
Um programa de compliance pode reunir todas as peças previstas em regulamento e, ainda assim, deixar riscos sem resposta quando essas peças não se comunicam. A questão orientou a primeira edição do Compliance 360°: conectando tecnologia, integridade e pessoas, promovido pela clickCompliance e pelo Kronoos em 21 de outubro, em São Paulo, com mais de 150 profissionais da área.
“Boa parte das empresas já tem canal de denúncias, política de conflito de interesses e processo de due diligence. A proposta do Compliance 360° foi olhar para o que acontece entre essas frentes. Um fornecedor citado em uma denúncia, um conflito declarado que nunca chega ao time de compras: é nesses intervalos que o risco cresce sem que ninguém perceba”, afirma Marcelo Erthal, CEO da clickCompliance.
O que a regulação avalia
O Decreto 11.129/2022, que regulamenta a Lei Anticorrupção (12.846/2013), define os parâmetros de avaliação da efetividade de um programa de integridade. Entre eles estão canais de denúncia, diligências para contratação e supervisão de terceiros e monitoramento contínuo do programa, frentes que, na prática, dependem umas das outras.
A Portaria Normativa Interministerial nº 1, publicada em dezembro de 2025 pela CGU (Controladoria-Geral da União) e pela AGU (Advocacia-Geral da União), reforçou o peso dessa avaliação. A norma prevê redução de até dois terços da multa para empresas que reportarem voluntariamente atos lesivos desconhecidos pelo Estado, desde que comprovem ter um programa de integridade efetivo. Até setembro de 2026, a CGU havia celebrado 37 acordos de leniência, com R$ 20,12 bilhões em valores acordados e R$ 11,35 bilhões já pagos.
Onde as lacunas aparecem
Os dados ajudam a localizar os pontos de desconexão. O relatório Occupational Fraud 2026, da ACFE (Association of Certified Fraud Examiners), com 2.402 casos em 143 países, aponta que 43% das fraudes foram detectadas a partir de um relato e que um esquema típico dura 12 meses antes de ser descoberto. A estimativa é de perda de cerca de 5% da receita anual.
Na relação com parceiros, pesquisa do Gartner divulgada em 2025 indica que mais de 82% dos líderes de compliance enfrentaram consequências ligadas a riscos de terceiros nos 12 meses anteriores. A gestão de terceiros foi apontada como a principal prioridade do grupo.
Programação construída a partir das desconexões
Os quatro painéis do evento trataram de conflito de interesses, gestão de terceiros, inteligência artificial aplicada a canais de denúncia e sanções internacionais e listas restritivas na relação com parceiros comerciais. Participaram executivos de Embraer, Mercedes-Benz, Norsk Hydro, Howden Brasil, Fundação Butantan, TozziniFreire, Elopar, Clariens Educação, MetLife, Natura Pay, Unimed Campinas, Grupo Biolab, OEC e Qualicorp.
Na frente tecnológica, a triagem de relatos dos canais de denúncia e o cruzamento de dados de terceiros com listas restritivas e de sanções concentraram as discussões. O objetivo é automatizar processos operacionais e acompanhar obrigações regulatórias para que a equipe se dedique à análise e à decisão. Levantamento do Gartner com 161 executivos de auditoria interna, de maio de 2026, mostra que 93% dessas áreas usam IA em algum nível, e 60% ainda não têm estratégia formal para a tecnologia.
“Quando uma fabricante de aeronaves, uma fundação de pesquisa e um escritório de advocacia comparam como enfrentam os mesmos problemas, fica claro que a integração é um desafio de todo o mercado. A tecnologia ajuda quando os dados de cada área passam a conversar. Sem isso, cada frente continua enxergando só a sua parte do risco”, diz Erthal.
A realização foi da clickCompliance e do Kronoos, empresas de tecnologia para compliance reconhecidas como Top LegalTech pelo ranking 100 Open Startups. Para quem responde pelo programa de integridade, a mensagem da primeira edição foi que canal, política de conflito de interesses e due diligence precisam operar conectados para que a efetividade avaliada pela regulação apareça na rotina.