
O lucro registrado no balanço costuma ser o primeiro número consultado por quem avalia uma empresa. Isoladamente, porém, ele pode transmitir uma imagem de solidez que não corresponde à situação real do negócio. Empresas lucrativas podem caminhar para uma crise financeira quando não conseguem converter seus resultados em recursos disponíveis no momento em que as obrigações vencem.
A análise é de Agenor de Lima Bento, advogado, professor, mestre em Direito, doutorando em Direito Empresarial e Cidadania e administrador judicial. Para ele, o principal risco está em avaliar o negócio por um único indicador.
“O empresário muitas vezes olha para o faturamento e acredita que a empresa está saudável. Mas uma operação pode faturar milhões e, mesmo assim, não ter capacidade de honrar suas obrigações. O primeiro sinal de alerta costuma aparecer no caixa”, afirma.
Leitura integrada
Segundo o especialista, faturamento, margem de lucro, EBITDA, fluxo de caixa, endividamento e capacidade de pagamento precisam ser examinados em conjunto. Cada indicador revela uma dimensão distinta da operação, e a combinação entre eles permite identificar descompassos que um número isolado esconde. A análise restrita ao faturamento, por exemplo, não revela se a empresa vende a prazo com margens pequenas ou se financia prazos longos concedidos aos clientes.
O conceito de empresa saudável, nessa perspectiva, deixa de estar associado ao volume de vendas. Saudável é a empresa capaz de transformar sua atividade econômica em recursos suficientes para cumprir obrigações e financiar a própria operação.
Quando o crescimento eleva o risco
A leitura integrada ajuda a explicar por que crescer também pode ser perigoso. Se cada nova venda aumenta a necessidade de capital e a empresa não dispõe de recursos para sustentar a expansão, faturamento e endividamento passam a subir juntos. Esse movimento pode indicar o uso de novas dívidas para quitar obrigações antigas ou financiar despesas correntes.
O custo do crédito agrava o quadro. De acordo com a economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, a perspectiva de juros altos por mais tempo encarece o financiamento e reduz a capacidade das empresas de rolar suas dívidas. Em julho de 2026, o Indicador de Inadimplência das Empresas da instituição registrou 9,2 milhões de CNPJs negativados, com R$ 238,6 bilhões em dívidas em atraso.
Passivo como peça central
Entre os elementos da análise, o especialista destaca a visão consolidada do passivo. Em empresas sob pressão financeira, empréstimos bancários, fornecedores em atraso, tributos pendentes, parcelamentos e ações judiciais costumam estar dispersos por diferentes áreas, o que compromete a tomada de decisão.
“Antes de decidir entre buscar crédito, renegociar dívidas, reestruturar a operação ou até mesmo encerrar a atividade, é fundamental conhecer o tamanho e a natureza do passivo”, observa Bento.
Diagnóstico e alternativas
A leitura conjunta dos indicadores também orienta a escolha das medidas. A depender do diagnóstico, elas vão da renegociação de contratos e da reorganização de dívidas a mecanismos jurídicos de reestruturação, como a recuperação judicial. O Indicador de Falências e Recuperações Judiciais da Serasa Experian registrou 977 processos de recuperação judicial em 2025, alta de 5,5% em relação a 2024 e o maior volume desde 2016, envolvendo 2.466 empresas.
Para gestores e conselhos, a recomendação é acompanhar os indicadores de forma integrada e periódica, sem esperar que a crise se manifeste no caixa. Lucro positivo, isoladamente, não assegura que a empresa terá condições de honrar seus compromissos.