o produto precisa funcionar no aparelho que esse cliente tem. Segundo a TIC Domicílios 2025, do Cetic.br, 87% dos usuários de internet das classes D e E se conectam exclusivamente pelo celular, contra 5% na classe A.
O que o cliente precisa saber
Para quem paga do próprio bolso, saber o que esperar pesa tanto quanto o preço. Telemedicina não é plano de saúde: não cobre internação, cirurgia, exames presenciais nem procedimentos. Pela Resolução 2.314/2022 do Conselho Federal de Medicina, o médico pode indicar a consulta presencial sempre que achar necessário. Dentro desses limites, 72,96% dos atendimentos terminaram no próprio ambiente digital, sem encaminhamento presencial, segundo o painel.
“Atender quem ganha pouco traz uma responsabilidade a mais: mostrar o caminho certo quando o caso não se resolve pelo celular. Para essa pessoa, um encaminhamento bem feito vale tanto quanto a consulta”, afirma a executiva.
O 1% de pagamento direto mostra o tamanho do espaço ainda vazio. Para ocupá-lo, a pergunta central do negócio deixa de ser quanto cobrar e passa a ser quem paga: a própria pessoa, numa mensalidade que caiba no orçamento, ou uma organização que já reúne esse público e oferece o serviço como benefício.