
Para o gestor que está montando o comitê de inteligência artificial da empresa, a composição da mesa pesa tanto quanto a ferramenta escolhida. Com frequência, a decisão sai de duas cadeiras: a área de negócio, que apresenta o problema, e a tecnologia, que avalia a integração.
Segundo Guilherme Friol, fundador da Vircos e executivo com 20 anos de carreira em tecnologia, falta a terceira. O comitê que funciona, na definição dele, reúne a área de negócio, que conhece a regra; a tecnologia, que conhece a arquitetura; e o financeiro, que conhece o tempo.
“Comprar ou construir inteligência artificial é decisão financeira disfarçada de decisão técnica. Quem entende de amortização, de custo total em três anos e de risco contratual precisa estar na sala, porque é ele quem vai explicar essa conta em 2028”, afirma Friol.
O que cada cadeira pergunta
A área de negócio responde qual problema a ferramenta resolve e qual regra ela precisa seguir. A tecnologia responde se a solução se integra aos sistemas da empresa. Ao financeiro cabe o que a demonstração não mostra: a amortização, que distribui o custo do que foi construído ao longo da vida útil do sistema; o custo por transação em escala, que define o orçamento do terceiro ano, e não o do primeiro mês; e a cláusula de saída, que diz o que a empresa leva, e quanto paga, se trocar de fornecedor.
Por trás desses pontos estão três perguntas maiores: o custo total em três anos, com a cobrança por consumo, a integração e a migração quando o modelo é descontinuado; o que fica como ativo, já que um sistema construído pode entrar no balanço como ativo intangível, enquanto a licença anual entra como despesa e sai na renovação; e o risco contratual, caso o fornecedor mude o preço, o comportamento do modelo ou encerre o serviço.
Por que a terceira cadeira faz falta
A conta já é assunto de quem controla custos. Segundo o relatório State of FinOps 2026, da FinOps Foundation, 98% dos 1.192 profissionais de gestão financeira de nuvem ouvidos já administram gastos com IA, contra 63% em 2025 e 31% em 2024. Sem o financeiro no comitê, porém, essa conta só chega à mesa depois que a fatura muda de tamanho.
E ela acompanha o uso: a Gartner estima que sistemas agênticos consomem de 5 a 30 vezes mais tokens por demanda do que um chatbot convencional. Nos processos de decisão que conduz, Friol leva a pergunta do custo para uma janela de 36 meses, com sete linhas, da mensalidade contratada ao custo de saída, uma conta que a demonstração não faz.
Além de risco e conformidade
Ocupar as três cadeiras, no entanto, não garante as perguntas certas, e o gasto não deve dar trégua. Na pesquisa trimestral que a consultoria Grant Thornton fez em agosto de 2026 com 229 líderes de finanças nos Estados Unidos, 84% esperam aumentar o gasto com inteligência artificial nos próximos 12 meses.
Na edição anterior, a consultoria observava que muitas empresas já têm governança sobre risco e conformidade, mas não sobre a criação de valor desses investimentos. Em outras palavras, há controle sobre se a ferramenta é segura e está em conformidade, e não sobre o valor que ela gera.
Na avaliação de Friol, o que falta não é conhecimento técnico, e por isso a área de tecnologia não consegue suprir a lacuna sozinha.
“O CFO não precisa saber como o modelo funciona. Precisa saber como a conta é cobrada, o que fica com a empresa e o que acontece quando o fornecedor muda. Isso vale para toda a diretoria, e é o que mais falta hoje na mesa de decisão”, diz o executivo.
Quando o comitê decide rápido
Três cadeiras não significam decisão lenta. Para funções de commodity, como transcrição e leitura de documentos, Friol considera que a licença segue como a compra certa, e o comitê completo chega a essa conclusão depressa, porque o custo total é baixo e o risco de troca é pequeno. A cadeira financeira faz diferença quando a regra de negócio vai morar dentro do sistema.
Quem deve participar, então, do comitê de inteligência artificial? Negócio, tecnologia e financeiro, reunidos antes da assinatura e preparados para perguntar além da demonstração. Sem o financeiro, as perguntas sobre o que fica como ativo e sobre o risco do contrato costumam ficar sem dono.