
Diante de prazos acumulados e de um cansaço que não passa, muitos profissionais recorrem à mesma estratégia: assumem novas responsabilidades, estendem a jornada e deixam o descanso para depois. A saída parece lógica, mas tende a produzir o efeito contrário. O desgaste se aprofunda, o sono piora, a vida fora do expediente encolhe e tarefas antes simples passam a exigir um esforço cada vez maior.
A dinâmica é descrita pela psicóloga clínica Flávia Fávero, de abordagem analítica (CRP 08/39154), que atende em Curitiba e região. Segundo ela, tentar compensar o esgotamento com mais horas de dedicação é uma das formas de manter o ciclo em funcionamento, sobretudo quando faltam recursos e tempo para dar conta das novas exigências.
Quando a rotina segue, mas o esforço aumenta
Um traço comum desse quadro é que a pessoa continua funcionando. Os prazos são cumpridos e as mensagens, respondidas, ainda que a atividade, antes estimulante, tenha passado a pesar. Impaciência, sono que não restaura, dificuldade de concentração, dores de cabeça, irritabilidade e uma sensação crescente de incompetência ou negatividade em relação ao trabalho podem se instalar aos poucos e variar de uma pessoa para outra.
Esses sinais, isoladamente, não confirmam burnout, porque também podem estar ligados a outras condições de saúde. A orientação de Flávia é observar há quanto tempo eles persistem, de que forma interferem no cotidiano e se guardam relação com as condições de trabalho.
Um fenômeno ocupacional reconhecido
Na CID-11 (Classificação Internacional de Doenças), a OMS (Organização Mundial da Saúde) trata o burnout como fenômeno ocupacional decorrente do estresse crônico no trabalho que não foi adequadamente manejado. A classificação reúne três dimensões: esgotamento ou perda de energia; distanciamento mental da atividade, com negativismo ou cinismo; e redução da eficácia profissional.
Os registros oficiais dão a medida do problema. Em 2025, a Previdência Social concedeu 7.595 benefícios por incapacidade temporária ligados ao burnout, ante 823 em 2021, segundo o Ministério da Previdência Social. No mesmo ano, os afastamentos por transtornos mentais e comportamentais somaram 546.254, alta de 15,66% sobre 2024. Os números consideram apenas afastamentos acima de 15 dias pagos pelo INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) e, portanto, deixam de fora quem permanece no posto apesar dos sintomas.
O peso das condições de trabalho
Para a psicóloga, o esgotamento não pode ser lido como falta de força ou de organização pessoal. Sobrecarga, assédio, falta de apoio, baixa autonomia e indefinição de funções estão entre os fatores que afetam a saúde de quem trabalha. Desde 26 de maio de 2026, a NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1) menciona expressamente esses fatores de risco psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais, embora as sanções ligadas a esses dispositivos estejam suspensas pelo STF (Supremo Tribunal Federal).
Na avaliação de Flávia, descanso e lazer ajudam, mas não substituem mudanças em um ambiente que continua gerando sobrecarga ou sofrimento.
O momento de procurar ajuda
Para quem está no meio desse ciclo, o pedido de apoio costuma ser adiado, e a psicóloga reconhece a resistência.
“Procurar ajuda pode parecer mais uma tarefa numa agenda cheia ou uma admissão de fracasso. Não é necessário esperar chegar ao limite”, afirma Flávia.
O diagnóstico de burnout depende de avaliação clínica por profissional de saúde, que também ajuda a compreender os sintomas e a orientar os próximos passos. Conversar com alguém de confiança e buscar essa avaliação, segundo a psicóloga, são formas de começar a cuidar do problema e de interromper a lógica em que mais trabalho responde a mais cansaço.